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6 de setembro de 2026

Acerca da agenda da extrema - direita

 Em adolescente perguntei a um amigo (aliás pai de um amigo) ex-preso político como comunista, o que era o fascismo. Ele disse-me que fascismo era tudo o que é negativo para as pessoas e para o país.

Não será a definição teórica mais rigorosa, mas era importante que jovens aprendessem a distinguir entre o que é negativo e o que é positivo. E negativo é o ódio, o racismo, o belicismo, as desigualdades como forma de discriminação, marginalização dos mais fracos e mais pobres. Positivo é o que une e eleva as pessoas espiritual e materialmente.

E aqui estamos de novo com a agenda da extrema-direita dominando o espaço mediático, com alardeados puritanos exigindo acabar com "50 anos de corrupção", conduzindo a consciência social contra as instituições democráticas.

O seu nacionalismo não é defesa da soberania, é liberdade para a oligarquia e submissão a Bruxelas e Washington, impulsionando ressentimentos rácicos, religiosos, xenófobos, ignorando ou manipulando as causas reais dos descontentamentos.

Claro que estes aspetos tomam formulações diferentes (que não vamos aqui analisar) em países que se consideravam "grandes potências", sentem ter perdido esse estatuto, como no caso da Alemanha ou da França, que a extrema-direita quer retomar.

A extrema-direita afirma-se pela negativa. Transformou sectores do proletariado mais explorado em aliados da reação cujo objetivo é destruir ao máximo o que foi conquistado em benefício da generalidade dos cidadãos pelas forças progressistas.

O achincalhar das instituições passa encoberto por comentadores dedicados a lucubrações dentro da agenda da extrema-direita, transformando líderes da arruaça e mesmo da incompetência até do normativo das suas funções em "os últimos adultos políticos na sala"...

Sem repreensão por parte do presidente da AR, uma deputada (Inês Real) denunciou ter sido tratada por deputados da extrema-direita como "asquerosa" (Rita Matias) e "miséria humana" (Alves Taxa). Tudo isto passa incólume nos media.

O progressismo recuou, uma maré de ódios e ressentimentos surgiu. A extrema-direita avançou através de eleições condicionadas pela manipulação dos media, exploração de receios sobre criminalidade e imigrantes (independentemente das estatísticas).

Este o pano de cena que encobre a quebra do nível de vida e o enfraquecimento das instituições democráticas pelas cedências das social-democracias (incluindo PS) à direita e suas políticas, argumentando com a ordem nas finanças públicas, enquanto são postas em prática privatizações, austeridade, submissão à oligarquia financeira internacional.

A extrema-direita não tem resposta para os problemas do país e das pessoas. Não tenciona superar dependências, criar capacidade produtiva nem satisfazer as necessidades dos trabalhadores. São meros agentes do neoliberalismo, fazendo o papel dos "assassinos económicos" de John Perkins - destruindo a economia, enfraquecendo o regime democrático.

Afirma Chris Hedges, que "o caminho para o fascismo, como Ece Temelkuran escreve em Nation of Strangers, foi construído ao longo das últimas décadas de ataque neoliberal. Chegámos ao terminal". Os valores que prezamos, as liberdades que antes tomávamos como certas e a possibilidade de um futuro democrático estão desaparecendo enquanto o fascismo se alimenta da demonização do outro, do estranho.

O ataque de décadas às instituições democráticas em nome do neoliberalismo - o capitalismo implacável - está dando frutos de uma colheita sombria: o controle de ferro do fascismo a consolidar-se.

Continuamos na crença ingénua que nossas instituições esvaziadas e corrompidas podem reverter a maré fascista. "A realidade do sistema neoliberal - desigualdade extrema - anula a promessa fundamental da democracia: a igualdade, por isso a ideia de proteger a democracia significa cada vez menos para muitas pessoas", não apenas por causa daqueles que detêm o poder, mas também por causa da falência liberal e uma falsa oposição submetida à oligarquia.

Ece Temelkuran alerta que o genocídio em Gaza é um modelo para o que virá, um exercício da classe dominante global para ver quanto de destruição pode ser causada impunemente. "Logo será preenchida com palavras inofensivas aprovadas pelo poder, como guerra, mesmo que do outro lado estejam civis. Nem se chama isso de genocídio, mas de "excessos". Será impossível participar nos media não usando as palavras aprovadas, que funcionam como sinalizadores ideológicos. Isto não só silencia as pessoas, mas as força a falar da forma aprovada.

O ódio faz as pessoas voltarem-se umas contra as outras, perdidas nos abismos da alienação que os isola dos seus semelhantes, dos mais próximos. Esquecido o passado vivido e o histórico da sua condição proletária não têm onde se agarrar para construir um destino coletivo no futuro.

Embora o que deixamos para trás possa ter desaparecido, há momentos de construção e paz quando menos se espera. Talvez, nos dê uma espécie de esperança, mas não acredito em esperança", escreve Ece Temelkuran, mas sim em determinação, em ter convicções e fazer tudo o que se puder para a sobrevivência coletiva quando parece não haver esperança. 

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