Jonathan Cook, um jornalista premiado, fala-nos de estarmos à beira de uma série de catástrofes que nós próprios causamos, sejam ambientais, sejam bélicas. Há um caminho pela frente, mas poder vê-lo e para onde levará exige, pelo menos da maioria dos cidadãos um grande esforço, deixando de lado muitas das coisas com as quais fomos ensinados a nos identificar mais de perto. Isso exigirá a perceção que muitos dos "valores" mais defendidos são, na verdade, prejudiciais.
Em 2014 aos críticos do status quo Sunny Hundal, que já foi o rosto do liberalismo centrista, respondeu: "Se você quer substituir o sistema atual do capitalismo por outra coisa, quem vai fabricar seus jeans, iPhones e administrar o Twitter?"
Pelos vistos, os liberais não conseguem conceber de que jeans ou iPhones poderiam ser feitos independentemente do capitalismo, muito menos a sugestão de que possuir seis pares de jeans e descartar seu iPhone cada dois anos talvez não seja o melhor uso dos recursos limitados do planeta.
A verdade é que a democracia liberal não é uma característica inerente do que gostamos de chamar "ocidente". Não há nada inevitável, ou irreversível, na democracia liberal. O ocidente tem sido apenas superficialmente democrático, no sentido de que todos têm direito a voto, escolhendo entre dois partidos capitalistas, um mais extremo que o outro.
Uma democracia altamente restringida e controlada, pela permanente exposição às opiniões criadas pelos beneficiários finais do capitalismo - os bilionários que possuem os grandes media.
Uma "democracia" que só operou internamente: as "aventuras" (neo)coloniais para subjugar e esvair bens do Sul Global nunca cessaram. Na era "pós-colonial", instalamos ditadores locais submissos para fazer nosso trabalho sujo e, repetidamente, no último quanto de século ameaçamos, invadimos e saqueamos abertamente Estados que não se submetessem rapidamente aos nossos ditames. Nossos governantes decidiram romper as próprias regras da guerra que eles mesmos formularam após a Segunda Guerra Mundial, trazendo de volta a lei da selva.
Uma classe média ampliada, alimentando-se de migalhas da mesa, foi treinada para defender valores liberais que justificavam grandes disparidades de riqueza como consequência de suposto mérito. A classe trabalhadora e as mulheres receberam um voto simbólico para eleger um dos representantes leais da classe dominante, em troca de se tornarem devotos do consumo de livre mercado.
Mas, numa numa era de declínio, as contradições são cada vez mais difíceis de conter. À medida que os excedentes desaparecem, também desapareceram os valores liberais aos quais nossas "elites democráticas" antes prestavam homenagem.
A classe dominante entende que a maré está mudando. Os recursos do mundo são finitos e estão se esgotando. O modelo capitalista de consumo em massa só pode acelerar o fim, poluí o planeta, alimenta o caos ambiental, dizima outras espécies que mantêm o planeta vivo.
A classe bilionária não pode renunciar ao que lhes dá riqueza e poder. A desculpa é que, se pararem, outros - liderados pela China - ocupariam seu lugar. O único consolo deles é que, encapsulados pela riqueza, esperam sobreviver um pouco mais do que o resto de nós.
Entender que se está sendo manipulado e usado não é o mesmo que libertação. Isso exige: liderança, organização, vontade coletiva, um senso de uma alternativa melhor.
A classe bilionária, portanto, dificulta ao máximo que o surgimento de líderes, e que uma alternativa se organize. Qualquer Jeremy Corbyn será vilipendiado, protestos contra a guerra ou ações pela Palestina serão criminalizados.
O papel dos grandes media é encher nossas mentes com propaganda exaltando jeans e iPhones que escolhemos continuar adorando no altar do capitalismo. Se a perceção é que a comida vem do supermercado e a água vem da torneira, defende-se o sistema porque sua vida depende disso. Se, a sua experiência é que a água vem de um rio, que a comida vem de uma base terrestre, defende-se esse rio e aquela base terrestre porque sua vida depende disso.
Estamos confusos e envolvidos num sistema em que as nossas vidas dependem do sistema que nos explora. E, acrescente-se, um sistema que evidentemente nos está levando para caminhos de morte.
Será que começaremos a entender que nossa sobrevivência depende mais de nos identificarmos com rios, árvores e solo do que com supermercados, Elon Musk e mísseis?
A tecnologia, desde armamentos até à IA é direcionada ainda mais para benefício da classe dominante. Se a ideologia do individualismo ganancioso for exposta como totalmente vazia (e suicida), para onde fãs desiludidos de iPhone e Twitter/X escolherão ir a seguir?
Se o individualismo for mostrado como trazendo apenas ruína, provavelmente preferiremos ideologias coletivas. Se a ganância trouxer apenas a morte, provavelmente preferiremos cooperação e solidariedade. A esperança de salvação não reside em iPhones e jeans, mas na ressurreição dos bens comuns — do bem público, da riqueza compartilhada.
O filósofo esloveno Slavoj Žižek falou dos "sintomas mórbidos": "nossos monstros não são um ciclope, um Hannibal Lecter ou mesmo um Hitler. Nossos sintomas mórbidos são Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos, exemplos de um capitalismo ocidental moribundo, homens que têm acesso diretamente às nossas mentes e dos nossos filhos."
O maior perigo é que um novo mundo não nasça, baseado em outras tendências históricas mais antigas, priorizando a comunidade em detrimento do individualismo, a cooperação em vez da competição, a reciprocidade em relação à propriedade, princípios que o capitalismo busca erradicar.
Se tudo isto parecer improvável ou impossível, lembre-se: sua descrença pode ser apenas o barulho do capitalismo falando através de si. Pode ser que o problema seja seu, por não conseguir imaginar mais do que possuir coisas.
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