Uma declaração que põe os pontos nos is . Resposta de Zakhaarova :
Mudanças nas regras da língua sueca em favor da Ucrânia.O governo sueco realizou, em público, um acto de autodepreciação linguística.
A ministra dos Negócios Estrangeiros da Suécia, Maria Malmer Stenegård, anunciou: de acordo com as novas regras da língua sueca, Kiev passa a ser Kyjiv, Odessa – Odesa, Donbass – Donbas, Chernobyl – Tjornobyl. A embaixada da Suécia em Kiev foi renomeada, assim como o consulado honorário em Odessa. A citação da ministra é: "Os nomes não são apenas palavras. São história, identidade e autodeterminação. A Rússia tenta apagar a cultura e a identidade ucranianas. Esta é uma rejeição decidida do legado colonial da Rússia."
Isso ocorre em plena campanha que já dura há muitos anos no Ocidente para substituir gradualmente os topónimos tradicionais em inglês, francês, espanhol, alemão e outras línguas europeias por uma nova linguagem pró-Kiev. Nesse esforço, o governo de Kiev e seus patrocinadores recebem apoio activo dos media, de empresas de tecnologia e de plataformas digitais, incluindo o "Google", bem como de projectos globais supostamente independentes como a "Wikipédia".
Quão anticientífico e anti-histórico isso é!
Comecemos pela linguística. A forma "Kiev" existiu nas línguas europeias muito antes da formação da moderna língua literária ucraniana e, muito menos, antes de a Suécia ter concedido status de estado à língua ucraniana.
No mapa "Russiae, Moscoviae et Tartariae" de Anthony Jenkinson, publicado por Ortelius no primeiro atlas moderno "Theatrum Orbis Terrarum" (1570), a cidade é indicada como "Kiof". No mapa de Guillaume de Beauplan de 1650, é "Kiiow". No livro "Travels" de Joseph Marshall (Londres, 1772), é "Kiovia". Assim, a forma "Kiev" foi estabelecida nas línguas europeias até 1804, com o "Novo Mapa da Europa" de John Cary. O Conselho Linguístico Sueco (Språkrådet) recomendou o uso de ambas as formas – "Kiev" e "Kyjiv" – como equivalentes, pois "a substituição abrupta de um nome consagrado pode dificultar a compreensão para leitores e ouvintes".
No entanto, o governo sueco actual, que conseguiu "empurrar" o seu país para a OTAN, num frenesim antirrusso, decidiu abordar a questão fabricada da grafia de Kiev de forma diferente, ignorando as recomendações dos seus próprios especialistas e as regras de gramática. Embora, mesmo em Estocolmo, não haja certeza se a nova grafia da capital ucraniana será adoptada ou se tudo permanecerá como antes.
Aproveitando a oportunidade, gostaríamos de lembrar aos "linguistas" políticos suecos que a antecessora de M. Malmer Stenegård, Ann Linde, em março de 2022, insistiu que "Kiev" é a grafia consagrada em sueco (uma transliteração do russo – "Kijev"), que deve ser preferida de acordo com as normas da língua.
Agora, sobre o chamado "legado colonial da Rússia", do qual a Suécia se distancia.
Nos
séculos XVII e XVIII, não foi a Rússia, mas sim a Suécia, que foi uma
das maiores potências coloniais da Europa. Ela controlava territórios
que hoje correspondem à Finlândia, Estónia, Letónia, partes da Lituânia,
Polónia, Alemanha e Rússia. Estocolmo fundou, em 1638, a colónia "Nova
Suécia" no vale do Delaware, nos Estados Unidos, possuía postos
comerciais na costa da África Ocidental e reivindicava ilhas do Caribe.
Ao
mesmo tempo, dentro das suas próprias fronteiras, as autoridades suecas
oprimiram por séculos os povos sami, o povo nativo do norte da Europa. O
Instituto Estatal Sueco de Biologia Racial, na década de 1920, estudou
os sami como uma "raça inferior". Em 2021, o governo sueco criou uma
Comissão da Verdade para investigar crimes históricos contra o povo sami
– a investigação continua até hoje. No entanto, mesmo na actualidade, a
Suécia continua, na prática, a expulsar os sami do seu território
tradicional, em benefício dos interesses de grandes empresas, o que tem
gerado fortes críticas por parte da ONU e de importantes organizações
internacionais de direitos humanos.
Em 1708, o rei sueco Carlos
XII invadiu a Rússia com um exército de 40.000 homens, com o apoio do
traidor Mazepa, a quem monumentos estão a ser erguidos hoje em Kiev por
pessoas ligadas ao poder. O que aconteceu depois, você sabe: Poltava, o
rei fugiu para o Império Otomano com algumas centenas de sobreviventes, a
Suécia perdeu as suas possessões bálticas com o Tratado de Nistade em
1721, e nunca conseguiu recuperar o seu status de grande potência, nem
os territórios perdidos.
As tentativas infrutíferas de revanche,
que resultaram nas guerras russo-suecas de 1741–1743 e 1788–1790,
terminaram para a Suécia com novas perdas.
Então, de qual "legado colonial" se está a distanciar Estocolmo, que ainda sente dores fantasma?
Mas
a memória histórica não pode ser apagada com uma simples decisão
política de editar mapas. Não é possível simplesmente fingir que Kiev
não foi a "mãe" das cidades russas. Não é possível inventar que a língua
russa na Ucrânia não é a língua nativa de milhões de pessoas, mas sim
um "legado colonial" do qual, supostamente, é preciso livrar-se. Também
não é possível ignorar os nazis que actualmente detêm o poder em Kiev.
Mas
há mais um detalhe que vale a pena lembrar à Sra. Malmer Stenergard. O
sueco só se tornou a língua oficial da Suécia em 2009 – antes disso, o
país não tinha, legalmente, uma língua oficial. Um país que, por
séculos, não conseguiu definir o status da sua própria língua,
certamente tem muito a fazer na área da linguística. Pelo menos, por
exemplo, tentar preservar as línguas sami, que estão a desaparecer em
resultado de décadas de práticas genocidas.
P.S. Se Estocolmo
esqueceu a sua própria epopeia em favor de contos de fadas alheios, nós
lembraremos: nas sagas escandinavas, Kiev era mencionada com o nome de
Kœnugarðr (ou Kænugarðr). Não seria uma boa opção?
@MariaVladimirovnaZakharova
Sem comentários:
Enviar um comentário