Discutem-se "medidas", propalam-se "reformas", mas nunca o sistema em que se aplicam e as leis que o regem. Reformas, foi o que a social-democracia propunha - combatendo o marxismo - como forma de alcançar o socialismo. Contudo, o que o proletariado conseguiu alcançar de direitos deveu-se à intensa luta dos trabalhadores não ao palavreado "reformista".
É um princípio da ciência que impossibilidades teóricas não são ultrapassadas por medidas técnicas. Por outras palavras, "medidas" que ignorem ou vão contra as leis fundamentais do sistema a que se aplicam ou são inúteis ou mesmo gravosas em relação aos objetivos que se diz pretender. As leis económicas não podem ser ignoradas, desrespeitadas, intencionalmente ou não. A violação das leis seja da natureza, sejam da economia política provoca o fracasso do procedimento.
Por esta razão as críticas e promessas de oposições que nada alteram na economia política do sistema são meras boas intenções ou demagogia - o dito populismo. A social-democracia assume lucro privado como eficiência, centra as suas políticas sociais em formas de redistribuição que não vão além do empobrecimento relativo.
Na realidade, centrava, hoje alinha nas teses neoliberais do empobrecimento absoluto, aceita capital fictício como "riqueza", nega a lei da mais-valia e aposta em "revoluções digitais e IA" em que a exploração do grande capital tende a agravar-se.
O que os "comentadores" - "especialistas" - fazem é ignorar as leis da economia política do sistema substituindo-as por medidas de política económica, ou seja liquidar a hipótese de investigação e análise científica do desenvolvimento das relações de produção e da forma como esse desenvolvimento é transferido para as pessoas (forças produtivas).
O texto acima, traduz alguns princípios defendidos por autores marxistas. O texto seguinte tem que ver também com um autor marxista, Remy Herrera sobre "A doença degenerativa da economia: o neoclassicismo".
O neoliberalismo é o sistema sobre o qual se desenvolve a estratégia de domínio da finança, baseado num paradigma fictício, feito de equilíbrios ótimos e harmonias imaginárias que se pretende científico e universal, mas sempre apologético, propagandístico.
O neoliberalismo conduziu uma agressiva estratégia anti Estado, em que as privatizações representaram uma mutação radical a favor do sector privado, associada à redução das despesas orçamentais, desmantelamento da proteção social, rigor salarial, combate ao que designam "rigidez sindical", promovendo o comércio livre e a livre transferência de capitais. Pretende-se que tudo o que seja suscetível de dar lucro seja privatizado.
Depois de tanto teorizarem sobre os malefícios da intervenção do Estado na economia, as crises provocadas pelo sistema - desprezando as leis da economia política - acabaram defendendo essa intervenção… no sentido da acumulação lucros privados, secundarizando a redistribuição dos rendimentos mesmo no quadro do capitalismo. As decisões públicas limitam-se a refletir as preferências dos "agentes privados".
Já não é apenas a intervenção do Estado que se torna incompatível com o sistema, é a própria democracia, limitada por partidos na mesma linha política ou quase – e em que a liberdade eleitoral é manipulada pelos potentados do dinheiro.
Os enormes lucros obtidos pela exploração capitalista não foram capazes durante mais de três décadas de tirar o sistema da sua crise estrutural. As políticas de "ajustamento estrutural" não só se revelaram totalmente ineficazes para resolver desequilíbrios internos como contribuíram mesmo para propagar as causas da crise. A desregulamentação, privatizações e livre circulação de capitais provou o seu fracasso.
A flexibilização de preços, salários, taxas de juro, faria o sistema tender para o equilíbrio através da livre concorrência. Tudo isto é negado pela prática e os trabalhadores são obrigados a aceitar salários e condições laborais abaixo do nível de pobreza, obrigados a empregos precários e, mesmo os qualificados, em "estágios" e "requalificações" ou a emigrar. São os oligopólios que ditam a lei, que fixam taxas de juro, criam moeda e se necessário nacionalizam prejuízos.
Os desempregados são sujeitos a toda uma série de obrigações, considerados potencialmente golpistas e preguiçosos, enquanto o grande capital recebe milhares de milhões sem qualquer contrapartida. Tudo coerente com esta economia política de degeneração social.
Globalmente, a riqueza bilionária aumentou mais de 16% em 2025, atingindo um recorde de 8,3 milhões de milhões de dólares, três vezes mais rápido que nos cinco anos anteriores. Desde 2020, a riqueza dos bilionários cresceu 81%, enquanto mais de 3 000 milhões de pessoas sobrevivem na pobreza extrema. Os 50% mais pobres detêm apenas 1,1% da riqueza mundial.
Um outro capitalismo "de rosto humano" não é possível. O sistema tornou-se essencialmente destrutivo para a humanidade, está condenado, mas não cairá sem o impulso das lutas de massas, progressistas e convergentes.
Apenas sob o socialismo é possível conciliar a revolução científico-técnica com a social. A questão atual é saber como construir estratégias de desenvolvimento numa alternativa ao capitalismo.
Este processo obriga a considerar soluções de transformação social pós-capitalistas começando por parar a máquina infernal acionada pela finança que regula o mundo por meio da guerra e instaurar um controlo público e democrático dos oligopólios, nomeadamente os financeiros, a fim de responder às necessidades dos povos.
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