Será que Marx tem razão nisto? Assim parece, vivemos uma segunda "guerra fria", não como farsa, mas trágico-comédia. A Guerra Fria foi uma forma de conflito perpétuo, travada em dezenas de guerras regionais, grandes e pequenas. Alguns exemplos:
Coreia (1950–1953): Grande confronto em que os EUA e parceiros lutaram contra tropas chinesas e norte-coreanas apoiadas e abastecidas pela URSS. O que os EUA conseguiram foi levar a guerra a um impasse com a península coreana dividida no paralelo 38, Norte aliado à União Soviética e à China, o Sul sob ocupação dos EUA.
Vietname (1955–1975): Os EUA intervieram assumindo o lugar da França colonialista em retirada para impedir o objetivo de independência e unidade vietnamita. Os soviéticos apoiaram o Viet Cong e o Vietname do Norte num conflito devastador que terminou com a derrota e expulsão dos EUA.
Cuba (1962): Os EUA e a URSS quase entraram numa guerra nuclear durante a mal denominada Crise dos Mísseis de Cuba. Na verdade, tratava-se da Crise dos Mísseis da Turquia: os EUA posicionaram mísseis nucleares na Turquia, o que ameaçava a URSS; a URSS em resposta posicionou mísseis nucleares em Cuba, o que ameaçava os EUA; por fim, cada lado retirou seus mísseis.
Afeganistão (1979–1989): A URSS interveio para apoiar um governo socialista, levando os EUA (e aliados, nomeadamente a Arábia Saudita) a armar, treinar e financiar os mujahedin. As últimas tropas soviéticas deixaram o Afeganistão em fevereiro de 1989, em conformidade com os Acordos de Genebra. O comandante soviético, tenente-general Boris Gromov, foi o último militar a cruzar a ponte fronteiriça do rio Amu Darya, com bandeiras hasteadas. O governo socialista de Najibullah permaneceu no poder mais três anos e dois meses, caindo apenas quando lhe foi retirado o apoio soviético por Gorbachov. Uma guerra civil alastrou-se até setembro de 1996, sendo Cabul foi tomada pelo Talibã. Falsamente acusados de cumplicidade nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, os EUA ocuparam o Afeganistão de outubro de 2001 até fim de agosto de 2021, fracassando em expulsar os Talibã.
África: A URSS apoiou ativamente os movimentos de descolonização em todo o continente, ajudando países a alcançar a independência, incluindo Argélia, Angola, República do Congo, Egito, Guiné, Guiné-Bissau, Moçambique, Namíbia, África do Sul (contra o apartheid) e Zimbabué. Após o colapso da URSS, essas relações ficaram suspensas, mas, desde então, foram renovadas e revitalizadas. A 2ª Cimeira Rússia-África, em 2023, reuniu delegados de 49 dos 54 Estados-membros da União Africana, incluindo 17 Chefes de Estado. A 3ª cúpula será realizada em Moscovo em outubro.
Os movimentos de libertação nacional africanos indicam por registos oficiais um total de 1,1 a 1,8 milhões de vítimas apenas na Argélia, Angola, Moçambique e Zimbabué. Quer consideremos massacres militares diretos, fomes provocadas por políticas, o colonialismo, “exterminou” centenas de milhões. (1)
Não foi apenas o Afeganistão que Gorbachov e comparsas abandonaram para o imperialismo ser unipolar. Cortando relações económicas, tecnológicas, apoio diplomático e militar, criaram reais desastres humanitários, traindo povos confiantes, como Cuba, Coreia do Norte, Vietname, países africanos, etc., que encetavam vias de desenvolvimento através de transformações de cariz socialista.
Merece referência, como exemplo do " fim da história" que o império unipolar quis instaurar, o caso da Jugoslávia que passou de uma união próspera de diferentes etnias e religiões para um cenário de guerra, divisão e ódio num período de tempo surpreendentemente curto. O papel da CIA é exposto pelo ex-agente Robert Baer numa entrevista em 2012. “Cheguei de helicóptero com três agentes a Sarajevo, em janeiro de 1991. Deram-nos ficheiros sobre um grupo chamado ‘Supremo Sérvia’, detalhando planos para realizar uma série de ataques bombistas a edifícios importantes em Sarajevo, em seu nome. Tal grupo nunca existiu!”
A verdadeira missão “era alarmar e espalhar o pânico na Bósnia, para encher as cabeças de políticos e população com a ideia de que os sérvios os iriam atacar.” Baer foi depois afetado à Eslovénia enquanto se preparava a declaração de independência. “Foram-nos dados alguns milhões de dólares, para financiar ONG, partidos da oposição e políticos que inflamaram o ódio."
“O objetivo da propaganda era dividir as repúblicas para que se separassem da mãe-pátria Jugoslávia. Tínhamos de escolher um bode expiatório responsável pela guerra e pela violência. A Sérvia foi escolhida porque, de certa forma, era uma sucessora da Jugoslávia.” A CIA financiou políticos croatas como Stjepan Mesic e Franjo Tudman, o líder bósnio Alija Izetbegovic, Radovan Karadzic da República Srpska (mais tarde deixou de cooperar) e vários generais e jornalistas sérvios.
"A CIA escrevia textos para noticiários, os apresentadores recebiam as notícias do chefe e ele recebia-as do nosso homem. Todos tinham a mesma missão: através da televisão espalhar ódio, nacionalismo e as diferenças entre as pessoas. As pessoas que incitaram a guerra e ditaram os termos da paz agora possuem empresas que exploram recursos minerais e similares. Simplesmente fizeram escravos de vocês, o povo trabalha para nada, o produto vai para a Alemanha e a América. Eles são os vencedores!” Conclui Baer.
1 -Fonte: A guerra é tudo o que resta
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