O projeto económico liberal está à beira do colapso e isso reflete-se nas manifestações pelos países europeus. O desespero e a raiva populares não cessam. Pergunta Alastair Crooke (1) : Será que as lideranças arriscam a violência nas ruas a par do colapso económico para não terem de ceder perante a Rússia e, arrastados pelos Estados Unidos, perante o Irão?
A agitação violenta em Paris está ligada ao resultado das eleições francesas de 2024. A eleição criou um Parlamento fragmentado, que Macron esperava manipular. Acabou por alimentar a crescente indignação pública contra a elite governante incapaz de se responsabilizar pelos erros que conduziram o país à crise.
As lideranças europeias não veem o abismo económico que criaram. Aspetos-chave da crise, são as falhas nos serviços públicos e crescentes aumentos do custo de vida, problemas com raízes na resposta à Grande Crise financeira de 2008. Agora estas contradições atingem o auge no meio dos conflitos na Ucrânia, Irão e Iémen-Arábia Saudita, que correm o risco de levar a crise a um nível muito diferente da crise financeira anterior: um colapso sistémico.
O agravamento surge por objetivos contraditórios: tentar ao mesmo tempo não tocar nos interesses das oligarquias, não reduzir demasiado os apoios sociais, participar em guerras - guerras destinadas a manter a hegemonia ocidental, mas causando um vertiginoso aumento do custo de vida e dos défices públicos.
O erro de Trump de iniciar a guerra contra o Irão catapultou os aumentos de preços dos combustíveis e da energia, que, por sua vez, fizeram subir as taxas de juros. A continuidade (embora oscilante) de Trump na guerra na Ucrânia com o ónus de financiamento transferido para a Europa, ultrapassou a capacidade dos orçamentos europeus, obrigando a reduzir outros gastos públicos, como educação, habitação, assistência à saúde.
Grandes áreas do coração industrial da Europa foram devastadas. O desemprego, especialmente entre os jovens, cresce. Só a Alemanha perdeu quase meio milhão de empregos industriais nos últimos seis anos. Nem a Europa, nem os EUA, são agora competitivos, a inflação energética colocou as suas exportações fora dos mercados globais.
O Irão e Ansar Allah fecharam a sua armadilha energética contra Trump. Não havendo saídas fáceis para o que acontece. Uma escalada militar dos EUA ou de Israel, irá agravará dramaticamente a crise económica ocidental, já que o Irão retaliará contra a infraestrutura energética do Golfo. Note-se que a reconstrução de infraestruturas petrolíferas é complexa e geralmente com prazos longos se não estiverem disponíveis equipamentos para substituição do danificado.
Na Ucrânia, uma leitura equivocada sobre a Rússia levou a Europa para uma armadilha, queriam a Ucrânia integrada no projeto liberal, desencadeando ações ausentes dos tratados da NATO e da UE. A perspetiva que as sanções europeias desalojassem Putin do poder, daria a possibilidade de poder explorar o petróleo e matérias-primas russas. A Europa tornou-se ansiosa por colonizar o espaço político historicamente controlado pela Rússia, mas que agora seria incorporado ao "espaço liberal" europeu. A hostilidade russa a essas ambições explícitas era atribuída tendenciosamente à nostalgia da Rússia pelo seu império.
O que os russos viram foi perda de controlo do que antes era um espaço estratégico precioso, sem uma forma óbvia de recuperá-lo. É por isso que as ideias de 'cessar-fogo' e alguma divisão geográfica da Ucrânia não são suficientes e não terão lugar. As apostas são agora muito maiores que antes. Em 2022, os russos provavelmente teriam aceitado uma Ucrânia genuinamente neutra, sem forças estacionadas e com os extremistas nacionalistas excluídos do governo.
"Não há chance disso agora - escreve Aurelien, - o bombardeio atual de Kiev faz parte de uma estratégia operacional para destruir o país como entidade viável de modo que não possa ser usado no futuro como base para operações militares. Pontes, sistemas de comunicação, portos, produção de eletricidade, redes de transporte, instalações industriais e aeroportos, estão a ser destruídos. Não há sinal de que o Ocidente entenda isso. Não percebem que a estratégia russa vai muito além da Ucrânia tratando de banir o espectro de um possível ataque vindo do oeste, pelo menos uma geração, talvez mais."
Essa é a armadilha que existe e que liga conflitos aparentemente separados - a ambição do Ocidente de "manter a hegemonia global", porém sobre uma realidade de declínio e fragilidade dos orçamentos de Estado..
O "projeto Ucrânia" bateu num muro; não apenas no campo de batalha, mas porque a Europa não tem dinheiro. Não há como a Europa desembolsar mais 155 mil milhões de dólares. Tal como, não há como as economias ocidentais sobreviverem a uma guerra prolongada contra o Irão e o Ansar Allah.
1 - Fonte - A Crise do excesso de confiança de Trump na Guerra
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