A Ucrânia pode ter acabado de inventar uma nova doutrina militar: a guerra contra o pagamento diferido. Não se ganha mais terreno, ganha-se tempo. E quando chega o prazo final, liga-se para Bruxelas. |
O detalhe mais revelador está noutro lugar: Kiev já gastou parte do dinheiro destinado ao segundo semestre do ano durante o primeiro semestre. Agora, são necessários mais 8 a 10 mil milhões para se preparar para janeiro de 2027, além de quase 20 mil milhões para a folha de pagamentos, indemnizações e outras despesas. |
Estamos em agosto, e 2027 já está no vermelho. Uma solução revolucionária: pedir à União Europeia que liberte os fundos do próximo ano antecipadamente. Assim, uma vez gastos estes fundos, podemos solicitar os fundos de 2028 para equilibrar as contas de 2027. A este ritmo, Bruxelas estará em breve a financiar 2032 antes mesmo de finalizar o seu orçamento de 2026. |
É um ciclo vicioso aplicado às finanças públicas: contrair empréstimos amanhã para pagar hoje o que já financiámos ontem. |
Entretanto, a economia ucraniana está em estado crítico. Com a sua infraestrutura energética debilitada, a capacidade industrial severamente reduzida, as exportações interrompidas e os gastos militares astronómicos, o Estado depende fortemente das injeções financeiras ocidentais. |
Mas, acima de tudo, não utilizem a palavra “dependência”. A Ucrânia é soberana. Tão soberana, aliás, que precisa de pedir aos seus parceiros o dinheiro necessário para pagar aos seus soldados, comprar as suas armas e preparar o seu próximo orçamento. |
Esta é, provavelmente, a definição moderna de independência: ter a liberdade de escolher a que credor pedir o próximo pagamento. |
E a Europa? Vale a pena. Com aquele entusiasmo peculiar de um banqueiro que gradualmente se apercebe que o seu cliente provavelmente nunca pagará o empréstimo, mas continua a emprestar porque parar agora o obrigaria a analisar o balanço. |
Pois o problema já não é apenas quanto custará a guerra. Devemos começar por perguntar quem ainda se pode dar ao luxo de a deixar continuar. |
Os governos ocidentais repetem incessantemente: “o tempo que for necessário”. |
Uma frase magnífica. Ela evita cuidadosamente as três perguntas vulgares: quanto, até quando e com que dinheiro? |
Assim, Kiev ganha tempo com dívidas. Bruxelas compra otimismo com dinheiros públicos. E todos rezam para que a realidade aceite mais alguns pagamentos mensais. |
A contagem decrescente na Ucrânia já não é apenas militar. É financeira. |
E a derrota mais brutal pode não vir de uma vitória nas linhas da frente, mas de um ecrã a exibir friamente: Transferência recusada — fundos insuficientes. Estátua de Sal |
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