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23 de setembro de 2016

Trafulhas

A criação do clima para o golpe continua

O FMI, que volta meia volta vem confessar que se enganou para depois receitar a mesma coisa, a mesma terapêutica  que levou à mais profunda recessão, queda do investimento e brutal acentuação das desigualdades, vem agora, na sua recente análise à economia portuguesa, «Portugal: growth needs further reforms», pela primeira vez, sublinhe-se, com uma referência explícita ao risco de novo resgate. 
Esta afirmação que nada tem de técnica , para além de preparar a opinião pública tem como efeito dar justificação aos ditos mercados para o aumento das taxas de juro .
Na verdade , candidamente, o FMI, sócio da Troika, afirma que «O baixo crescimento, a despesa pública o atraso nas reformas e bancos frágeis não permitirão a convergência com a zona Euro, e poderão levar à perda de acesso ao mercado, mesmo perante pequenos choques.»
E, tornando os avisos/chantagens ainda mais claros, o Fundo diz-nos que o baixo custo de financiamento da República se deve às compras do BCE (quantitativ easing).
Isto é, lembra-nos (ameaça/chantagem) que se o BCE nos tirar o tapete via DBRS (o golpe) as taxas de juro subirão 
.O Banco de Portugal, fazendo coro, já veio dizer que sem o BCE as taxas estariam 2,5 pontos acima das verificadas.
 Sem rodeios, o FMI aponta como solução para o défice um corte de 900 milhões de euros na despesa do Orçamento do Estado para 2017, para além da pressão sobre mais cortes em 2016!
E onde deverão ser feitos esses cortes?
Camilo Lourenço, um dos sacristães(sacristanum ) da  missa cantada do neo-liberalismo, descodifica e vai directo ao assunto: cortes nas pensões, salários e prestações sociais. (Negócios, 23 de Setembro de 2016)
Em tom triunfante acrescenta  ainda, precisamente o contrário do que defendem PCP e Bloco .
É a receita da austeridade perpétua, isto é, da continuação da política de concentração da riqueza, como recentes estudos, mais uma vez, evidenciaram.
E quando se procura fazer alguma correcção fiscal, mesmo que timidamente para atenuar a acentuação das desigualdades ,  o coro dos defensores dos grandes senhores do dinheiro grita em uníssono: é a classe média, é a classe média,. 
"É a classe média mais uma vez,a ser atingida."

 Trafulhas e golpistas!
Carlos Carvalhas

4 comentários:

Diogo Costa disse...

Boas tardes!

Podia apontar para alguns dos estudos que refere (e deixar os links, se possível)? Não tenho grandes dúvidas que seja verdade o que diz (é uma questão de bom-senso, afinal), mas gostaria de ter acesso à informação e de a poder ler eu mesmo. (Até porque dá uma credibilidade diferente ao que diz, verdade seja dita...)

Com os melhores cumprimentos,
Diogo Costa

Guilherme Fonseca-Statter disse...

Deixei recentemente no meu mural um pequeno apontamento sobre a questão do FMI e das suas diversas (e, de vez em quando, aparentemente divergentes) posições.
Permito-me transcrever para aqui.

«Devo dizer que em muitos dos artigos/comentários (aqueles a que tive acesso) a propósito do sr. Subir Lall há um grande (parece-me...) mal entendido relativamente à postura do FMI e ao que disse este ou aquele funcionário do dito cujo FMI sobre Portugal ou a Grécia.
O FMI não é uma insitutição «monolítica» (ou «unanimista»...) em que todos papagueiam as mesmas receitas ou os mesmos relatórios...
Como pagam muito bem aos seus múltiplos (e «altamente qualificados»... «quadros» (funcionários...) podem perfeitamente dar-se ao luxo de «dar alguma folga» (não é «rédoa solta»...) a quem tenha de vez em quando uns arrobos de independência intelectual e resolva escrever algo de dissonante... Dá à insitutição um certo verniz «ciêntífico» (do tipo académico «publish or perish»...), uma outra respeitabilidade (pois...) e uma eventual «maior credibilidade» às suas - por vezes aparentemente contraditórias - conclusões sobre os resultados das suas próprias receitas impostas aos países que caem na ratoeira de lhes «pedir ajuda»...
É assim que se explica que haja uns técnicos do FMI a dizer umas coisas «bonitas» e haja uns dirigentes do FMI a querer impôr outras coisas «proto-criminoso-imbecis»...

Diogo Costa disse...

Passados 15 dias ainda não tenho resposta... Que estudos são esses então?
Não gosto de acreditar em coisas que apenas me são ditas, pelo que o facto de não me responderem de forma alguma deixa-me algumas reservas em relação à credibilidade deste conteúdo...

Guilherme Fonseca-Statter disse...

À atenção de Diogo Costa:
http://www.imf.org/en/News/Articles/2016/09/21/NA220926PortugalBoostingGrowthNeedsFurtherReforms