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23 de junho de 2026

Até "comentadores" podem perceber que o Médio Oriente certamente mudou

O acordo de entendimento (M E) entre o Irão e os EUA foi assinado. Chegar a acordo é uma coisa, preservá-lo contra ações provocadoras ou distorções do texto é bem diferente. O M E constitui no entanto uma fase importante, embora apenas um passo, na longa jornada que o Irão tem pela frente.

O Irão conseguiu pressionar um Trump relutante a chegar a um acordo e pôr fim à escalada como objetivo estratégico. A expectativa de longa data era que uma pressão sustentada levaria a uma mudança de regime em Teerão. O acordo anunciado sugere uma nova realidade: a campanha que muitos esperavam que enfraquecesse ou até mesmo desestabilizasse a República Islâmica terminará, ao contrário, com o regime intacto, fortalecido e lidando formalmente com os EUA.

É o colapso da suposição que a pressão dos EUA e Israel criaria condições propícias a mudanças políticas fundamentais no Irão. Em vez disso, o resultado provável é o oposto, reforçando a confiança na elite governante do Irão, em vez de enfraquecê-la.

Isto representa uma grande conquista estratégica para o Irão: uma imagem heroica espalhando-se globalmente, enquanto o isolamento de Israel atingiu um pico e no plano interno a popularidade de Netanyahu caiu de forma catastrófica.

É claro que o “Acordo” pode desmoronar rapidamente. Toda a força da classe bilionária sionista dos EUA está sendo lançada contra Trump, obrigando-o a mudar de rumo, incluindo a mobilização da oposição no Congresso e no Senado.

O fato de Trump ter realmente chegado a um acordo – por mais provisório que seja – ressalta uma divergência crescente entre Trump e Israel. E a tentativa de Netanyahu contra cessar-fogo no Líbano paradoxalmente alcançou o oposto. Trump prontamente melhorou os termos do M E para o Irão.

Se o acordo se desintegrar, o Irão tem a opção de fechar o Estreito de Ormuz – e, potencialmente, Bab el Mandeb também. O que pode Trump fazer? Quanto mais os EUA se aproximarem do “abismo económico” e das eleições de meio de mandato, menor será o incentivo para reiniciar a guerra. De qualquer forma, o Irão está esperando e preparando-se para uma retomada dos ataques militares.

Há quatro décadas, que o Irão é submetido a sanções, estrangulamentos energéticos e exclusão do dólar, refletindo os esforços incessantes dos supremacistas sionistas em Israel e nos Estados Unidos para manter o domínio americano sobre o Médio Oriente.

Com esta hostilidade a resistência do Irão despertou a imaginação de grande parte do mundo, precisamente porque é vista como uma luta moral para o Irão reafirmar uma visão seu próprio futuro. O exemplo do Irão, abriu os olhos de todo o mundo  para o projeto dos EUA de coagirem outros Estados a aceitarem as exigências americanas e alinhar-se com à imposição dos EUA da hegemonia sionista em todo o Médio Oriente.

O Irão mostrou a outros Estados formas de se protegerem contra uma utilização semelhante, por parte dos EUA, dos estrangulamentos no comércio externo, alimentos, petróleo, fertilizantes, qualquer coisa em que os EUA possam criar contra eles.

Lazar Berman, correspondente militar do Times of Israel, observa que as ilusões de “vitória total” chegaram ao fim: As guerras pós-07 de outubro [2023], acompanhadas de promessas de ‘vitória total’, acabaram. Os palestinos não vão deixar Gaza. O Hamas não vai se desarmar, nem o Hezbollah. Trump não vai voltar à guerra no Irão, que agora pode ameaçar retirar-se do acordo para fazer com que Trump impeça qualquer operação israelita de grande porte contra o Hamas ou o Hezbollah… O Médio Oriente certamente mudou”.

Trump, parece acreditar que o acordo servirá aos interesses de Israel. Porém, “a ideia de que Israel e o Irão serão capazes de reconciliação após décadas de hostilidade, com bombardeios e ataques com mísseis, nunca foi sequer discutida em Israel”.

Esta lacuna está na origem da arrogância e o pensamento ilusório da classe dominante israelita. Diz o comentarista israelita Nahum Barnea: Provavelmente não havia ninguém da Inteligência Militar, do Conselho de Segurança ou da Mossad que levantasse nas reuniões a possibilidade do regime iraniano puder sobreviver e sair mais forte. Mesmo que houvesse, eles mantiveram-se de boca fechada”.

Em Israel existe a sensação de derrota. O que Trump provavelmente procura agora é margem de manobra para sua visão de paz no Médio Oriente. Num cenário estratégico israelita reconfigurado. Talvez até mesmo os pusilânimes europeus possam iniciar alguma correção nas suas formulações, voltando a antigos entendimentos sobre a guerra nos quais campanhas de assassinatos em massa de mulheres e crianças estão fora de todas as normas civilizadas da guerra, sem falar na moralidade humana. Os negociadores iranianos insistiram que quaisquer assassinatos ou mortes cessariam de vez as relações com os EUA.

Há uma clara segmentação no eleitorado dos EUA. A faixa etária acima de 55 anos é, em geral, solidária a Israel; mas os jovens mudaram radicalmente de opinião. Mesmo entre os judeus americanos, 61% concluíram que Israel cometeu crimes de guerra em Gaza, e 39% consideram a conduta de Israel em Gaza como genocídio. Claro que os defensores da política de “Israel em primeiro lugar” não mudarão e insistirão para que o Congresso siga a linha deles.

Fonte - Alastair Crooke - O acordo de Trump com o Irão e as mudanças no Médio Oriente

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