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À
medida que passam os dias, a vergonha vai desaparecendo e o oportunismo
mediático cresce de forma inversamente proporcional. O Público acaba de
publicar uma reportagem assinada por duas jornalistas estrangeiras que
diz que muitos dos edifícios que caíram em La Guaira pertenciam ao
programa de realojamento do chavismo. Tenta-se agora politizar a
tragédia atribuindo à revolução bolivariana a responsabilidade pelas
mortes.
A maioria dos
edifícios que desmoronaram em Caracas e em La Guaira correspondia a
complexos hoteleiros e prédios privados de habitação, o que mostra que
perante um sismo desta dimensão nenhuma estrutura estava inteiramente
capaz de resistir aos abalos. Por exemplo, em Caracas, as zonas mais
afectadas foram em bairros de classe média alta. Dos 252 edifícios
indicados como totalmente destruídos na página
http://terremotovenezuela.com, apenas 11 (4.3%) eram da "Misión Vivienda", o programa chavista de entrega de casas à população.
Procura-se
agora explorar qualquer incidente para culpar o governo e em momento
algum se atribuem culpas a quem debilitou a capacidade do Estado através
das sanções. O sistema de saúde, a capacidade dos bombeiros e da
protecção civil, também da necessidade de reabilitação de edifícios e de
infraestruturas, ficaram gravemente afectadas devido às sanções
impostas pelos Estados Unidos e da União Europeia à Venezuela. Isto é,
simplesmente, mau jornalismo. E uma vergonha. Em baixo, deixo uma
entrevista a um bombeiro chileno que explica como isto é mentira.
2 João Gomes
Em
Portugal existe uma expressão antiga: “foi uma sorte do diabo.” Diz-se
quando alguém passa anos a tentar abrir uma porta sem conseguir e, de
repente, acontece qualquer coisa que faz essa porta escancarar-se
sozinha. Não porque tenha vencido o argumento. Não porque tenha
conquistado a confiança. Mas porque a realidade resolveu fazer-lhe o
trabalho.
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É uma expressão curiosa, porque
encerra uma ironia: há sortes que vem envolvidas em tanta desgraça que
quase parecem uma provocação do destino. E é impossível não pensar nela
quando se olha para a Venezuela.
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Durante anos ouvimos falar de sanções,
bloqueios, isolamento financeiro, ameaças, tentativas de mudança de
regime, reconhecimento de governos paralelos, operações clandestinas,
recompensas milionárias pela captura dos seus dirigentes, discursos
sobre intervenção e sucessivas promessas de que “o fim estava próximo”.
Nada disso conseguiu derrubar o poder instalado em Caracas. Pelo
contrário. A resistência, goste-se dela ou não, continuou.
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E então chegou aquilo que ninguém
deseja para povo algum: um terramoto devastador. Não escolheu partidos.
Não perguntou em quem votavam as vítimas. Não distinguiu chavistas de
opositores. Destruiu casas, hospitais, escolas, estradas, fábricas e
vidas. De um momento para o outro, a prioridade deixou de ser a
política. Passou a ser sobreviver.
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Uma nação que já vivia enormes
dificuldades passou a necessitar de praticamente tudo: alimentos,
medicamentos, água potável, máquinas, engenheiros, hospitais de
campanha, habitação temporária, reconstrução de cidades inteiras e
recursos financeiros durante muitos anos.
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É nestes momentos que se mede a
autenticidade dos discursos. Durante anos, muitos afirmaram falar em
nome do povo venezuelano. Onde estão agora? Onde estão os grandes rostos
da oposição? Onde estão aqueles que diziam representar o sofrimento do
país? Onde estão os empresários milionários que abandonaram a Venezuela
levando consigo fortunas consideráveis? Onde estão os dirigentes
políticos instalados confortavelmente no estrangeiro? Onde está aquela
solidariedade que tantas vezes ocupou conferências internacionais e
noticias de jornais? Onde estão María Corina Machado, Juan Guaidó e
Edmundo González Urrutia? Limitam-se a apelos simbólicos nas redes
sociais?
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É precisamente agora que deveria ser
visível. Não através de comunicados. Mas através de hospitais. De
comboios humanitários. De navios carregados de alimentos. De aviões com
medicamentos. De fundos para reconstrução. De regresso ao país para
ajudar quem ficou. Porque amar um povo não se demonstra apenas quando é
conveniente atacar quem governa. Demonstra-se quando esse povo está
soterrado sob os escombros. Naturalmente, também será legítimo perguntar
se as grandes potências irão colocar a ajuda humanitária acima dos seus
interesses estratégicos.
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A História ensina que as grandes
reconstruções raramente são apenas exercícios de solidariedade. Muitas
vezes tornam-se igualmente oportunidades económicas, financeiras e
geopolíticas. Quem financia reconstrói. Quem reconstrói influencia. Quem
influencia ganha acesso. É por isso que qualquer processo desta
dimensão exigirá transparência e respeito pela soberania venezuelana,
independentemente das posições políticas de cada um.
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Porque uma tragédia humana nunca deveria transformar-se num concurso internacional de oportunidades.
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No meio de tanta destruição, uma
verdade permanece. As vítimas não precisam de propaganda. Precisam de
cimento. Precisam de água. Precisam de hospitais. Precisam de
eletricidade. Precisam de escolas. Precisam de esperança. E talvez seja
precisamente agora que se descubra quem realmente estava ao lado do povo
venezuelano e quem apenas utilizava o seu sofrimento como instrumento
político.
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Há tragédias que revelam o melhor da
Humanidade. E há outras que expõem, sem qualquer disfarce, a dimensão da
nossa hipocrisia. Talvez seja por isso que, olhando para tudo isto, a
velha expressão portuguesa nunca tenha parecido tão adequada.
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Para alguns interesses, esta foi, infelizmente, “uma sorte dos diabos”. Para os venezuelanos, foi apenas uma imensa tragédia.
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