A viagem de um deputado PS num comboio que passava pela Rússia serviu para a extrema-direita montar um escândalo - o deputado até se riu na Rússia... - associando-se aos protestos de uma Associação de Ucranianos em Portugal. A agenda mediática seguiu a norma, fez-se eco da extrema-direita com comentadores salientando a "invasão injustificada da Ucrânia pela Rússia".
Importa voltar ao tema da "invasão injustificada", pois sem memória não há conhecimento nem condições para uma análise consequente das "narrativas" com opiniões a passarem por "provas". Tentemos repor e ordenar factos. (1)
Na altura do desaparecimento da URSS foi assumido pelos EUA (também pelas potências europeias) o compromisso, de que a NATO não avançaria uma polegada para Leste. Com a dissolução do Pacto de Varsóvia, acreditou-se que a NATO teria igual destino, porque a sua continuação já não fazia sentido.
A verdade é que a NATO não foi constituída para responder às ameaças do Pacto de Varsóvia, criado cinco anos depois. Os objetivos que levaram à sua criação explicam a sua permanência e expansão após a URSS e o Pacto de Varsóvia desaparecerem.
Mantendo a NATO, os EUA não quiseram abdicar de um dos principais instrumentos da sua política imperialista. Com a degradação da Rússia sob Yeltsin e liberais o "perigo russo" desaparecera, levando os EUA a considerar que não haveria qualquer resistência à expansão da NATO, rompendo o compromisso de 1991 e cercando a Rússia de bases da NATO. Como disse o prof. Mearsheimer: "Não se tratava de conter uma Rússia considerada perigosa. Foi a fraqueza da Rússia que permitiu a expansão da NATO".
Nas fronteiras da Rússia só a Bielorrússia - e a Ucrânia - não são membros da NATO. Isto foi visto como mais uma humilhação pelos russos que associaram o ocidente às privatizações selvagens que destruíram a economia e empobreceram a população.
A tese de Brezinsky sobre a American Primacy (1997) pôs em relevo a importância estratégica da Ucrânia como "pivô geopolítico" euro-asiático. Estava traçado o destino da Ucrânia palco de uma futura guerra por procuração dos EUA contra a Rússia.
A intenção de trazer a Ucrânia e a Geórgia para a NATO teve o propósito de conduzir a um conflito com a Rússia (prof. Mearsheimer). Outras personalidades americanas alertaram que a expansão da NATO era desnecessariamente provocatória, um erro político de proporções históricas, suscetível de provocar um conflito militar sem sentido com a Rússia e perturbar a paz europeia.
Sucessivamente, em 2008, 2010, 2021, a Rússia propôs um Tratado Europeu de Segurança. Inútil, em resposta em nov/2021, os EUA assinaram uma carta de Aliança Estratégica EUA - Ucrânia. Como disse em set/2022, o Almirante Bauer (presidente do comité militar da NATO) em set/2022, "o planeamento para esta guerra começou há anos, agora estamos a implementá-lo." Naquele plano não havia lugar para Tratados de Segurança...
O golpe Maidan em fevereiro de 2014, conduzido pelos EUA, derrubou o presidente legítimo colocando em Kiev grupos nazi-fascistas, para executarem "a missão dos EUA/NATO" como declarou em jan/2023 o ministro ucraniano da defesa em Davos. Freitas do Amaral, em declarações à TVI24 (4/4/2014) disse que o mundo ocidental andava há dois ou três anos, a desestabilizar a vida interna da Ucrânia para a trazer para a NATO, coisa que a Rússia nunca vai aceitar.
Apesar do milhares de mortos e das violências que foram vítimas após 2014 as populações russófonas do Donbass - que apenas exigiam autonomia no seio de uma Ucrânia federalista - os grupos nazi-fascistas foram derrotados. Em 2014 e 2015 Kiev foi forçada a assinar, com dirigentes de Donetsk e Lugansk, os acordos de Minsk, cujo cumprimento era garantido pela Alemanha, França, Rússia e aprovados unanimemente no CS da ONU.
Porososhenko (presidente da Ucrânia), Merkel, Holland, disseram depois, que nunca pensaram em cumpri-los, tratava-se de ganhar tempo para rearmar e treinar o exército da Ucrânia, para a guerra contra a Rússia, há anos em preparação. Perante esta situação e o agravamento dos ataques de Kiev, Donetsk e Lugansk declaram a independência pedindo apoio a Moscovo. A guerra podia nem ter começado e podia ter terminado em abril de 2022: com base nos acordos de Minsk foi elaborado em Istambul um acordo que poria fim à guerra. Porém, Boris Johnson foi a Kiev impedir a assinatura. "O que se passou é inqualificável" (comentou o gen. H. Cujat, conselheiro militar de Merkel).
Fica, portanto, claro quem são os responsáveis por esta guerra, com a NATO concebida para evitar o entendimento e a cooperação entre a Europa e a URSS/Rússia e instrumento de colonização da Europa pelos EUA. A destruição dos gasodutos Nord Stream comprovam-no. Seymor Hersh (jornalista prémio Pulitzer) afirmou a destruição dos gasodutos, era "um ato de guerra à margem do Direito Internacional, cujo objetivo é manter a Alemanha e a Europa sob o domínio americano". "A Europa viu agravar-se a sua dependência energética e estar perante uma nova era de desindustrialização" (The Wall Street Journal).
Embora nada no comportamento da Rússia indique qualquer propósito de invadir a Europa, historicamente foi sempre a Europa a invadir a Rússia, incluindo para destruir a Revolução de Outubro, muitos dirigentes europeus dão mostras de "esquizofrenia política" insistindo em que se Putin vencer na Ucrânia chegará a Paris e Lisboa. É um discurso que assenta na difusão do medo, base para políticas fascizantes.
1 - Como fonte, um texto de Avelãs Nunes, "O direito à paz é um direto da Humanidade" (Vértice, julho-agosto-setembro 2025)
Acerca da injustificada invasão da Ucrânia pela Rússia
A viagem de um deputado PS num comboio que passava pela Rússia serviu para a extrema-direita montar um escândalo - o deputado até se riu na Rússia... - associando-se aos protestos de uma Associação de Ucranianos em Portugal. A agenda mediática seguiu a norma fez-se eco da extrema-direita com comentadores salientando a "invasão injustificada da Ucrânia pela Rússia".
Importa voltar ao tema da "invasão injustificada", pois sem memória não há conhecimento nem condições para uma análise consequente das "narrativas" e opiniões a passarem por "provas". Tentemos repor e ordenar factos. (1)
Na altura do desaparecimento da URSS foi assumido pelos EUA (também pelas potências europeias) o compromisso, de que a NATO não avançaria uma polegada para leste. Com a dissolução do Pacto de Varsóvia, acreditou-se que a NATO teria igual destino, porque a sua continuação já não fazia sentido.
A verdade é que a NATO não foi constituída para responder às ameaças do Pacto de Varsóvia, criado cinco anos depois. Os objetivos que levaram à sua criação explicam a sua permanência e expansão após a URSS e o Pacto de Varsóvia desaparecerem.
Mantendo a NATO os EUA não quiseram abdicar de um dos principais instrumentos da sua política imperialista. Com a degradação da Rússia sob Yeltsin e liberais o "perigo russo" desaparecera, levando os EUA a considerar que não haveria qualquer resistência à expansão da NATO, rompendo o compromisso de 1991 e cercando a Rússia de bases da NATO. Como disse o prof. Mearsheimer: "Não se tratava de conter uma Rússia considerada perigosa. Foi a fraqueza da Rússia que permitiu a expansão da NATO".
Na fronteira da Rússia só a Bielorrússia - e a Ucrânia - não são membros da NATO. Isto foi visto como mais uma humilhação pelos russos que associaram o ocidente às privatizações selvagens que destruíram a economia e empobreceram a população.
A tese de Brezinsky sobre a American Primacy (1997) pôs em relevo a importância estratégica da Ucrânia como "pivô geopolítico" euro-asiático. Estava assim traçado o destino da Ucrânia palco de uma futura guerra por procuração dos EUA contra a Rússia.
A intenção de trazer a Ucrânia e a Geórgia para a NATO teve o propósito de conduzir a um conflito com a Rússia (prof. Mearsheimer). Outras personalidades americanas alertaram que a expansão da NATO era desnecessariamente provocatória, um erro político de proporções históricas, suscetível de provocar um conflito militar sem sentido com a Rússia e perturbar a paz europeia.
Sucessivamente, em 2008, 2010, 2021, a Rússia propôs um Tratado Europeu de Segurança. Inútil, aliás em resposta em nov/2021, os EUA assinaram uma carta de Aliança Estratégica EUA - Ucrânia. Como disse em set/2022, o Almirante Bauer (presidente do comité militar da NATO) em set/2022, "o planeamento para esta guerra começou há anos, agora estamos a implementá-lo." Naquele plano não havia lugar para Tratados de Segurança...
O golpe Maidan em fevereiro de 2014, conduzido pelos EUA, derrubou o presidente legítimo colocando em Kiev grupos nazi-fascistas, para executarem "a missão dos EUA/NATO" como declarou em jan/2023 o ministro ucraniano da defesa em Davos. Freitas do Amaral, em declarações à TVI24 (4/4/2014) disse que o mundo ocidental andava há dois ou três anos, a desestabilizar a vida interna da Ucrânia para a trazer para a NATO, coisa que a Rússia nunca vai aceitar.
Apesar do milhares de mortos e das violências que foram vítimas após 2014 as populações russófonas do Donbass - que apenas exigiam autonomia no seio de uma Ucrânia federalista - os grupos nazi-fascistas foram derrotados. Em 2014 e 2015 Kiev foi forçado a assinar, com dirigentes de Donetsk e Lugansk, os acordos de Minsk, cujo cumprimento era garantido pela Alemanha, França, Rússia e aprovados unanimemente no CS da ONU.
Porososhenko (presidente da Ucrânia), Merkel, Holland, disseram depois, que nunca pensaram em cumpri-los, tratava-se de ganhar tempo para rearmar e treinar o exército da Ucrânia, para a guerra contra a Rússia, há anos em preparação.
Perante esta situação e o agravamento dos ataques de Kiev, Donetsk e Lugansk declaram a independência pedindo apoio a Moscovo. A guerra podia nem ter começado e podia ter terminado em abril de 2022: com base nos acordos de Minsk foi elaborado em Istambul um acordo que poria fim à guerra. Porém, Boris Johnson foi a Kiev impedir a assinatura. "O que se passou é inqualificável" (comentou o gen. H. Cujat, conselheiro militar de Merkel).
Fica, portanto, claro quem são os responsáveis por esta guerra, com a NATO concebida para evitar o entendimento e a cooperação entre a Europa e a URSS/Rússia e instrumento de colonização da Europa pelos EUA.
A destruição dos gasodutos Nord Stream comprovam-no. Seymor Hersh (jornalista prémio Pulitzer) afirmou a destruição dos gasodutos, era "um ato de guerra à margem do Direito Internacional, cujo objetivo é manter a Alemanha e a Europa sob o domínio americano". "A Europa viu agravar-se a sua dependência energética e estar perante uma nova era de desindustrialização" (The Wall Street Journal).
Embora nada no comportamento da Rússia indique qualquer propósito de invadir a Europa, historicamente foi sempre a Europa a invadir a Rússia, incluindo para destruir a Revolução de Outubro, muitos dirigentes europeus dão mostras de "esquizofrenia política" insistindo em que se Putin vencer na Ucrânia chegará a Paris e Lisboa. É um discurso que assenta na difusão do medo, base para políticas fascizantes.
1 - Como fonte, um texto de Avelãs Nunes, "O direito à paz é um direto da Humanidade" (Vértice, julho-agosto-setembro 2025)
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