Com o fim da União Soviética os EUA adquiriram um poder geopolítico praticamente global. Um poder que lhes permitiu impor aos demais os seus critérios económicos, sociológicos e de políticas externas.
Os EUA dispõem de grandes vantagens sobre os outros povos. Do ponto de vista global, o seu poder financeiro alicerça-se no dólar como moeda internacional de reserva e troca, que o FMI e o BM gerem alavancando a posição de suserania dos EUA.
A existência de umas 800 bases militares disseminadas pelo mundo e sete esquadras navais com onze porta-aviões, garante aos EUA um poder não só militar, mas também político sobre os países que as acolhem e vizinhos.
ONG, Fundações, universidades, ligadas à CIA captam camadas sociais alinhadas com os EUA, promovem ativistas capazes de organizarem "mudanças de regime" e "revoluções coloridas". Os grandes media, na posse das oligarquias, têm a seu cargo a defesa e endoutrinação da ordem geopolítica definida pelos EUA, no sentido de congregar os interesses das oligarquias dos diversos países com as dos EUA, mantendo poder e influência.
Dispondo destas vantagens os EUA estabeleceram uma "ordem internacional baseada em regras", acima de leis internacionais já estabelecidas ou da Carta da ONU. Este poder, usando uma expressão clássica, é ainda dominante, mas não determinante.
Cada vantagem tem a contrapartida de desafios que lhe são colocados. A desdolarização da economia mundial é um facto, o dólar é ameaçado pelo yuan da China e pelas trocas comerciais em rublos. A Rússia criou e procura expandir através dos BRICS alternativas ao SWIFT, ao BM e ao FMI.
A posição geográfica dos EUA é uma vantagem decisiva que os põe ao abrigo de qualquer tentativa de ocupação. Porém não os põe ao abrigo de misseis russos como os multiogivas Sarmat, para os quais os EUA não têm defesas (podem atacar pelo sul). A guerra contra o Irão mostrou a fragilidade das bases militares dos EUA, sofrendo pesadas destruições, inclusive de aeronaves, e também dos navios dos EUA perante armamento muito menos poderoso do que a Rússia ou a China dispõem.
Michael Vlahos, ex- professor na Escola Naval de Guerra dos EUA, observa que: A China tem toda a capacidade para construir e produzir aviões e navios. Ela tem 200 vezes a capacidade de construção naval dos EUA. Os EUA estão numa posição em que dificilmente conseguem manter e reparar os navios que possuem.
Quanto à "vitória fácil" sobre o Irão cujos custos foram estimados em 25 mil milhões de dólares iam em 132 mil milhões, ainda antes da fase atual. Os desafios existentes obrigam ao pedido pela Administração de 1,5 milhões de milhões de dólares para despesas militares em 2027, numa altura em que os títulos dos EUA têm menos procura e enfrentam taxas de juro mais elevadas. Não admira, pois, que os EUA pressionem os aliados da NATO a gastarem mais em armamento.
As inovações militares da China deixam os EUA extremamente inquietos, sentindo-se ultrapassados perante a China, que em ligação à Rússia, ao Irão e à RPDC constituem um núcleo, empenhado em desmantelar a ordem mundial defendida pelos EUA.
Estes desafios tornaram os posicionamentos militares dos EUA muito caros para serem sustentados. Nem as enormes despesas militares se traduziram em vitórias nem a base industrial apresentou melhorias significativas.
Na guerra no Médio Oriente, os Patriot e os THAAD disparados nos primeiros meses deste ano corresponderam a 18 meses de produção, etc. Mesmo acelerando as produções como está a acontecer, continua a exigir muito dinheiro e tempo, para repor stocks e manter guerras de longa duração, além de matérias primas, como perclorato de amónio (para mísseis de combustível sólido); cobre; neodímio; tântalo; gálio. A China, principal rival estratégico dos EUA, controla o mercado de quase todas estas e outras matérias-primas críticas da produção militar.
O poder geopolítico dos EUA, que os aliados da NATO supõem partilhar, tem o grave problema de substituir as visões da propaganda pela realidade, agindo de acordo com a própria manipulação. Sobrestimam o seu poder, tendem a ignorar o potencial dos seus "inimigos", cometem erros de avaliação. Quando a realidade não está conforme com o que imaginaram, avançam para posições ainda mais absurdas, extremamente perigosas.
Ao aumentar as tarifas sobre as exportações chinesas, a ilusão era que Pequim cederia, supondo uma fraqueza económica. Pequim respondeu limitando a exportação de terras raras necessárias aos fabricantes americanos de automóveis, armamento, dispositivos eletrónicos, etc., obrigando os EUA a recuar.
As derrotas que EUA e aliados têm sofrido na política externa deveriam ter levado a posições realistas e privilegiar a diplomacia, pelo contrário lançam-se em novas aventuras. Como afirma Pepe Escobar. Washington não pode mais ditar unilateralmente termos para seus aliados europeus, ucranianos (ou israelitas). Uma guerra global "quente" já está em andamento, abrangendo conflitos no Irão e na Ucrânia, sem existir um marco acordado ou mesmo consultas preliminares para a desescalada.
A China e a Rússia são os únicos países que podem desafiar militarmente os EUA, outros como o Irão podem causar sérios danos à estrutura militar extraterritorial dos EUA. A política dos EUA está repleta de “falcões” que desejam liquidar e submeter aqueles países - militarmente ou pelo separatismo. Países que porém conhecem os planos dos EUA e preparam-se. Mas os EUA e aliados não podem desencadear conflitos contra a Rússia, a China e o Irão ao mesmo tempo, quaisquer que sejam as estratégias desenhadas nos gabinetes.
Os EUA - e aliados - não querem reconhecer a falência económica e social da financeirização, a dependência de linhas de abastecimento frágeis e de gastos descontrolados, tudo isto contribuindo para o fracasso das suas estratégias. Recusam a multipolaridade e permanecem na ilusão de serem "o país excecional". Infelizmente, o bom senso político parece ser a qualidade mais mal distribuída no mundo.
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