A Venezuela de Maduro era uma ditadura, Cuba é uma ditadura, o Irão é uma ditadura, portanto os EUA têm legitimidade para intervir nesses países, mesmo à margem do direito internacional "porque - explica um comentador - não se derrubam ditaduras seguindo o direito internacional". Outro(a) diz que o Irão é um Estado terrorista, "não há outra forma de o dizer".
Com o declínio imperial, "comentadores" acabam a chafurdar na propaganda mais obtusa. Mais uma vez vemos a "democracia" a ser instaurada à bomba com a morte dos mais frágeis e indefesos, aos quais não se aplica o direito internacional. Quanto ao terrorismo, note-se que as Al Qaeda, ISIS, Al Nosra são patrocinadas principalmente por Estados sunitas, como a Arábia Saudita, e pelos EUA. Facto.
Desculpar esta guerra procurando melhorar a condição feminina no Irão, é de uma hipocrisia total. Para serem coerentes, deviam começar pela Arábia Saudita e outros, pelos EUA dos clãs tipo Epstein, pela violência contra mulheres (incluindo assassinato) e crianças nos países ocidentais. Na antiguidade dívidas não pagas podiam representar escravatura temporária, nos países ocidentais o pagamento das dívidas estudantis (a "liberdade de escolha" das privatizações) leva a formas de prostituição. No Irão, diga-se, o grau de instrução da população, incluindo a feminina, é muito elevado. A sua capacidade científico-técnica faria inveja à maioria dos países europeus.
O dogma instituído é que os EUA têm o direito de mudar o regime no Irão - ou qualquer outro que não os favoreça. Negociações são apenas uma forma de preparar um ataque, inclusivamente incutindo na opinião pública a adesão às suas atitudes, apresentadas como tão indiscutíveis como bulas papais. Israel, apresentado como democracia, pode prosseguir a matança de palestinos e atacar os países vizinhos porque “Estado terrorista" é o Irão.
Desde o final da II Guerra Mundial, não incluindo ameaças nucleares ou outras, contam-se umas 56 intervenções militares dos EUA diretas ou com o comando das operações além de largas dezenas de golpes de Estado. Ditaduras na América Latina ou qualquer outra parte do mundo nunca incomodaram os modernos inquisidores, a questão sempre se resumiu a fazer negócios nos seus termos.
Os alvos são governos progressistas ou governos que mesmo não seguindo políticas progressistas defendam a sua soberania não aceitando o controlo imperialista ou neocolonial; países cujos recursos escapem ao controlo das transnacionais.
Os dramas impostos à população pelas sanções, bombardeamentos, violência dos mercenários são apresentados como ações pró-democracia e direitos humanos de “combatentes da liberdade". John Perkins, em "Confessions of an Economic Hit Man", já explicou isto tudo.
Estudam-se os pontos fracos do país, como o descontentamento de camadas que se considerem lesadas nos seus privilégios por políticas populares. O separatismo é impulsionado por oportunistas com um mínimo de escrúpulos e por gente de extrema direita, promovidos a líderes. Procura-se criar um caos que alastre para todo o país, levando à sua rendição perante o imperialismo. Foi o caso de Hong-Kong, Tibete, Uigures, como foi na Ucrânia ou o separatismo para liquidar a Jugoslávia, a URSS, depois a Rússia
O povo pode também ser entorpecido com promessas de dinheiro fácil do imperialismo ou dos “países amigos” “que nos querem ajudar”. O país acaba com o povo dominado pela corrupção, por máfias e com uma dívida insustentável, garantia da sua submissão. Na Rússia estes processos foram bloqueados obrigando organizações e ONG a apresentarem contas das suas finanças e proibindo financiamento estrangeiro.
Quando o trabalho preparatório permitiu criar uma massa crítica de descontentamento, a ação é desencadeada num momento decidido pelos EUA em conluio com as “quintas colunas” locais, aproveitando a tomada de qualquer decisão mais polémica.
O Irão resistiu a todos estes processos, donde o recurso final do império à guerra aberta. Recorde-se o idílio ocidental com a "democracia" do Xá Reza Pahlavi, apoiado na temível polícia política a Savak, que contou com 60 000 agentes, treinada pela CIA e Mossad, a instituição mais odiada e temida antes da Revolução de 1979, pela prática de torturar e executar opositores do Xá - mas nunca considerado pelo ocidente um "regime" .
Exemplo de disfuncionalidade social e crise - de que o povo dos EUA é também vítima - são a disfuncionalidade dos líderes aliados ao “execionalismo dos EUA” (versão atual do Herrenvolk) para combater a multipolaridade e de caminho “meter o proletariado na ordem”.
Na Casa Branca, Trump, fantasia um Irão com um novo regime, em que os EUA deitam mão ao petróleo, algo longe da realidade. Para isto, é necessário derrotar o Irão e abrir o Estrito de Ormuz, numa guerra em que as destruições mutuas sem fim à vista, mostram não estar a resultar para a coligação EUA-Israel
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