O mundo estremeceu quando Bad Bunny avançou sobre o relvado, no Super Bowl, diante de milhões de telespectadores, com as bandeiras de todos os países da América, numa performance que, sendo um pontapé no imperialismo, só vai encontrar pólvora seca no entusiasmo liberal. Enquanto o cantor porto-riquenho disparava em castelhano, do outro lado do Golfo do México, Cuba anunciou que deixou de ter combustível para abastecer aviões.
Este
cerco medieval por parte dos Estados Unidos é uma agressão intolerável
que asfixia um povo e que não vai ter a indignação de uma bolha
habituada a conduzir a sua solidariedade ao compasso do que diga
Washington ou Bruxelas. Deixem-me ser claro: eu defendo a revolução
cubana. Contudo, independentemente do que achemos do modelo político de
Cuba, esta é uma agressão intolerável que está a deixar ambulâncias sem
gasóleo, universidades sem electricidade, bairros inteiros sem luz.
Uma
vez mais, depois de permitirmos um genocídio em Gaza, os assassinatos
extrajudiciais no mar das Caraíbas e o sequestro de um presidente
estamos a permitir que os nossos líderes com a sua indiferença selectiva
nos levem ao abismo. O problema de Cuba não é a democracia ou a falta
dela porque já percebemos que não é isso que guia a empatia política dos
Estados Unidos ou da União Europeia.
Vou-vos
contar porque é que acho que Cuba é o país mais bonito do mundo. Já
depois de ser eleito presidente da África do Sul, Nelson Mandela visitou
Fidel Castro em Havana e deu-lhe uma reprimenda. Como é que o líder da
revolução cubana não tinha ainda visitado a sua pátria sul-africana,
perguntou. Mandela recordou que Cuba havia treinado militarmente os
combatentes da ANC que lutaram contra o apartheid. Quando Fidel decidiu
visitar, finalmente, a África do Sul, passou por vários outros países
que o receberam como um herói. Porquê?
Nos
anos 60, Cuba havia apoiado a libertação de países como a Argélia e a
Guiné-Bissau. Nos anos 70 e 80, milhares de cubanos lutaram em Angola
contra a invasão sul-africana e derrotaram o regime do apartheid em
Cuito Cuanavale. Para países como a Namíbia, essa vitória foi
fundamental para a sua independência. Cuba construiu hospitais no
Vietname, apoiou as lutas das resistências em toda a América Latina,
incluindo Porto Rico.
Ajudou
a esconder panteras negras e foragidos de todo o mundo como Assata
Shakur. Tratou milhares de crianças afectadas pelo acidente nuclear de
Chernobyl, em muitos países do Sul Global os únicos médicos que os mais
pobres alguma vez viram na vida eram cubanos. Quando rebentou uma
epidemia de ébola em Serra Leoa, os médicos cubanos foram os únicos que
se atreveram a enfrentar ao lado das populações a doença. Diante de uma
crise sanitária sem precedentes em décadas, quando rebentou a covid-19,
Itália viu-se obrigada a pedir ajuda a Cuba.
Como
é que uma pequena ilha bloqueada há mais de meio século pela maior
potência mundial, sem grandes recursos naturais, conseguiu eliminar a
transmissão de HIV entre mãe e filho? Como é que consegue ser um dos
países com menor taxa de mortalidade infantil? Como é que consegue ter
uma esperança média de vida ao nível dos países mais avançados?
Se
isto não interessar, recordo que não haveria Bad Bunny sem Cuba. Muitas
das sonoridades que hoje ouvimos e que vêm das Caraíbas, incluindo
Porto Rico, nasceram com o son cubano, que com a comunidade emigrante em
Nova Iorque deu origem àquilo que se conhece como salsa e que foi
fundamental para o advento do reggaeton.
Que
o mundo feche os olhos ao que se passa em Cuba, incluindo alguns dos
países que receberam ajuda de Havana, submetendo-se às imposições de
Washington, é uma das maiores provas de ingratidão deste século. Muitas
vezes, Cuba abdicou dos seus parcos recursos para estar ao lado dos
povos do mundo. É hora de os povos do mundo exigirem ainda com mais
firmeza o fim do cerco e do bloqueio. Bruno Carvalho
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