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18 de janeiro de 2020

Um Trump em miniatura

O embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, falou diretamente com Jair Bolsonaro para expressar o incômodo da comunidade israelense no Brasil com a fala de Roberto Alvim inspirado em Joseph Goebbels, ministro de Hitler 
Regina Duarte, figura carimbada nas manifestações da direita, foi convidada para substituir Roberto Alvim na Secretaria Nacional de Cultura. A atriz da Rede Globo disse a interlocutores que ficou animada e promete resposta a Jair Bolsonaro até este sábado.
Ao mesmo tempo 

Bolsonaro aciona máquina da Receita Federal contra artistas da Globo

Em sua guerra contra a mídia, o governo Jair Bolsonaro envia cartas de autuação, dando 20 dias para justificarem a opção pelo contrato de pessoa jurídica ao invés do vínculo CLT com a emissora da família Marinho. A Receita pretende cobrar dos globais o imposto de renda de pessoa física (27,5%) mais multa (até 150%) e juros dos últimos 5 anos de contrato.

17 de janeiro de 2020

O Brasil de Bolsonaro

Cultura Nazi , Corrupção e mentira
O secretário nacional de Cultura, Roberto Alvim, copiou a proposta nazista ao propor uma nova arte para o Brasil. Reproduzindo uma fala de Joseph Goebbels, ideólogo da propaganda nazista, ele propôs uma nova arte para o Brasil. "A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada", disse ele.
Goebbels já havia dito coisa bem parecida no auge do nazismo. "A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada", afirmou.
Para completar o quadro grotesto, Alvim postou seu vídeo com a ópera de Richard Wagner, compositor preferido dos nazistas ao fundo. 

16 de janeiro de 2020

A financeirização do ambiente e tudo à volta

Notas sobre o programa do governo minoritário do PS na área ambiental

Vladimiro Vale
Membro da Comissão Política do Comité Central do PCP


As medidas em torno do programa do Governo do PS na área do ambiente, para lá da propaganda, resultam de opções estruturais que pretendem afirmar mecanismos que se destinam a garantir a acumulação da riqueza mascarados de preocupações ambientalistas.
Logo à cabeça o programa do Governo PS aposta nos chamados instrumentos de mercado na área ambiental. As licenças de emissão de CO2 são apelidadas de «instrumento principal», passando por cima da evidência de que estes mecanismos já demonstraram que não resolvem o problema, tiveram efeitos contrários aos anunciados no plano da UE e apenas criam mecanismos especulativos desenhados para acumular dinheiro nas mãos dos grupos que têm responsabilidades na degradação ambiental. 
O Governo reafirma aquilo que os centros do capital chamam de Fiscalidade Verde que, como sabemos, o adjectivo verde esconde a penalização das camadas laboriosas, passando o ónus da degradação ambiental do modo de produção capitalista para todos e cada um dos trabalhadores e para os seus comportamentos individuais. A financeirização do ambiente encontra ainda expressão na aposta na «transformação da Instituição Financeira de Desenvolvimento SA num Banco Verde» e na criação de «produtos financeiros», nas palavras do Governo «atractivos a cidadãos para a aplicação das suas poupanças» e também as Obrigações Verdes (Green Bonds). Ou seja, claramente aposta na financeirização do ambiente, querendo aplicar o capitalismo à Natureza, apresentando-o como sistema natural e expondo as políticas ambientais e a sociedade aos mecanismos que têm conduzido a bolhas especulativas e a crises financeiras que têm resultado em efeitos nefastos do ponto de vista económico e social.
Este tipo de medidas encaixam nas pretensões expressas pelo FMI no sentido da «precificação do carbono, ou seja, cobrar pelo conteúdo de carbono dos combustíveis fósseis ou de suas emissões» afirmando que «um preço consideravelmente inferior a US$35 por tonelada seria suficiente para cumprir os compromissos dos países do G20», ou seja, avançam com o que será o próximo passo após a criação dos mecanismos especulativos – intervir no mercado (tão neoliberais que são!) para garantir os lucros aos capitalistas.
Escondendo que estes mecanismos não funcionam, que visam apenas a obtenção de lucro, a acumulação de riqueza e o aprofundamento das desigualdades, os centros de decisão do capital na União Europeia investem na apropriação e mercantilização das funções e processos da Natureza, atribuindo ao que chamam os serviços dos ecossistemas ou serviços ambientais um preço e colocando-os no mercado. Apesar de a experiência europeia de transacção de quotas de carbono ter demonstrado a sua ineficácia e a perversidade dos seus instrumentos, a insistência é muita na implementação destes sistemas.
No sítio da internet do FMI podemos encontrar exemplos destes objectivos do capital. Num artigo recentemente publicado, o FMI propõe resolver o problema da diminuição da população de baleias atribuindo um valor monetário pelo seu «serviço» de sequestro de carbono, atendendo ao preço do carbono no mercado. Estimam em 1 trilião de dólares o preço dos serviços das baleias. O artigo segue formulando perguntas de como deveria esse preço ser distribuído por países, indivíduos e negócios. Ou seja, o preço das baleias ficaria sujeito às flutuações do mercado e estão a arranjar a devida fundamentação para se apoderarem destes «serviços» e cobrarem por eles.
No campo dos resíduos, o programa do Governo avança com o princípio (dito em inglês para credibilizar e amenizar as consequências) «Pay as you throw» «pagas se deitas fora» –, ou seja, a aplicação do princípio do poluidor pagador que significa que, quem tem dinheiro pode «deitar fora«, ou seja, quem será penalizado, em primeira análise, serão as populações que ficarão com o ónus da degradação ambiental.
No texto do Governo são variadíssimas referências à educação ambiental mas sempre da perspectiva do consumidor, ou seja, vincando esta intenção de ilibar o modo de produção capitalista do seu papel de destruição ambiental e passar o ónus ao indivíduo. Refere a criação de módulos escolares que assentam também nestas mudanças comportamentais individuais. Ou seja torcem-nos desde pequeninos… para nos convencerem de que os problemas ambientais estão acima da sociedade e das classes, e por isso o capitalismo não é responsável pelo seu aparecimento. Portanto o programa do Governo PS segue uma linha que pretende resolver os problemas ambientais exclusivamente com a mecanismos financeiros e especulativos, com a taxação dos comportamentos individuais a mercados ditos verdes e consumo também dito verde, que para além de não resolverem os problemas têm efeitos contrários aos enunciados. 
No programa é reafirmada a intenção de avançar dos chamados projectos de cogestão das áreas protegidas. Projectos que pretendem avançar com a desresponsabilização do Estado, também na área do ambiente, significarão um incentivo à privatização de importantes áreas com vista à mercantilização da Natureza e dos recursos naturais. Afastando a gestão das áreas protegidas daquilo que é a proposta do PCP, de que a cada Área Protegida de âmbito nacional deve corresponder uma unidade orgânica de direcção intermédia da administração central, dotada dos meios humanos e técnicos, com um director.
O chamado «Projecto Piloto para a Gestão Colaborativa do Parque Natural do Tejo Internacional« insere-se nesta linha. Assinado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), pelos municípios de Castelo Branco, Idanha-a-Nova e Vila Velha de Ródão, o Instituto Politécnico de Castelo Branco (IPCB), pela Associação Empresarial da Beira Baixa (AEBB) e pela Quercus o protocolo prevê, por exemplo, a identificação no «quadro de colaboradores» dos diferentes signatários «elementos que contribuam» para «concretização de missões específicas», ou seja, uma maneira de cortar nos meios materiais e humanos do ICNF para a gestão destas áreas.
Apesar de referir medidas no âmbito de aumento de garantias de produtos, na possibilidade de reparação e substituição de peças, está longe de aprofundar a questão colocada pelo projecto do PCP contra a obsolescência programada.
Falam da criação do Cluster do Lítio mas, como é óbvio, nada dizem sobre medidas que recuperem o controlo público sobre a prospecção e exploração de recursos geológicos e minerais, assim como para o desenvolvimento das capacidades técnicas e científicas neste sector, fugindo à evidência que a prospecção e exploração por empresas privadas e grupos económicos multinacionais não garantem a salvaguarda dos interesses do país, do ponto de vista económico, social e ambiental.
O programa do Governo aponta ainda a criação de incentivos económicos ao sequestro do carbono. Ora isto pode permitir, por exemplo, atribuição de incentivos económicos aos grupos da pasta de papel pelo captura de CO2 feita pelas monoculturas de eucalipto.
O anúncio do fecho das centrais a carvão, apesar do tratamento mediático, não esclareceu as previsíveis consequências em termos de soberania energética, nem avançou com explicações sobre as consequências no sistema electroprodutor nacional, por absurdo (ou não) sem estes esclarecimentos este encerramento pode conduzir ao aumento da importação de energia gerada em centrais a carvão de outros países europeus. Nem tão pouco avança com a avaliação do impacto ambiental que significará o desmantelamento dos equipamentos instalados, nem muito menos com as consequências para os trabalhadores afectados.
Assim o programa do Governo insere-se numa linha de mercantilização da Natureza que tende a penalizar os trabalhadores e o povo, desresponsabilizando o modo de produção capitalista.
Numa perspectiva patriótica e de esquerda é fundamental que, face aos problemas ambientais criados pelo modo de produção capitalista, não se legitimem mecanismos de mercantilização da Natureza, não se apaguem as responsabilidades do capitalismo na degradação da Natureza, não se transferiram custos para as camadas empobrecidas e para os povos do mundo.
Temos afirmado que Portugal precisa de uma viragem na política ambiental. Uma política ambiental visando a preservação do equilíbrio da natureza e dos seus sistemas ecológicos, que respeite o «princípio da precaução» face a novas ameaças e problemas, contribuindo para prevenir os efeitos das alterações climáticas, e que garanta a democratização do seu acesso e usufruto da natureza, combatendo a mercantilização do ambiente e a sua instrumentalização ideológica e política pelo grande capital. O programa do Governo não garante essa viragem, pelo que é fundamental a luta por uma política patriótica e de esquerda também na área ambiental. 
Política patriótica e de esquerda que passa pela luta contra a mercantilização da Natureza, de exigência de reforço dos meios do Estado para desenvolver uma verdadeira política de defesa do equilíbrio da Natureza. É necessário diminuir a dependência dos combustíveis fósseis com a promoção de alternativas energéticas de domínio público. Promover o transporte público em detrimento de soluções que apontam para manter o paradigma do transporte individual. Reduzir emissões com um normativo específico, e não com atribuição de licenças transaccionáveis que potenciam a especulação e não resolvem o problema. Combater a pressão para a mercantilização da água e a desresponsabilização do Estado na defesa da Natureza e do ambiente. Defender a produção local, contrariando a liberalização do comércio mundial e defendendo que a luta pelo equilíbrio ambiental tem de estar sempre associada à luta pela Paz. A guerra, o militarismo e a indústria do armamento são dos fenómenos mais poluentes no nosso mundo.

15 de janeiro de 2020

Onde estão os defensores dos direitos do Homem

Onde está Santos Silva , UE , Amnistia Internacional , Human Rights Watch , Jorge Soros...RTP, TVI , SIC...? pois não se ouve uma palavra sobre os assassinatos na Colombia 
https://prensarural.org/spip/spip.php?article25008
La Universidad Javeriana elaboró una base de datos sobre las empresas colombianas y extranjeras que han sido mencionadas en las sentencias de Justicia y Paz como presuntas colaboradoras de los grupos paramilitares. La relación entre estas empresas y paramilitares permitió la muerte de opositoras al modelo económico y político neoliberal. Una crisis humanitaria que en menos de 12 días de 2020 ya cobró la vida de 14 líderes y lideresas sociales.
Sectores de la economía nacional como el de la explotación de hidrocarburos, los monocultivos de caña de azúcar y palma de cera, la ganadería extensiva junto a la producción de contenidos en medios de comunicación tradicionales, colaboraron con grupos paramilitares y son responsables de su promoción y consolidación en toda Colombia desde hace más de dos décadas.
Para las empresas los líderes y lideresas no permiten desarrollar sus negocios, por ello necesitaron que los paramilitares utilizaran la violencia en favor de los intereses económicos de empresas como Chiquita Brands y Postobón.
La Ley de Justicia y Paz ó Ley 975 de 2005, que permitió la desmovilización problemática de grupos paramilitares en el gobierno de Alvaro Uribe (2002-2010)-, fue un escenario para que paramilitares como Salvatore Mancuso, el Iguano, Monoleche y muchos más confesaran cómo funcionaban estas estructuras criminales. Varias empresas colombianas e internacionales apoyaron con dinero y logística a las Autodefensas Unidas de Colombia -AUC-, según estos comandantes.
RCN Televisión, la Federación Nacional de Ganaderos, Ecopetrol, Chiquita Brands, Postobón, Cementos Argos, son algunas de las varias empresas señaladas durante las confesiones de los paramilitares.
Extractivismo
Por ejemplo, Ecopetrol es señalada por Salvatore Mancuso de pagar un porcentaje del monto de los contratos adjudicados «oscilaba entre el 2 % y el 5 %, dependiendo del valor y la naturaleza del mismo, obras civiles, prestación de servicios o suministro de bienes».
El pago del porcentaje, que confesó Mancuso, podía cancelarse de contado o en cuotas mensuales. En ocasiones, estos desembolsos se hacían en especie, representados en artículos de primera necesidad. Igualmente, Ecopetrol realizó entrega de dinero voluntario a las Autodefensas Unidas de Colombia -AUC- a cambio de seguridad.
Ecopetrol promovió varios homicidios en la mal llamada limpieza social en la zona en donde estaban instaladas las sedes petroleras, «decían que combatían a extorsionistas y guerrilleros, y los pagos a los paramilitares eran hechos directamente por los directivos y administradores de cada una de las empresas. Se consideraba a Ecopetrol como un integrante orgánico de la estructura del Bloque Catatumbo pues tenía capacidad para determinar delitos», sentenció Mancuso.
Monocultivo de caña
Postobón, que pertenece al grupo empresarial de Carlos Ardila Lulle, según Javier Antonio Quintero Coronel, responsable del Frente Héctor Julio Peinado Becerra en el departamento Cesar, le daba mensualmente 15 cajas de bebidas al Frente paramilitar para luego negociarlas en un depósito. Le ordenaban a un carro que repartía las bebidas que las dejara en determinado lugar, y la persona del depósito le daba al Frente $150.000 pesos mensuales. «Eso lo ordenó el gerente de Postobón que estaba el año 1999 o 2000», reafirmó Armando Madriaga Picón.
Jorge Iván Laverde Zapata, conocido como El Iguano, señaló que Postobón en Norte de Santander ayudaba por intermedio de sus directores o administradores, a cambio de seguridad. Los mayores aportes los recibió el Frente Fronteras. Postobón fue una de las empresas más representativas en contribuir con las finanzas del Bloque Catatumbo, una región golpeada significativamente por el paramilitarismo.
Ganadería extensiva
De igual manera, en este departamento del nororiente colombiano, la Federación Nacional de Ganaderos – Fedegan- integró activamente la estructura del Bloque Catatumbo, hasta el punto de «ostentar poder de mando y control», declaró Mancuso. Se le sindicó de utilizar su rol económico para materializar el cumplimiento de los objetivos criminales aliados a la ganadería extensiva.
En Córdoba, el Fondo Ganadero es señalado pues el ganadero Rodrigo García Caicedo sirvió como intermediario para contactar a otros empresarios industriales como Hernán Echavarría, para concretar formas de cooperación con los paramilitares y expandir su alcance criminal en el departamento del Valle del Cauca.
Multinacionales
La empresa Chiquita Brands, de Estados Unidos, según Jesús Ignacio Roldán Pérez, conocido como Monoleche, aseguró que el 5 de noviembre de 2001, en el puerto de Chiquita Brands, en el departamento Magdalena, ingresaron 14 contenedores con 3.400 fusiles AK 47 y 7 millones de cartuchos para fusil con destino a los grupos paramilitares, traídos en el buque Otterloo.
«Los contenedores, descargaron en la bodega de Chiquita Brands y la empresa envió una grúa sofisticada para su movilización. Los 14 contenedores, que fueron declarados ante la Dian como un cargamento de pelotas de caucho, fueron trasladados luego a las fincas La Rinconada y La Maporita» explicó Roldán, comandante del Bloque Bananero de las AUC.
En Antioquia Las multinacionales bananeras Chiquita Brands y su filial BANADEX, junto a las Comercializadoras Sunisa S.A, Conserva S.A, Uniban, Tropical S.A, Proban, Banafrut, Bagatela S.A y Agrícola Rioverde, financiaron de forma periódica a los grupos paramilitares: «pagaron 3 centavos de dólar por caja de banano exportado desde 1997 a 2007», confesó José Gregorio Mangones Lugo, alias Carlos Tijeras.
Según la Sala judicial que recibió el testimonio de Mangones, la canalización de los recursos -que se dio mediante la CONVIVIR Papagayo-, incidió en las formas de victimización del Bloque Bananero, pues hubo incentivos materiales para asesinar a trabajadores sindicalizados y militantes de partidos políticos de izquierda.
Coca-Cola, que no es mencionada por el estudio de la Universidad Javeriana, fue llevada a juicio en Estados Unidos gracias a las denuncias del sindicato colombiano Sinaltrainal. Esto, porque la empresa norteamericana contrató paramilitares de las AUC para asesinar a 9 sindicalistas en sus plantas embotelladoras entre los años 1990 y 2002.
Uno de los líderes sindicales asesinados fue Isidro Segundo Gil, dirigente del sindicato Sinaltrainal, quien negociaba un pliego de peticiones con la planta de Coca-Cola en Carepa -Antioquia-. La mañana del 5 de diciembre de 1996 un grupo de paramilitares de las AUC llegó hasta el sindicato de la embotelladora y lo asesinó.

O Neoliberalismo não é compatível com a democracia

António Avelãs Nunes


1. Na tentativa de esconder a existência do estado capitalista enquanto estado de classe, enquanto ditadura da burguesia, o discurso dominante insiste na tese de que o neoliberalismo é um sistema libertário, que dispensa o estado.
A social-democracia europeia reconhece hoje que «mudou radicalmente de atitude face ao estado», ao longo do século XX: em 1.º lugar, porque abandonou a «posição libertária de querer destruí-lo [ao estado capitalista], como dominação e factor de dominação burguesa»; em 2.º lugar, porque houve uma mudança no que toca à «arquitectura institucional do estado.» Em Portugal, Augusto Santos Silva apresenta o estado capitalista como um «espaço de integração social e intervenção política para as organizações vinculadas ao movimento operário», como «expressão da comunidade política nacional», como «espaço de pertença de toda a colectividade», como «representação política de toda a sociedade.»
Num tempo em que «as eleições são obscenamente caras», o direito a participar no estado transformou-se num ‘bem’ que tem de se ‘comprar’ no mercado, e este ‘mercado’, como todos os outros, é controlado pelo grande capital: a soberania do cidadão (como a soberania do consumidor) é pura fantasia. Quem tem dinheiro, ganha as eleições. E todos sabemos que não há almoços grátis… Como sublinha Stiglitz, «os mercados são modelados pela política», porque «as políticas determinam as regras do jogo económico», sendo certo que «o campo do jogo está inclinado para os 1% do topo», porque «as regras do jogo político também são moldadas por esses 1%.»
Não quero chamar corporativistas aos que defendem estas concepções. Mas a identificação do estado como «representação política de toda a sociedade» implica a negação da existência de classes sociais com interesses antagónicos, e implica a defesa da colaboração de classes no seio de um estado que se diz representar toda a sociedade, um estado acima das classes e dos interesses de classe. O estado capitalista ‘desaparece’ enquanto estado de classe e ‘desaparecem’ também as classes sociais, substituídas pelos parceiros sociais, que, em vez de alimentarem a luta de classes, praticam o diálogo social, buscando o bem comum em conjunto (o capital e o trabalho) no seio dos organismos de concertação social, sob a arbitragem do estado, que se afirma como uma entidade neutra, acima das classes
É uma concepção insustentável, sobretudo num tempo em que a actuação do estado capitalista como estado de classe se afirma, todos os dias, em políticas que sacrificam não só os direitos que os trabalhadores foram conquistando ao longo de séculos de lutas, mas também os interesses de grandes camadas da pequena e média burguesia ligada às actividades produtivas. O estado capitalista é hoje, claramente, a ditadura do grande capital financeiro


2. O estado capitalista já foi estado liberal, um estado que proibiu e criminalizou, durante longo tempo, a organização dos trabalhadores em sindicatos, que impediu, enquanto teve força para tanto, o sufrágio universal, e que o suspendeu recorrentemente sempre que a burguesia dominante entendeu que era preciso «afirmar contra a vontade do povo (…) a vitória conseguida até aí pela vontade do povo.» Foi mais tarde estado fascista (um estado violenta e assumidamente anti-trabalhadores); e foi depois estado social (solução de compromisso que as circunstâncias recomendaram ou exigiram), tal como agora é estado regulador ou estado garantidor, que asfixia o estado social para garantir ao grande capital a absorção por inteiro dos ganhos da produtividade. 


3. Deslumbrados com os ‘êxitos’ dos chamados trinta anos gloriosos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, alguns acreditaram que o keynesianismo tinha descoberto a cura para as doenças congénitas do capitalismo e tinha tornado obsoleto o marxismo. Mas o optimismo esmoreceu rapidamente a partir do início da década de 1970. Em Agosto/1971, os EUA romperam unilateralmente o compromisso assumido em Bretton Woods de garantir a conversão do dólar em ouro a uma certa paridade. As taxas de câmbio escapam ao controlo das autoridades nacionais ou de uma agência da ONU (papel que cabia ao FMI), ficam na inteira dependência dos ‘mercados’ (ou seja, dos especuladores profissionais). Começa então, na prática, a contra-revolução monetarista e o reinado do neoliberalismo.
As chamadas crises do petróleo (1973-75 e 1978-80) trouxeram um fenómeno novo, a estagflação, caracterizada pela coexistência de recessão e de desemprego (por vezes acentuados) e inflação com taxas elevadas e crescentes. Ficaram à vista as limitações das políticas keynesianas. Como Marx e o marxismo sempre defenderam, nas economias capitalistas os desequilíbrios, a instabilidade e a incerteza são a regra, não a excepção. 
A direita neoliberal (Hayek, Milton Friedman) aproveitou a onda para decretar a «morte de Keynes», desacreditar as políticas de pleno emprego, fazer guerra aberta ao movimento sindical e atacar o estado social. Com o apoio de uma campanha de propaganda ideológica nunca antes vista, o neoliberalismo impõe-se como a ideologia do império e do pensamento único, uma espécie de ‘religião’, para cuja «única fé verdadeira» se diz que não há alternativa. Escreve Paul Krugman: chegou-se à «idade das trevas da macroeconomia.»

14 de janeiro de 2020

Argumentos requentados

Alguns escrevinhadores de fim de semana têm publicado artigos procurando salientar as virtudes do capitalismo com os velhos argumentos de que  povo vive agora  muito melhor Um lembra o tempo em que estava na sua aldeia . Outro chega mesmo a comparar os tempos de hoje com  os tempos do seu avô!
Ninguém perguntou a tão arguto plumitivo quanto tempo é que ele demora a chegar a Paris e quanto tempo demorava o seu avô!
Sendo  este ainda relativamente novo deve pensar que as conquistas sociais caíram do céu , que não foram duramente conquistadas , com muita luta e muito sofrimento. Nenhuma foi dada. 
Não se deu conta que muitas das conquistas que ainda temos são fruto da Revolução de Abril que foi uma revolução democrática, nacional e anti capitalista e que muito do que se perdeu, perdeu se precisamente com a recuperação capitalista , latifundista e imperialista .
 Quem segue a evolução do país com atenção viu como numa relação de forças favorável aos dominantes e a pretexto da necessidade de políticas de austeridade , que foram na prática e nos seus efeitos medidas de concentração de riqueza se acabou com feriados , subsidio de férias , direitos laborais e se diminuiu salários e reformas nominais... Para que não se esqueça houve até um ilustre advogado que num artigo ousou pôr em causa o direito às férias.
E a recuperação de rendimentos e direitos  havida deve se à luta numa  relação de forças eleitoral e social mais favorável dos que não desistem de superar o capitalismo
Vivemos num tempo em que florescem maravilhosas conquistas científicas e técnicas  que são acompanhadas, ao mesmo tempo , não por avanços , mas por retrocessos sociais , pelo trabalho sem direitos e mal pago e por uma obscena concentração da riqueza.
Por isso os povos se levantam , por isso a luta continua .

Carlos Carvalhas


13 de janeiro de 2020

Dívida privada insustentável


La hausse de la température n’est pas seule insoutenable

Le montant impressionnant de la dette des entreprises revient sur le tapis. Finies, les lamentations sur la dette publique, il y a mieux à se mettre sous la dent ! La Banque mondiale fait état à son sujet de la « vague d’accumulation de dette la plus importante, la plus rapide et la plus large à ce jour », dans la foulée de la crise financière. Leurs émissions ont en effet atteint 2.500 milliards l’année passée, un record. Et la Federal Reserve of New York, le bras armé de la Fed, a renouvelé sa préoccupation en raison des conséquences qui pourraient en résulter si les conditions économiques se détérioraient.