Confessou-me um amigo nunca ter votado em partidos do governo, votava sempre à esquerda, não nos mesmos partidos, mas na verdade não sabia ao certo o que era ser de esquerda. Como diz certo fado: "eu disse que não sabia, menti naquela hora, mas vou dizer agora". Pelo menos vamos tentar.
Frederic Lordon dá-nos uma boa contribuição acerca ser de esquerda. Ser de esquerda, é uma posição em relação ao capital: não permitir o domínio do capital sobre a sociedade, não permitir que um grupo social possa converter o interesse geral no seu próprio interesse. É a relação com o capital que define uma posição de esquerda. Uma sociedade não capitalista será gerida por leis económicas diferentes das que o capitalismo determina: a maximização do lucro, não um lucro qualquer, mas o lucro monopolista e financeiro, geralmente visto no curto prazo. A visão de médio ou longo prazo é geralmente entregue ao Estado com a missão de "criar condições" para as atividades serem atrativas para o capital e desempenhar o papel que lhe couber no sistema imperialista.
A eficiência capitalista é essencialmente antissocial, todos os progressos laborais e sociais foram obtidos através de duras lutas e movimentos sindicais fortes. Parte dos sectores populares perderam esta noção, daqui o ataque, apresentado em nome da eficiência empresarial, a que estão a ser objeto aqueles progressos.
A eficiência capitalista subordina a sociedade ao poder financeiro. O escândalo não foi salvar os bancos, foi terem sido salvos sem a menor contrapartida dando-lhes carta-branca para retomarem os seus jogos em detrimento do resto da sociedade. Como afirmou Michael Hudson, uma classe cleptocrática, os "banksters", gangsters bancários, assumiu o poder económico. A economia foi capturada por um poder capaz de fazer fortunas, mas sem criação de riqueza real.
A esquerda tem de reconhecer e lutar pela necessidade imperiosa de mudar as estruturas financeiras, que devem estar sob controlo público e de forma dominante na posse do Estado.
Enfim, ser de esquerda porquê? Não podem as contradições do capitalismo ser resolvidas por uma reforma fiscal? Não, se esses impostos servissem para mudar alguma coisa (uma das ideias iniciais do reformismo social-democrata) o grande capital vendo-se ameaçado nos seus lucros, trataria de revoltar-se - exatamente o que aconteceu impondo o neoliberalismo, em que a nível mundial, 2% detêm cerca de 50% da riqueza mundial.
Há também a ideia de um "capitalismo socialmente bom", que radica numa "idílica abstração dos antagonismos de classe" (Marx, A Luta de Classes em França), uma tese que conduz à cedência às políticas de direita.
O que passa por eficiência no grande capital vive em grande medida da fraude, dos resgates com dinheiros públicos retirados aos salários, reformas e prestações sociais. O dinheiro do crime organizado, os horrores do tráfico de seres humanos, da prostituição, da droga, é absorvido pelo sistema bancário sem reais problemas. As entidades reguladoras não investigam o processo da lavagem de dinheiro da droga, levada a cabo pelos bancos, provando que o combate aos tráficos de droga e seres humanos não passa de uma farsa.
O sistema capitalista chegou a uma situação em que não tem soluções para resolver os problemas e as crises que criou, mergulhando o mundo em crises, insuperáveis neste sistema que apenas as agrava: a crise económica e financeira, a crise social, a crise ambiental, a crise militar-belicista.
Aproveitando a tragédia das guerras, seis das maiores empresas petrolíferas e de gás mundiais terão em 2026, cerca de 94 mil milhões de dólares, enquanto as famílias em todo o mundo enfrentam o aumento vertiginoso dos preços da energia, inflação e uma crise no custo de vida. A Oxfam menciona um aumento de quase 37 milhões de dólares por dia em comparação com os lucros de 2025.
Posto isto, não é política de esquerda alinhar na "democracia liberal", eufemismo para a repressão das classes trabalhadoras e a desigualdade. Não é de esquerda não lutar contra as privatizações aceitando a destruição da economia mista definida na Constituição, considerando ineficiente o controlo público sobre as grandes empresas e a finança, dizendo que isto é democracia.
Há no que se considera de esquerda um puritanismo que se manifesta contra todas as experiências socialistas existentes ou que existiram, que não consegue ver nada de positivo do ponto de vista civilizacional nessas experiências. Não têm em conta que enquanto houver imperialismo, não é possível o aprofundamento da democracia, que tem de se defender das conspirações, agressões económicas (sanções), intervenções militares. O imperialismo combate tudo o que represente soberania nacional e políticas progressistas, para estes puritanos a teoria dos dois imperialismos passou a três, assim mais vale alinhar com o que já cá está. Para quê mudar?
Este puritanismo, exibe uma superioridade moral que na prática se tem traduzido em combater os processos de transformação da sociedade capitalista, alegando que o socialismo não é um "estatismo". Não entendem que uma transformação social de esquerda tem de realizar-se através de processos de transição da sociedade capitalista existente como ponto de partida. Uma transição conduzida pelo Estado democrático (que não é "estatismo") e em que a participação popular não se pode confundir com anarquia.
Tal como nos fenómenos da física e da química, as condições iniciais definem qualquer transformação. Nas transformações sociais, não há modelos, há experiências que devem ser estudadas - sem preconceitos dos falsos puritanismos cujo resultado é manter o status quo.
1 comentário:
Como disse PEPE MUJICA. SER DE ESQUERDA É TER UMA POSIÇÃO PERANTE A VIDA ONDE A SOLIDARIEDADE PREVALECE SOBRE O EGOÍSMO.
Enviar um comentário