Face às contradições em que o imperialismo se enreda, os comentadores atribuem-nas a Trump. Uma análise que tenta explicar o que ocorre devido a uma pessoa revela mediocridade intelectual. Evidentemente, procuram fugir aos factos e são incapazes de analisar os contextos e as causas sistémicas do declínio imperialista, tal parece estar acima da sua compreensão.
As intenções iniciais de Trump, o MAGA, que o levaram à presidência refletiam a necessidade de reindustrializar os EUA para se imporem ao mundo. A tentativa de parar a guerra na Ucrânia refletia a necessidade de uma pausa para recuperarem das suas contradições económicas e financeiras. O facto de não o conseguir expõe a instabilidade instalada no império e a contradição que sempre ocorre nas suas fases terminais: o império só pode ser mantido com custos muito superiores ao que rende.
A compreensão e análise das contradições que se desenvolvem nos processos sociais é uma das bases do materialismo dialético - o marxismo. Também nos fenómenos das ciências da natureza se desenvolvem contradições. E felizmente que é assim, pois os fenómenos só são estáveis se é encontrado um equilíbrio, caso contrário tornam-se instáveis levando ao colapso do sistema.
Uma combustão ou se autoextingue ou se autoalimenta podendo produzir uma catástrofe. O equilíbrio entre a pressão da água e a resistência da parede de betão da barragem permite que a central hidroelétrica funcione, quando não uma catástrofe é possível.
A forma como as contradições sociais são resolvidas, ou não, definem o sistema social, porque em todos os sistemas sociais se geram contradições. Marx estudou exaustivamente as contradições do capitalismo. Simplificando, podemos dizer que o capital procura resolver as contradições criadas por meio de inovações tecnológicas, com destruição de parte do capital fixo existente, e aumentando a exploração sobre os trabalhadores do próprio país e de países subordinados.
São contradições antagónicas, no sentido em que o desenvolvimento dos fatores de produção se opõe ao desenvolvimento das forças produtivas (basicamente, força de trabalho, meios de produção, organização).
O neoliberalismo adulterou o conceito de fatores de produção assumindo o dinheiro criado pela especulação financeira e renda monopolista como criação de riqueza equivalente à produção de mercadorias socialmente úteis. A situação atual reflete o agravamento das contradições originadas por este sistema.
No socialismo também se geram contradições ditas não antagónicas, mas isto não é rigorosamente verdade: o planeamento económico possibilita a superação das contradições, mas uma possibilidade não é uma garantia absoluta: se o desenvolvimento dos fatores de produção não for estabelecido em harmonia com o desenvolvimento das forças produtivas podem criar-se contradições antagónicas.
Uma das questões que se põem atualmente é o das contradições geradas pela IA: como é que em capitalismo esta questão será resolvida e quais as soluções adotadas numa perspetiva socialista.
Contradições do imperialismo
O imperialismo vive da guerra permanente, para se constituir, manter, resistir às contradições que levam ao seu declínio. Ideologias distópicas são usadas para condenar, ameaçar, combater tudo e todos que o desafiam.
Vemos "guerras preventivas", sanções ilegais, assassinar - ou sequestrar - líderes que representem uma ameaça ao seu poder. As leis e o direito internacional não são seguidos. As ações de Israel, são casos extremos como o genocídio em Gaza, o terror e arbitrariedade na Cisjordânia, o bombardeamento de populações no Líbano ou no Irão, porém dentro da "ordem internacional" do imperialismo.
Em todo este contexto a UE tem alinhado, com a mão no peito e os olhos em alvo (está na moda da propaganda liberal e da extrema direita). Na realidade, para o imperialismo a vida de cada ser humano, só conta na medida em que sirva para proteger o poder do império. É o que se tem visto, da Jugoslávia, à Líbia, à Palestina, etc. Consequências do descontrolo que o império atingiu, não do seu poder.
Contradições da social-democracia
A social-democracia europeia foi até aos anos 1970 na Europa, o mais avançado que o capitalismo permitiu em termos sociais. Foi simplesmente o recurso para salvar o capitalismo, face ao prestígio entre as populações de partidos marxistas e de um poderoso movimento sindical. A estes se devem em primeiro lugar os direitos e benefícios que as camadas trabalhadoras usufruíram - agora a serem destruídos.
O combate ao sindicalismo e à esquerda mesmo social-democrata foi feito recorrendo ao assassinato físico (Olof Palme, Aldo Moro, Isaac Rabin) ou político de líderes que podiam ser perigosos ou incómodos para o imperialismo. O anticomunismo desempenhou um papel central com processos como a Operação Gládio.
Com a ativa participação da social-democracia o neoliberalismo foi instituído como ideologia exclusiva no espaço ligado ao imperialismo, embora represente o maior falhanço ideológico do capitalismo, agravando todas as suas contradições: estagnação económica, desindustrialização, crescentes desigualdades, oligarquia absorvendo a riqueza criada.
Por exemplo, nos EUA se o salário mínimo acompanhasse a produtividade, seria pelo menos 25 dólares/hora. O salário federal mínimo é de 7,25 dólares, aplicado em muitos Estados, atingindo máximos em Nova Iorque com 15,5 dólares ou 16,6 em Washington.
À medida que a desigualdade social cresceu, a repressão também cresceu, com a social-democracia alinhando na despolitização das massas populares, na prática indiferente ao avanço de formas de autoritarismo anti laboral e neofascismo.
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