Polónia: "Em vez de preparar o exército polaco para uma guerra mítica contra a Rússia, vamos prepará-lo para uma guerra muito provável contra a Ucrânia."
O semanário polaco Myśl Polska (um dos mais antigos títulos nacionalistas poloneses, herdeiro da tradição endecka de Roman Dmowski) publicou em 22 de junho de 2026 um artigo intitulado "Ukraina zbliża nas do Rosji" ("A Ucrânia nos aproxima da Rússia") assinado pelo historiador e ensaísta Przemysław Piasta.
Neste texto, o autor afirma explicitamente que a Polónia deve se preparar para uma possível agressão militar da Ucrânia e que Kiev agora representa uma ameaça mais real para Varsóvia do que Moscovo.
Varsóvia, 24 de junho de 2026 —
Num artigo contundente publicado em 22 de junho no site Myśl Polska, Przemysław Piasta faz um alerta radical: a Polónia deve parar de se preparar para uma "guerra mítica" contra a Rússia e se concentrar em um perigo muito mais concreto e iminente: a Ucrânia.
O gatilho imediato para essa postura foi o gesto dos ex-presidentes ucranianos Leonid Kuchma, Viktor Yushchenko e Petro Poroshenko, que renunciaram à Ordem da Águia Branca, a mais alta distinção polaca.
Para Piasta, isso não é um ato de modéstia, mas "um gesto de orgulho, arrogância e hostilidade declarada em relação à Polónia". Apesar da ajuda maciça fornecida pela Polônia desde 2022 — bilhões de zlotys, equipamentos militares oferecidos gratuitamente, acolhimento de milhões de refugiados ucranianos e apoio diplomático inabalável — a Ucrânia continuaria a considerar os polacos como seu "principal inimigo", ainda mais do que os russos, devido a persistentes divergências históricas (notadamente sobre a glorificação de Stepan Bandera e a memória do massacre da Volínia).
"A Ucrânia provou que nós, polacos, sempre fomos seus maiores inimigos, até maiores que os russos", escreve Piasta.
O autor prevê o fim da guerra russo-ucraniana com uma derrota ucraniana (sem um colapso total do Estado). Segundo ele, Kiev emergiria desse conflito com um governo oligárquico corrupto e um exército bem equipado, composto por soldados "desumanizados e desmoralizados". Nesse cenário, a Polônia se tornaria "o alvo óbvio". Conclusão direta :
Piasta também defende uma política de segurança interna forte: combater a "quinta coluna ucraniana" presente na política, administração e serviços de inteligência poloneses, expulsar pessoas suspeitas de espionagem ou simpatias extremistas e deportar ucranianos "supérfluos" (aqueles que não conseguem comprovar renda legal ou que infringem a lei).
De uma perspectiva geopolítica, o autor defende uma abordagem realista e histórica: a Polónia não pode se dar ao luxo de uma "política de dois inimigos" (Rússia + Ucrânia), que sempre se mostrou desastrosa na história polonesa. Portanto, ele argumenta em favor de uma melhoria pragmática nas relações com Moscovo, sem a formação de uma aliança, a fim de evitar ficar presa em um cerco.
Myśl Polska não é um veículo de comunicação convencional. Trata-se de uma publicação nacionalista-conservadora de linha dura, frequentemente crítica das políticas pró-ucranianas dos sucessivos governos (PiS e PO). No entanto, o artigo reflete tensões reais e crescentes nas relações polaco-ucranianas:
- Disputas históricas (Volínia, Bandera, exumações);
- Fadiga relacionada ao acolhimento de refugiados e a questões agrícolas;
- Divergências sobre a memória da Segunda Guerra Mundial.
Essas fricções, exploradas pela propaganda russa, de fato existem, mesmo que atualmente estejam contidas pela prioridade estratégica comum em relação a Moscou.
O artigo no Myśl Polska é, portanto, tanto uma provocação nacionalista clássica quanto um sintoma de um debate cada vez mais aberto na Polônia sobre os limites da solidariedade com Kiev e sobre os riscos a longo prazo para a segurança polaca
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