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29 de junho de 2026

A Venezuela precisa de solidariedade e não do miserável aproveitamento político

Facebook de Bruno Carvalho


À medida que passam os dias, a vergonha vai desaparecendo e o oportunismo mediático cresce de forma inversamente proporcional. O Público acaba de publicar uma reportagem assinada por duas jornalistas estrangeiras que diz que muitos dos edifícios que caíram em La Guaira pertenciam ao programa de realojamento do chavismo. Tenta-se agora politizar a tragédia atribuindo à revolução bolivariana a responsabilidade pelas mortes. 

A maioria dos edifícios que desmoronaram em Caracas e em La Guaira correspondia a complexos hoteleiros e prédios privados de habitação, o que mostra que perante um sismo desta dimensão nenhuma estrutura estava inteiramente capaz de resistir aos abalos. Por exemplo, em Caracas, as zonas mais afectadas foram em bairros de classe média alta. Dos 252 edifícios indicados como totalmente destruídos na página http://terremotovenezuela.com, apenas 11 (4.3%) eram da "Misión Vivienda", o programa chavista de entrega de casas à população.

Procura-se agora explorar qualquer incidente para culpar o governo e em momento algum se atribuem culpas a quem debilitou a capacidade do Estado através das sanções. O sistema de saúde, a capacidade dos bombeiros e da protecção civil, também da necessidade de reabilitação de edifícios e de infraestruturas, ficaram gravemente afectadas devido às sanções impostas pelos Estados Unidos e da União Europeia à Venezuela. Isto é, simplesmente, mau jornalismo. E uma vergonha. Em baixo, deixo uma entrevista a um bombeiro chileno que explica como isto é mentira.



2  João Gomes

Em Portugal existe uma expressão antiga: “foi uma sorte do diabo.” Diz-se quando alguém passa anos a tentar abrir uma porta sem conseguir e, de repente, acontece qualquer coisa que faz essa porta escancarar-se sozinha. Não porque tenha vencido o argumento. Não porque tenha conquistado a confiança. Mas porque a realidade resolveu fazer-lhe o trabalho.

É uma expressão curiosa, porque encerra uma ironia: há sortes que vem envolvidas em tanta desgraça que quase parecem uma provocação do destino. E é impossível não pensar nela quando se olha para a Venezuela.

Durante anos ouvimos falar de sanções, bloqueios, isolamento financeiro, ameaças, tentativas de mudança de regime, reconhecimento de governos paralelos, operações clandestinas, recompensas milionárias pela captura dos seus dirigentes, discursos sobre intervenção e sucessivas promessas de que “o fim estava próximo”. Nada disso conseguiu derrubar o poder instalado em Caracas. Pelo contrário. A resistência, goste-se dela ou não, continuou.

E então chegou aquilo que ninguém deseja para povo algum: um terramoto devastador. Não escolheu partidos. Não perguntou em quem votavam as vítimas. Não distinguiu chavistas de opositores. Destruiu casas, hospitais, escolas, estradas, fábricas e vidas. De um momento para o outro, a prioridade deixou de ser a política. Passou a ser sobreviver.

Uma nação que já vivia enormes dificuldades passou a necessitar de praticamente tudo: alimentos, medicamentos, água potável, máquinas, engenheiros, hospitais de campanha, habitação temporária, reconstrução de cidades inteiras e recursos financeiros durante muitos anos.

É nestes momentos que se mede a autenticidade dos discursos. Durante anos, muitos afirmaram falar em nome do povo venezuelano. Onde estão agora? Onde estão os grandes rostos da oposição? Onde estão aqueles que diziam representar o sofrimento do país? Onde estão os empresários milionários que abandonaram a Venezuela levando consigo fortunas consideráveis? Onde estão os dirigentes políticos instalados confortavelmente no estrangeiro? Onde está aquela solidariedade que tantas vezes ocupou conferências internacionais e noticias de jornais? Onde estão María Corina Machado, Juan Guaidó e Edmundo González Urrutia? Limitam-se a apelos simbólicos nas redes sociais?

É precisamente agora que deveria ser visível. Não através de comunicados. Mas através de hospitais. De comboios humanitários. De navios carregados de alimentos. De aviões com medicamentos. De fundos para reconstrução. De regresso ao país para ajudar quem ficou. Porque amar um povo não se demonstra apenas quando é conveniente atacar quem governa. Demonstra-se quando esse povo está soterrado sob os escombros. Naturalmente, também será legítimo perguntar se as grandes potências irão colocar a ajuda humanitária acima dos seus interesses estratégicos.

A História ensina que as grandes reconstruções raramente são apenas exercícios de solidariedade. Muitas vezes tornam-se igualmente oportunidades económicas, financeiras e geopolíticas. Quem financia reconstrói. Quem reconstrói influencia. Quem influencia ganha acesso. É por isso que qualquer processo desta dimensão exigirá transparência e respeito pela soberania venezuelana, independentemente das posições políticas de cada um.

Porque uma tragédia humana nunca deveria transformar-se num concurso internacional de oportunidades.

No meio de tanta destruição, uma verdade permanece. As vítimas não precisam de propaganda. Precisam de cimento. Precisam de água. Precisam de hospitais. Precisam de eletricidade. Precisam de escolas. Precisam de esperança. E talvez seja precisamente agora que se descubra quem realmente estava ao lado do povo venezuelano e quem apenas utilizava o seu sofrimento como instrumento político.

Há tragédias que revelam o melhor da Humanidade. E há outras que expõem, sem qualquer disfarce, a dimensão da nossa hipocrisia. Talvez seja por isso que, olhando para tudo isto, a velha expressão portuguesa nunca tenha parecido tão adequada.

Para alguns interesses, esta foi, infelizmente, “uma sorte dos diabos”. Para os venezuelanos, foi apenas uma imensa tragédia.



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