O que se vai passando no país e nesta UE do nosso descontentamento, leva-nos a retomar algumas ideias já aqui expostas. O neoliberalismo abriu caminho para um neofascismo. Forneceu à classe multimilionária e às multinacionais a cobertura ideológica para empobrecer a classe trabalhadora, impor austeridade, minar instituições democráticas, corromper partidos políticos nos seus princípios e promessas.
O neoliberalismo empurrou milhões de pessoas marginalizadas e desesperadas para os braços da extrema direita, outras foram levadas para processos auto destrutivos de dependência de drogas e jogos a dinheiro, consequências da frustração pessoal, precariedade, sentimento de inutilidade social e desilusão. Lamentavelmente as próprias vítimas não a associam ao neoliberalismo.
Os media promovem a agenda da extrema-direita e as suas falsas indignações de puritanismo político, não descansando enquanto do já degradado edifício constitucional oriundo do 25 de ABRIL não restar pedra sobre pedra. Para que tudo isto vingue a luta de classes desencadeada pela oligarquia é dada como não existente, mesmo para alguns que se dizem de esquerda.
A classe multimilionária permanece intocável e todo poderosa. Os doze mais ricos do mundo possuem mais riqueza do que a metade mais pobre. O neoliberalismo foi concebido para aumentar desigualdades e poder monopolista. O seu recurso é alimentar o extremismo, fomentar divisões sociais e culturais e minar instituições democráticas.
Desde os finais dos anos 1970 os críticos do neoliberalismo, keynesianos ou marxistas, foram marginalizados, excluídos dos media, das editoras, das universidades, das instituições estatais e financeiras (Bancos Centrais, FMI, BM,FMI e o BM). Pseudointelectuais na senda de Milton Friedman receberam apoios, propagaram servilmente o discurso oficial das teorias económicas desacreditadas de Friedrich Hayek.
O conteúdo real das suas propostas, resume-se a que sendo as regulamentações governamentais abolidas, os impostos sobre os ricos cortados, o dinheiro fluir livremente através das fronteiras, os sindicatos levados ao limite do condicionamento, todos serão mais felizes, livres e ricos.
Esta golpada funciona. Alimenta o jogo dos demagogos e neofascistas que emergem do atoleiro ético e político criado. Os media recusam-se a reconhecer a luta de classes ou denunciarem o absurdo do neoliberalismo. A extrema-direita vai usando a arruaça, a intimidação, se necessário a violência para sufocar o crescente descontentamento e volta-lo contra os mais fracos. Procura dividir o país em grupos antagónicos, os "nacionalistas puros" que têm de "salvar Portugal" dos corruptos e os outros. Quando um cartaz que expunha "50 anos de corrupção" ficou sem sequer ser discutido ou questionado no que alegava por quem jurara defender as instituições, passando por "liberdade de expressão", a democracia autocondenou-se.
As instituições e garantias que nos protegiam da ditadura cederam e muitas vítimas do sistema neoliberal, despolitizadas, alinharam com a extrema-direita vendo que as instituições não os protegiam.
Os que defendem a democracia participativa, um sindicalismo forte, o respeito e a divulgação da Constituição, são rotulados de "esquerdistas radicais" e marginalizados mediática e profissionalmente na forma do macarthismo. Dificilmente alguém consequentemente de esquerda pode aceder a um lugar de topo seja numa empresa privada seja na Administração Pública, até no campo artístico. Estamos no tempo dos "clandestinos" e muitos são obrigados a esconder as suas ideias outros preferem como no passado ser "apolíticos".
Vem a propósito, referir-se que o site legrandsoir.info, (LGS) lançou uma campanha de arrecadação de fundos para a publicação de um "Livro Negro dos media franceses, dezenas e dezenas de falsas notícias reveladas e analisadas.".
Este caso mostra o bloqueio que os grandes media e até editoras fazem ao que sai da conformidade do globalismo neoliberal. Maxime Vivas, administrador do LGS, publicou em 2020 um livro sobre os uigures, após ter-se deslocado ao Xinjiang (China): "Uigures, para acabar com as notícias falsas" (Editions La Route de la Soie) contrariando a narrativa então ao rubro nos media sobre trabalho escravo, repressão, tentando promover uma rebelião e separatismo.
Quase de imediato foi desencadeada uma campanha contra Maxime Vivas, no qual participaram o Libération, France Inter, RFI, BFM TV, Le Monde, France Culture, Télérama, Le Canard Enchaîné, Quotidien, Charlie Hebdo, Slate, etc., com ameaça de processos, insultos, mentiras, calúnias.
Os atacantes mais ferozes não tinham lido o livro: tinham lido o que os outros diziam sobre ele. O que chama atenção é que o alarido foi ativado praticamente ao mesmo tempo por todo o lado, como se mão misteriosa tivesse dado o sinal.
Além dos media duas agências militares participaram da campanha sob o pretexto de combater a penetração ideológica da China na França. Numa, o nome de Maxime Vivas apareceu 68 vezes e sua foto 8 vezes. No outro, especializado na caça a espiões listou seu nome 345 vezes. Desde então, editoras e feiras do livro têm estado fechadas para Maxime Vivas.
Agora propõe-se outro livro, para denunciar as ações desta camada, não contra Vivas (já feito num livro anterior), mas contra o pisotear da "Carta de Ética dos Jornalistas". (1)
1 - Participez à la publication du livre « Les hyènes de garde »
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