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14 de fevereiro de 2026

A extrema-direita no governo, exemplos de Itália e Argentina - 2

 Na Argentina, depois de sucessivos governos de direita e dos enormes fracassos do liberalismo de vigaristas políticos como Menem, a propaganda mediática entregou o poder a um perigoso farsante político de extrema-direita, Milei.

Milei teve desde 2014, grande destaque nos media argentinos. Frequentemente convidado na televisão e rádio para apresentar análises económicas alinhadas com o ultraliberalismo da Escola Austríaca, tornou-se o economista mais convidado na TV argentina. Em 2019, foi classificado entre as pessoas mais influentes da Argentina.

Nas aparições constantes nos media, Milei ganhou popularidade criticando os governos social-democratas e "liberais moderados" pelas "despesas desenfreadas" e a Argentina "ser um inferno fiscal". O populismo levou-o por fim à presidência em dezembro de 2023.

A sua solução "inegociável" para o país é neoliberalismo a todo custo: diminuir subsídios federais - aumentando a pobreza - privatizar empresas e serviços, congelar salários e pensões apesar da inflação, que a sua propaganda prometera anular.

Defende o que considera dinâmica empresarial e sucesso individual: as desigualdades sociais são naturais e o governo não deve procurar reduzi-las, a justiça social é um "conceito aberrante" e um "roubo". Quer também a total privatização da educação e da saúde. Quanto ao socialismo considera-o inveja e coerção.

Opõe-se ao aborto, inclusive em casos de estupro, rejeita a inclusão de educação sexual nas escolas, favorece a legalização do comércio de órgãos, promove teorias de extrema-direita contra o "marxismo cultural", forma de atacar a expressão do livre pensamento.

Ao fim de um ano de governo, 52,9% da população estava abaixo da linha da pobreza, o país enfrentava uma forte crise económica e social, com dívidas elevadas, câmbio deteriorado, reservas internacionais escassas e inflação na casa de 236%.

Em março de 2024, decidiu, por decreto, aumentar seu salário e o de seus ministros em 50%, embora fizesse campanha contra os “privilégios” da “casta” política durante as eleições presidenciais. A medida causou polémica, pois os salários e as pensões dos trabalhadores e pensionistas caíram drasticamente desde que ele assumiu o cargo devido à crise económica

Depois de dois anos de "terapia de choque" liberal, centenas de milhares de empregos foram perdidos, registando-se quebras acentuadas na indústria e construção. Incentiva os argentinos a colocarem as poupanças em dólares, o Wall Street Journal elogia-o por aumentar a quantidade de dólares nos bancos. Milei atacou o estado de bem-estar social, aumentou a pobreza em dois dígitos, cortou investimentos na educação, saúde e infraestruturas e intensificou a fuga de cérebros da Argentina. Mas, pelo menos os banqueiros estão melhor.

Milei apresentou ao Congresso um projeto de lei de 664 artigos, “Lei de Bases e Pontos de Partida para a Liberdade dos Argentinos'" - a"Lei Ónibus" - que inclui desregulamentação económica, redução da participação do Estado em setores como trabalho, saúde, aluguer habitacional, turismo, justiça, transformação de empresas estatais em sociedades anónimas para posterior privatização. A Lei é apresentada como emergência pública nas áreas económica, financeira, fiscal, segurança e defesa até ao fim de 2025, podendo ser prorrogada até ao fim do seu mandato.

Está em curso a alteração da legislação laboral, possibilitando a ampliação da carga horária diária de 8 para 12 horas, mediante acordos setoriais, facilitar contratações e demissões reduzindo a burocracia para o patronato, reduzir indemnizações por despedimento sem justa causa, novas limitações ao direito de greve, etc. Para o governo, a legislação existente é “obsoleta”, dificulta a criação de emprego. A cantiga liberal é sempre a mesma quando se trata de aumentar a exploração...

Apesar dos protestos, descontentamento, manifestações, Milei conseguiu nas eleições parlamentares em 2025 manter uma margem que impede o veto às suas decisões. Para isso contribuiu o "bom trabalho" dos media e a injeção de centenas de milhar de milhões de dólares de forma a no período eleitoral controlar a inflação e evitar a desvalorização do peso.

O investimento dos EUA em Milei é totalmente rentável. Agora, independentemente da contestação sindical e regras constitucionais, Milei intervém diretamente no Porto da Terra do Fogo, que depende do governo regional, com o objetivo de o entregar aos EUA. Trata-se de um porto estratégico, que servirá os interesses dos EUA nos recursos naturais da Terra do Fogo, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul além da instalação de uma base militar americana no extremo sul da Argentina.

Em política externa rejeita o BRICS e prioriza alianças com os Estados Unidos e Israel; apoia a Ucrânia contra a Rússia.

Milei assinou a Carta de Madrid, elaborada pelo Vox que descreve grupos de esquerda como inimigos do Ibero-América, envolvidos num "projeto criminoso ligado ao regime cubano", juntamente com outros políticos sul-americanos como Aliaga do Peru, Antonio Kast do Chile e Eduardo Bolsonaro do Brasil.

Estes, Meloni, Le Pen, Orban e outros conhecidos, unem-se a Trump numa internacional neofascista. As diferenças entre eles e a Comissão Europeia são similares às que existem entre republicanos e democratas nos EUA. A social-democracia europeia, liberais e extrema direita no essencial não passam de fantoches ao serviço do imperialismo.



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