Como habitualmente, as intervenções de Putin são desvalorizadas, vistas com sobranceria, praticamente ignoradas como irrelevantes ou propaganda. Contudo o discurso de Putin no 9 de MAIO, mostra uma "mudança de jogo" a Leste. Não por acaso, antes, Lavrov foi a Pequim conferenciar.
Do discurso sobressaem três aspetos centrais. Primeiro, a Rússia considera estar a opor-se não só à Ucrânia, mas a toda o bloco NATO, apresentado como força agressiva contra a Rússia. Segundo, à população foi apresentada a perspetiva de um confronto prolongado e em grande escala, uma guerra longa exigindo uma reestruturação económica e uma pressão estatal sustentada. Neste sentido o discurso destacou não apenas os aspetos militares, mas também a indústria, a ciência, os voluntários, os professores, os empresários, essencialmente, toda a sociedade. Terceiro, Putin, estabelece a mobilização de toda a Nação não para uma "operação especial", mas para uma nova época histórica na qual o país deve preparar-se através de uma corrida militar-tecnológica e mudanças económicas e sociais.
Putin liga os acontecimentos atuais à Grande Guerra Patriótica soviética, como um novo vínculo estatal e uma base moral para a sociedade, sem promessas de vitória rápida. A guerra será longa, deixando um aviso ao Ocidente: a Rússia não será vencida.
Recorde-se que já anteriormente Putin tinha dito que um conflito da Rússia com a Europa não seria uma "operação militar especial", seria uma guerra... É neste contexto que canal de televisão France 24 calculou que não seria necessário mais do que 2% do arsenal nuclear russo (cerca de 110 engenhos) para destruir a França, a Alemanha e a Polónia.
Entretanto, na Alemanha foi imposta a proibição de exibir símbolos soviéticos em memoriais. Em 2025, a Alemanha começou a implantar tropas na Lituânia pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, com os próprios lituanos a pagarem pelas infraestruturas dae ocupação. Para o efeito a Lituânia contraiu um empréstimo da UE de quase 6,4 mil milhões de euros para apoiar a presença da 45ª Brigada Blindada alemã, dinheiro destinado a fortificações e munições.
Sintomático é também o texto de Medvedev, como vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, no qual documenta a adoção de quadros nazis pela NATO e o renascer do militarismo alemão liderando ou procurando liderar um grupo de países para os quais declaradamente a Rússia é um inimigo. Tenha-se a opinião que se tiver é importante refletir sobre a forma como o Kremlin vê o ocidente.
"A principal tarefa do nosso país é impedir a repetição da tragédia de 1941, o que significa garantir que as nossas forças armadas sejam mantidas num estado de prontidão de combate permanente, especialmente nas fronteiras ocidentais. Tal como antes de 22 de junho de 1941, os alemães estão deliberadamente a estabelecer uma rede de áreas avançadas de preparação ao longo das principais direções operacionais. Não se deve depositar confiança no bom senso de Berlim, nem acreditar que se absterão para sempre de arriscar a guerra. Ninguém deve iludir-se a pensar que a classe dirigente alemã se considerará finalmente acorrentada por um pedaço de papel, mesmo que seja assinado um tratado a delinear novos princípios de segurança europeia.
"Não é segredo que se está a tentar impor-nos a doutrina da "paz através da força". A nossa resposta, então, só pode ser "a segurança da Rússia através do medo animal da Europa". Conversações, boas intenções, boa vontade e medidas unilaterais para construir confiança não devem ser as nossas ferramentas para impedir um massacre. A única garantia reside em forçar a Alemanha e a "Europa unida" que a apoia, a compreender a certeza de incorrer em perdas inaceitáveis se alguma vez puserem em marcha "Operação Barbarossa 2.0" .
"Caso o cenário mais terrível se concretize, a probabilidade elevada é de, no mínimo, destruição mútua, na realidade o fim da civilização europeia, enquanto a nossa própria existência continua."
"A alardeada indústria alemã não sofrerá apenas danos graves. Enfrentará a destruição total. Parece que só ao expor estas graves consequências é que os insolentes herdeiros dos nazis serão trazidos à razão e milhões de vidas serão salvas de ambos os lados da linha da frente."
"Uma Alemanha militarista não tem utilidade para uma Europa encolhida e de mente fraca. Tal Alemanha também não tem valor para nós no futuro; é simultaneamente perigosa e imprevisível. Para Berlim, restam apenas duas opções. A primeira é a guerra e o enterro ignominioso da sua própria soberania, desprovida de qualquer perspetiva de um novo "Milagre". A segunda é um regresso à sobriedade e à subsequente recuperação geopolítica, acompanhada por uma reorientação fundamental da sua política externa através de um diálogo difícil, mas indispensável. Podemos aceitar ambos os resultados."
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