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29 de agosto de 2022

A quem pertencem os cereais da Ucrânia

Enquanto se vertiam lágrimas de crocodilo pela fome em África – algo que só esporadicamente interessava a propósito de estatísticas da FAO - mais uma vez estavam em causa interesses das transnacionais do agronegócio e OGM, a quem pertencem parte das terras agrícolas da Ucrânia.

Antes do golpe de fevereiro de 2014, em dezembro de 2013, o presidente Viktor Yanukovych anunciou, após meses de debate, que a Ucrânia se juntaria à União Económica Euroasiática russa com a promessa de uma compra de 15 mil milhões de dólares pela Rússia da dívida pública da Ucrânia e uma redução de 33% no custo do gás russo.

A oferta do “ocidente” consistia numa "adesão" à UE, vinculada à aceitação pela Ucrânia de um pacote de empréstimos do FMI e do BM, impondo a privatização de terras agrícolas, culturas OGM, cortes nas , austeridade social, aumento de impostos e do gás natural, mais 10 anos para atingir a reforma, etc., em troca de um empréstimo de 17 mil milhões de dólares do FMI e "investimento estrangeiro".

Após o golpe, o primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk, escolhido pelos EUA e líder dos protestos do MAIDAN, abriu as ricas terras agrícolas da Ucrânia às transnacionais do agronegócio, especialmente dos OGM. Três dos membros do gabinete de Yatsenyuk, incluindo ministros das Finanças e da Economia, eram estrangeiros, escolhidos sob a direção de Victoria Nuland e do vice-presidente Joe Biden.

Quando a Ucrânia deixou a União Soviética em 1991, sete milhões de agricultores ucranianos possuíam pequenas parcelas que totalizam cerca de 32 milhões de hectares; 4 milhões pertenciam ao Estado. O cultivo de OGM era ilegal.

Apesar disto, Monsato, DuPont, Cargill e outros fornecedores de OGM começaram a espalhar secreta e ilegalmente sementes patenteadas de OGM nas terras negras da Ucrânia. Pequenos proprietários de terras alugaram suas terras para grandes oligarcas ucranianos que, fizeram acordos secretos com a Monsanto e outros para plantar milho e soja transgénicos. No final de 2016, de acordo com um relatório do extinto Departamento de Agricultura dos EUA, cerca de 80% da soja ucraniana e 10% do milho foram cultivados, ilegalmente, a partir de sementes geneticamente modificadas.

Um dos primeiros atos de Zelensky em 2019 foi tentar alterar as leis da terra. Os protestos dos agricultores e cidadãos em 2020 bloquearam estas intenções. Em 2021, aproveitando a proibição das manifestações públicas, Zelensky assinou a Lei nº 2194, desregulamentando as terras, como "chave" para o "mercado agrícola de terras", permitindo que empresas estrangeiras como a Monsanto (hoje parte da Bayer AG) ou a DuPont (agora Corteva), e outras empresas comprassem as terras.

O sem vergonha Zelensky renegou assim a sua promessa de campanha de realizar um referendo nacional sobre qualquer mudança na propriedade da terra.

Bayer/Monsanto, Corteva e Cargill já controlam, segundo estimativas, 16,7 milhões de hectares de terras agrícolas nobres na Ucrânia. Agora, apenas a Rússia, que baniu as culturas OGM em 2016, permanece como o único grande fornecedor mundial de cereais não transgénicos. A UE trabalha numa lei que abriria as comportas para a aquisição de OGM.

Com a criação pelo BM de um mercado agrícola, como forma de os agricultores terem acesso a financiamento dando como garantia as terras, o esquema foi usado para serem vendidas/entregues aos credores para pagamento de dívidas.

A questão da propriedade das terras é fundamental porque torna possível acompanhar o fracasso da democracia na Ucrânia independente. Empresas estrangeiras, principalmente dos EUA, possuem agora possuem 17 milhões em 42 milhões de hectares de terras agrícolas, adquiridas em menos de um ano. Quando falamos de trigo ucraniano, é caso para se perguntar se o termo é apropriado.

De acordo com pesquisas de opinião, 64% dos ucranianos são contra a venda de terras para estrangeiros, pedindo o referendo prometido pelo presidente.

A Rede Ucraniana de Desenvolvimento Rural denuncia o facto de que "a maioria das terras privatizadas é alugada por grandes empresas comerciais... a terra não estará mais disponível para venda em benefício de agricultores independentes."

Foi assim que investidores dos EUA se tornaram, disfarçados, proprietários de terras agrícolas na Ucrânia.

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