As tentativas de saída e as contradições
de uma crise capitalista que se prolonga
«Todas as vantagens que um país obtém sobre o outro tendem a arruinar aquele que as concede», Marquês de Pombal, in Comércio e Poder, de Sandro Sideri
Prossegue, e está longe de ser ultrapassada, a crise que alguns datam e denominam como a crise de 2008, ou a crise de 2008/2009, ou ainda a crise de 2007/2009, por comodidade ou procurando dar a ideia que a crise já pertence ao passado.
O elevado desemprego, a grave situação social, o aumento das desigualdades, a estagnação ou um crescimento anémico mantêm-se nos três principais pólos do imperialismo: Estados Unidos da América (EUA), União Europeia (UE), Japão.
A chamada crise da dívida pública na União Europeia, o grave problema do endividamento externo e a ameaça de deflação que atingem tantos países não são questões distintas mas reflexos da crise que rebentou em Agosto de 2007.
A crise mantém-se praticamente há sete anos, com o sistema financeiro ainda atolado em lixo tóxico, activos sobrevalorizados e assistido pelo Banco Central Europeu (BCE) e respectivos bancos centrais.1
Estamos perante uma das mais profundas e mais longas crises do sistema capitalista. As medidas tomadas, ditas de rigor, de austeridade, de políticas de «oferta» e assentes no tudo à exportação e à redução do défice público, têm procurado, no essencial, passar os custos da crise, da capitalização e do desendividamento da banca para os trabalhadores e os povos!
Com a redução da procura interna, cada país tenta sair da crise pelas exportações, isto é, à custa do alargamento do mercado interno dos outros. Tem sido uma política votada ao fracasso pois cada país está dependente do desenvolvimento dos seus «clientes». Como a crise é sistémica e as medidas tomadas têm visado, no geral, a diminuição ou a limitação do poder de compra das massas, a saída só pelas exportações tem sido incapaz de dinamizar as economias.
O insuspeito Martin Wolf assinalava, no Finantial Times, esta questão da insuficiência da procura, afirmando que «sem um boom de crédito, a economia mundial mostra-se incapaz de gerar um crescimento da procura suficiente para absorver a oferta potencial». Reconhece a insuficiência da procura, mas a solução que avança é a velha «solução» do aumento da procura a crédito e não pelo aumento do poder de compra das populações.
Acresce que na UE há um número significativo de países que são penalizados por um euro sobrevalorizado em relação ao perfil das suas exportações.2
A esperança residia no aumento da procura externa de países como a China e dos outros países «ditos emergentes» e das locomotivas, Alemanha e EUA.
Mas estas ilusões não passaram disso mesmo, de ilusões.
A China, cujo crescimento tem vindo também a diminuir, tem absorvido alguma produção, mas, no essencial, tem vindo a satisfazer o crescimento do seu mercado interno com produção interna. Por outro lado, o modesto crescimento dos EUA tem sido alimentado artificialmente pela criação monetária e as despesas militares.
Quanto aos países «emergentes», há um recuo substancial do seu crescimento, com a «guerra das moedas» e a especulação bolsista retirada de capitais, e a redução significativa dos seus mercados internos.
A produção industrial, tal como o consumo interno, caíram para o nível de 2009 em dezanove dos mais importantes países emergentes. As exportações também caíram ou estagnaram.
O Japão regressou à recessão, apesar das diversas tentativas para combater a deflação pela expansão monetária. Na UE a crise deixou de atingir somente a periferia para atingir também o centro Alemanha, França, Itália.
O mundo não entrou globalmente em recessão, mas o que se prevê é um longo período de fraco crescimento e de estagnação, não sendo de excluir novas «explosões»!
Mesmo os «mercados financeiros» prevêem «um crescimento e uma inflação anormalmente fracos na zona euro até 2017, seguido de uma melhoria, mas numa situação ainda não completamente normalizada até 2020», Natixis, 13/10/2014, N.º 795.
Passou o tempo da apologética da globalização triunfante, das exportações como único motor do crescimento e das políticas ditas de austeridade, que mostraram, na prática, a sua falência.
Não deixa de ser irónico que, face à falência da orientação seguida, políticas de crescimento, investimento público e grandes obras públicas apareçam agora a ser defendidas por responsáveis de várias instituições internacionais (FMI, OCDE, ...) e por dirigentes da social democracia, sem deixarem de referir, sintomaticamente, a continuação da defesa das «reformas estruturais».3
O «mix» de políticas de investimento, com «reformas estruturais», leia-se em relação a estas a liquidação do Estado social e liquidação de direitos laborais, é agora a palavra mágica nas intervenções de responsáveis políticos, designadamente sociais-democratas, para responder à crise... em palavras.
O «mix» de políticas e a flexibilização do défice são dois vectores que vão sendo acenados como resposta à crise na UE.