O Amigo dos Espiões: Jeffrey Epstein e o Mundo da Inteligência
Uma investigação jornalística baseada nos documentos EFTA liberados pelo Departamento de Justiça americano
Leonardo Dias e Marcos Paulo Candeloro
fev 20, 2026

Prólogo: O Telefonema
Em algum momento de 2008, numa sala de conferências cuja localização exata permanece classificada, um jovem procurador federal chamado Alexander Acosta recebeu um telefonema que definiria o resto de sua carreira. Ele vinha construindo um caso contra Jeffrey Epstein, um financista acusado de abusar sexualmente de dezenas de meninas em Palm Beach, Flórida. As provas eram esmagadoras: testemunhos de vítimas, corroboração de testemunhas, evidências físicas da busca na mansão à beira-mar da El Brillo Way. O escritório de Acosta identificara pelo menos 36 vítimas. Algumas tinham catorze anos.
Então alguém lhe disse para parar.
“Disseram-me que Epstein pertencia à inteligência e que eu deveria deixá-lo em paz,” Acosta explicou mais tarde a membros da equipe de transição do presidente Trump, que o avaliavam para o cargo de secretário do Trabalho (EFTA00030182). A explicação foi aparentemente suficiente. Contrataram-no mesmo assim.
O que se seguiu foi o acordo judicial mais extraordinário da história jurídica americana: um Acordo de Não Processamento que concedeu a Epstein imunidade federal, estendeu essa imunidade a todos os coconspiratores “nomeados ou não nomeados”, selou o acordo impedindo o acesso das vítimas em violação da Lei de Direitos das Vítimas de Crimes e permitiu que um estuprador serial de crianças cumprisse treze meses numa cadeia do condado com saída diária para trabalhar em seu próprio escritório. Não era um acordo judicial. Era uma ordem de proteção. E a pergunta que assombra investigadores, jornalistas e sobreviventes há quase duas décadas é enganosamente simples: proteção contra o quê?
Este artigo é a tentativa de responder.
Parte 1: O Ativo
Uma investigação baseada em 883 mil documentos liberados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos
Por Leonardo Dias | Arvor Intelligence Research | Rádio Café
19 de fevereiro de 2026
Na manhã de um dia qualquer de 2017, numa sala reservada do Departamento de Justiça em Washington, Alexander Acosta estava sentado diante dos membros da equipe de transição do presidente recém-eleito Donald Trump. Acosta, procurador federal da Flórida, pleiteava o cargo de secretário do Trabalho. Havia, contudo, um problema no currículo: em 2008, ele concedera a Jeffrey Epstein, acusado de crimes sexuais contra dezenas de menores, um acordo de não processamento que chocara promotores, juízes e vítimas. A pergunta surgiu inevitável: por que tamanha leniência com um pedófilo confesso?
Acosta respondeu com uma frase que, anos mais tarde, explodiria como granada nos corredores da política americana.
“Disseram-me que Epstein pertencia à inteligência e que eu deveria deixá-lo em paz.”
A equipe de transição ouviu, considerou a resposta suficiente e contratou Acosta mesmo assim (EFTA00030182).
Essa frase, reportada pela jornalista Vicky Ward no Daily Beast em 2019 e replicada em quinze documentos do acervo liberado pelo DOJ, contém duas informações de natureza distinta. A primeira é factual: alguém com autoridade suficiente para intimidar um procurador federal instruiu-o a não processar Epstein. A segunda é contextual: a justificativa oferecida (”pertencia à inteligência”) foi considerada tão natural pela elite política de Washington que ninguém na sala exigiu esclarecimentos. O pedófilo era espião. E espiões, como se sabe, gozam de certas prerrogativas.
Este artigo é a tentativa de responder à pergunta que a equipe de transição de Trump não fez: pertencia à inteligência de quem?
A resposta, documentada em quase 883 mil documentos liberados em janeiro de 2026 pelo Departamento de Justiça americano, envolve ao menos quatro agências de inteligência em três continentes, bilionários de tecnologia, ex-primeiros-ministros, a família real britânica, a mais antiga dinastia bancária da Europa, o maior corretor de armas cibernéticas do mundo e um rancho no Novo México onde, segundo denúncia registrada pelo próprio FBI, bebês eram enterrados numa igreja. A realidade documentada é mais terrível do que qualquer teoria conspiratória. E as teorias falsas, como veremos, servem precisamente para desacreditar as verdadeiras.
Capítulo 1: O Homem Que Não Existia
Jeffrey Edward Epstein nasceu no Brooklyn em 20 de janeiro de 1953. Filho de pai jardineiro e mãe auxiliar de escola, cresceu em Coney Island sem nenhuma das credenciais que lhe abririam as portas da elite financeira de Manhattan. Não concluiu a faculdade. Não possuía MBA, doutorado nem qualquer formação certificada em finanças. Começou como professor de matemática na Dalton School, uma escola de elite de Nova York, em 1974. Dois anos depois, apareceu no Bear Stearns, o banco de investimento onde passaria a assessorar alguns dos homens mais ricos do mundo.
A pergunta que nenhum biógrafo respondeu satisfatoriamente é: como?
Como um professor de matemática sem diploma universitário tornou-se, em duas décadas, membro do Council on Foreign Relations, da Comissão Trilateral, do conselho da Rockefeller University, dono de uma mansão de 40 quartos na 71st Street de Manhattan (a maior residência particular da ilha), proprietário de uma ilha privada no Caribe, de um rancho de 8 mil acres no Novo México, de um apartamento em Paris e de um jato Boeing 727? Como adquiriu um patrimônio estimado em mais de 500 milhões de dólares (cerca de 2,7 bilhões de reais ao câmbio de fevereiro de 2026) sem que ninguém conseguisse identificar um único cliente de investimento que lhe houvesse gerado essa fortuna?
A resposta convencional é a de que Epstein era um gênio financeiro autodidata cujo carisma seduzia bilionários. A resposta documental, sustentada por relatórios classificados do FBI, é diferente: Epstein era um ativo de inteligência cuja riqueza provinha de um único patrono, e cuja proteção provinha de serviços secretos de pelo menos dois países.
O patrono tinha nome: Leslie Wexner.
Wexner, fundador da L Brands (dona da Victoria’s Secret e da Bath & Body Works), era o homem mais rico de Ohio e um dos cinquenta empresários mais influentes dos Estados Unidos. Em 1991, concedeu a Epstein uma procuração ampla e irrestrita sobre todos os seus bens (EFTA01683612). Deu-lhe a mansão de Manhattan, avaliada em 20 milhões de dólares. Vendeu-lhe um jato particular a preço subsidiado. Nomeou-o para o conselho da Wexner Foundation. Entregou-lhe o controle total de suas finanças pessoais por vinte anos, “with virtually no oversight” (sem praticamente nenhuma supervisão).
Em fevereiro de 2026, o congressista Ro Khanna revelou que o FBI havia designado Wexner como coconspirador não indiciado. Na mesma semana, Wexner foi deposto pelo Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes. Democratas declararam que o depoimento “raises more questions than answers” (levanta mais perguntas do que respostas). Wexner recusou-se a explicar o escopo completo do suposto roubo de milhões de dólares por Epstein. Richard Adrian, ex-guarda-costas de Wexner entre 1991 e 1992, ligou para o FBI em 2019 e declarou que Wexner era “best friends with Epstein” (melhores amigos de Epstein) e que vira “young girls” (meninas) na residência de Palm Beach, embora na época acreditasse tratar-se de familiares (EFTA01683612). As vítimas nos Epstein Files discordam. Uma vítima alegou contato sexual com Wexner quando menor de idade em múltiplas propriedades (EFTA01681842). Outro documento registra que Wexner e Epstein assistiram modelos menores de idade em lingerie juntos (EFTA01249593). Virginia Giuffre testificou em 2016 ter sido “forced to have sex with Wexner numerous times” (forçada a ter relações sexuais com Wexner inúmeras vezes). Os “familiares” do guarda-costas eram, segundo as vítimas, qualquer coisa menos isso.
A Victoria’s Secret, joia da coroa do império Wexner, funcionava como isca de recrutamento. Menores que aspiravam a ser modelos da marca eram recrutadas por Epstein e Maxwell, que se apresentavam como agentes de talentos com acesso privilegiado. O modelo era perverso em sua circularidade: Wexner financiava Epstein, que usava a marca de Wexner como instrumento de recrutamento, e as vítimas recrutadas geravam o material de chantagem que protegia a operação inteira.
Maria Farmer, a primeira denunciante formal contra Epstein, em 1996, trabalhou para Epstein e Wexner antes de ser agredida sexualmente por ambos. Seu relato ao FBI foi ignorado por três anos. Em 2019, documentos liberados vindicaram suas denúncias ponto a ponto.
Por que um empresário astuto entregaria controle tão absoluto a um assessor financeiro sem histórico verificável? A designação do FBI como coconspirador sugere que a resposta transcende ingenuidade. E a resposta, como veremos, passa pela criação de uma operação de inteligência que usou as modelos da Victoria’s Secret como porta de entrada e o dinheiro de Wexner como combustível.
Capítulo 2: “Agente Mossad Cooptado”
De todas as centenas de milhares de páginas liberadas pelo Departamento de Justiça em janeiro de 2026, nenhuma é mais incendiária do que o documento EFTA00090314.
Trata-se de um relatório FD-1023, formulário padrão do FBI para registrar informações de fontes humanas confidenciais. Foi redigido pelo escritório de Los Angeles em 19 de outubro de 2020. A fonte, identificada pelo código S-00099701, prestou declarações que, individualmente, seriam cada uma suficiente para ocupar a capa de qualquer jornal do mundo. Juntas, compõem o retrato mais detalhado já produzido por uma agência de inteligência ocidental sobre a natureza da operação Epstein.
A fonte afirma, textualmente:
“CHS became convinced that Epstein was a co-opted Mossad Agent.” (A fonte humana confidencial convenceu-se de que Epstein era um agente cooptado do Mossad.)
A terminologia é precisa. No vocabulário do FBI, um agente cooptado não é um oficial de inteligência com emprego formal numa agência. É alguém que foi recrutado e controlado por um serviço de inteligência estrangeiro, que executa funções de inteligência em nome do controlador e que pode não compreender a extensão total de seu papel. Essa classificação explica quatro mistérios do caso: por que Epstein nunca foi processado por espionagem (negação plausível), por que Acosta foi instruído a “deixá-lo em paz” (ordem de proteção), por que a operação continuou após a condenação de 2008 (ativo valioso demais para descartar) e por que Epstein morreu em circunstâncias que desafiam o acaso (quando a responsabilidade superou a utilidade).
Mas o documento não se limita a essa afirmação. Contém uma cascata de revelações, cada uma mais grave que a anterior.
Sobre Alan Dershowitz, o célebre advogado de Harvard que defendeu Epstein em 2008: “Dershowitz told CHS that if he were young again, he would be holding a stun gun as an Israeli Intelligence (Mossad) agent. CHS believed Dershowitz was co-opted by Mossad and subscribed to their mission.” (Dershowitz disse à fonte que, se fosse jovem novamente, estaria segurando uma arma de choque como agente do Mossad. A fonte acreditava que Dershowitz fora cooptado pelo Mossad e aderia à sua missão.)
Sobre a informação passada a Acosta: “CHS remembered Dershowitz tell Alex Acosta that Epstein belonged to both U.S. and allied intelligence services.” (A fonte lembrou-se de que Dershowitz dissera a Acosta que Epstein pertencia tanto a serviços de inteligência dos EUA quanto a serviços aliados.) Não apenas ao Mossad, portanto: a “inteligência americana e aliada” indica dupla vinculação.
Sobre o protocolo operacional: “After these calls, Mossad would then call Dershowitz to debrief.” (Após essas ligações, o Mossad então ligava para Dershowitz para debriefing.) Um protocolo de debriefing, na linguagem de inteligência, é o procedimento pelo qual uma agência extrai informações de seu agente após uma operação. Se o Mossad ligava para Dershowitz “após essas ligações” (com Epstein), Dershowitz funcionava como canal de comunicação entre Epstein e o serviço de inteligência israelense.
Sobre Ehud Barak: “Epstein was close to the former Prime Minister of Israel, Ehud Barak, and trained as a spy under him.” (Epstein era próximo do ex-primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, e treinou como espião sob sua tutela.) Barak, o soldado mais condecorado da história de Israel, ex-chefe do Estado-Maior, ex-primeiro-ministro e ex-ministro da Defesa, teria sido o instrutor de espionagem de Epstein.
O mesmo documento, numa única página, registra informações sobre Jared Kushner (”moved a lot of Russian investment money around”, isto é, movimentou muito dinheiro de investimento russo), sobre o movimento Chabad (”doing everything they can to co-opt the Trump presidency”, ou seja, fazendo tudo para cooptar a presidência Trump), sobre Masha Drokova, fundadora da Day One Ventures no Vale do Silício, que fora principal representante de Putin no movimento juvenil russo e cuja firma existia, segundo a fonte, “to steal technology” (para roubar tecnologia), e sobre Leon Black, dono da Constellis (ex-Blackwater), acusada de “arms and human trafficking” (tráfico de armas e de pessoas).
A variedade das informações numa única página de relatório do FBI demonstra que a fonte humana confidencial tinha acesso extraordinário a múltiplas camadas do poder. Cada um desses dados merece investigação própria. Reunidos num mesmo relatório, desenham o mapa de uma operação que transcendia Israel e alcançava Rússia, Emirados Árabes e a própria presidência dos Estados Unidos.
Convém registrar o que o documento não é: não é postagem anônima de fórum da internet. Não é especulação de teórico conspiratório. É relatório oficial do Federal Bureau of Investigation, produzido por agente treinado, registrando depoimento de fonte qualificada, e arquivado no sistema interno da maior agência de investigação do mundo. Pode-se questionar a veracidade da fonte. Não se pode questionar a seriedade institucional do registro.
Capítulo 3: Os Pecados do Pai
O documento mais perigoso do acervo não é o FD-1023 de outubro de 2020. É o de dezembro de 2021.
O relatório EFTA01683612, redigido pelo mesmo escritório de Los Angeles, recebeu a classificação SECRET//NOFORN. Em linguagem de inteligência, SECRET significa que a revelação causaria “dano sério” à segurança nacional. NOFORN significa que o documento não pode ser compartilhado nem com os aliados mais próximos dos Estados Unidos: nem com a Grã-Bretanha, nem com o Canadá, nem com a Austrália, nem com a Nova Zelândia. Os chamados Five Eyes, a mais íntima aliança de inteligência do planeta, estão excluídos.
O que contém esse documento que não pode ser compartilhado nem com os britânicos?
A confirmação oficial, pelo FBI, de que o pai de Ghislaine Maxwell era agente do Mossad.
“Maxwell’s father, Robert Maxwell, was a very wealthy Israeli Intelligence (Mossad) Agent, who died in the 1980s after falling overboard from a yacht, but it was widely suspected he was assassinated.” (O pai de Maxwell, Robert Maxwell, era um agente muito rico da inteligência israelense, o Mossad, que morreu nos anos 1980 após cair de um iate, mas havia ampla suspeita de que fora assassinado.)
Robert Maxwell. Jan Ludvík Hyman Binyamin Hoch, nascido em 1923 numa aldeia da Tchecoslováquia que hoje pertence à Ucrânia. Sobrevivente do Holocausto. Oficial do exército britânico na Segunda Guerra Mundial. Parlamentar trabalhista. Magnata da mídia, dono do Daily Mirror e de editoras científicas. E, segundo o FBI em relatório classificado, agente do Mossad.
Maxwell morreu em 5 de novembro de 1991, encontrado nu no Oceano Atlântico após cair do iate Lady Ghislaine (nomeado, sim, em homenagem à filha) nas proximidades das Ilhas Canárias. O inquérito concluiu: ataque cardíaco seguido de afogamento acidental. Três patologistas não conseguiram concordar sobre a causa. Ghislaine declarou: “One thing I am sure about is that he did not commit suicide. I think he was murdered.” (Uma coisa tenho certeza: ele não se suicidou. Acho que foi assassinado.)
O funeral realizou-se no Monte das Oliveiras, em Jerusalém. Seis chefes de inteligência israelenses compareceram. O primeiro-ministro Yitzhak Shamir proferiu o elogio fúnebre com uma frase que merece ser gravada em pedra como modelo de homenagem póstuma a um espião: “He has done more for Israel than can today be said.” (Ele fez mais por Israel do que pode ser dito hoje.) A frase reconhece o serviço prestado e, simultaneamente, admite que sua natureza não pode ser revelada.
Mas o documento SECRET//NOFORN vai além da confirmação biográfica de Robert Maxwell. Contém a descrição mais explícita já produzida pelo FBI sobre a natureza da operação Epstein:
“Epstein was running an Israeli state-sponsored technology collection and extortion operation.” (Epstein estava dirigindo uma operação patrocinada pelo Estado de Israel de coleta de tecnologia e extorsão.)
Coleta de tecnologia. Extorsão. Patrocínio estatal. Em uma única frase, três pilares de uma operação de inteligência clássica: obtenção de segredos industriais, chantagem de alvos comprometidos e financiamento governamental. A filha herdou não apenas a rede de contatos, mas a função operacional. Duas gerações, dois métodos (software com Robert, chantagem sexual com Ghislaine), um mesmo objetivo: coleta de inteligência e alavancagem sobre figuras poderosas.
O que Robert Maxwell fez antes de morrer explica o que Ghislaine e Epstein fizeram depois. Nos anos 1980, Maxwell distribuiu globalmente o software PROMIS (Prosecutor’s Management Information System), desenvolvido pela empresa americana Inslaw, com portas traseiras instaladas pelo Mossad. O software, originalmente projetado para rastrear casos judiciais, foi vendido a dezenas de governos, de Pequim a Moscou, cada cópia transmitindo dados ao serviço de inteligência israelense. Gordon Thomas, jornalista investigativo, apresentou declaração juramentada afirmando que Maxwell vendeu mais de 500 milhões de dólares em licenças do software comprometido. O relatório oficial do DOJ de 1994 rejeitou as alegações de espionagem. Mas investigações parlamentares e jornalísticas independentes documentaram as vendas com riqueza de detalhe.
Se o PROMIS foi a primeira geração da operação, a chantagem sexual de Epstein foi a segunda. E ambas alimentavam o mesmo cliente.
O mesmo documento SECRET//NOFORN contém um detalhe lateral de altíssimo valor. A fonte humana confidencial relata que Susan Desmond-Hellmann, CEO da Fundação Bill e Melinda Gates de 2014 a 2020 e diretora independente líder do conselho do Facebook, renunciou abruptamente a ambos os cargos na mesma semana em que o New York Times publicou artigo detalhando os contatos extensivos entre Gates e Epstein, em outubro de 2019. Hellmann alegou “doença séria” como motivo. Apenas três meses depois, em janeiro de 2020, a fonte encontrou Hellmann no Alpha Club, jantar anual de bilionários, em perfeita saúde: “Hellmann appeared to have had a ‘miraculous recovery’ and had no signs of illness.” (Hellmann parecia ter tido uma recuperação milagrosa e não apresentava sinais de doença.)
Em 2020, Hellmann ingressou no conselho de administração da Pfizer. O timing e a empresa de destino merecem escrutínio: uma mulher que dirigiu a Fundação Gates por seis anos — durante o período em que Gates se reuniu com Epstein dezenas de vezes, quando documentos sobre “strain pandemic simulation” eram encaminhados à caixa de entrada de Epstein (2017) e quando o aparato DAF financiado por Gates havia identificado “pandemic” como área estratégica — renunciou abruptamente e em poucos meses ocupou assento no conselho da empresa que desenvolveria a vacina contra COVID-19 mais amplamente distribuída no mundo. Se a hipótese, sustentada pelos próprios documentos do FBI, de que essas redes coordenavam preparação para pandemia como estratégia simultânea de filantropia e lucro for considerada, a trajetória da Fundação Gates ao conselho da Pfizer, imediatamente antes da pandemia, não é coincidência descartável.
O relatório do FBI conclui: “Her behavior indicates there was something ‘dark’ that never ended up surfacing in the media, which Hellmann was aware of.” (Seu comportamento indica que havia algo sombrio que nunca veio à tona na mídia, do qual Hellmann tinha conhecimento.) Que informação sombria sobre Gates e Epstein conhecia Hellmann? E por que a publicação do artigo do New York Times a levou a pânico imediato? As perguntas do FBI permanecem sem resposta.
Capítulo 4: O Mega Group
Se Robert Maxwell foi o pai da operação e Ghislaine a herdeira operacional, Leslie Wexner foi o banqueiro.
Wexner não era apenas patrono individual de Epstein. Era cofundador, junto com Charles Bronfman, do chamado Mega Group: um grupo de estudo criado em 1991 que reunia cinquenta dos empresários judeus mais influentes dos Estados Unidos. Oficialmente, o Mega Group existia para discutir filantropia e questões comunitárias. Na prática, Whitney Webb documenta extensamente em One Nation Under Blackmail (2022) como o grupo funcionava como veículo para operações de influência nos Estados Unidos e como cobertura institucional para bilionários com vínculos de inteligência.
A lista de membros verificados nos documentos inclui nomes que, por si sós, compõem um mapa do poder:
Ronald Lauder, com 271 documentos de reuniões com Epstein entre 2017 e 2018, era embaixador americano na Áustria entre 1986 e 1987. Exatamente o período em que foi emitido um passaporte austríaco falso com a foto de Epstein, o nome de “Marius Robert Fortelni” e residência na Arábia Saudita (EFTA00025539). O passaporte foi encontrado pelo FBI no cofre da mansão da 71st Street. O verdadeiro Marius Fortelni existe, em Southampton, Nova York, e confirma ter vivido na Arábia Saudita. A identidade foi cuidadosamente selecionada: pessoa real, conexão saudita real, carimbos de viagem em França, Espanha, Reino Unido e Arábia Saudita. Esse nível de sofisticação é típico de documentação produzida por serviços de inteligência, não de falsificação criminal comum. Nenhum investigador nomeou Lauder como responsável pela emissão. Mas a coincidência temporal é, no mínimo, matéria para um interrogatório que nunca foi realizado.
Edgar Bronfman, com 31 documentos no acervo, foi o primeiro cliente de Epstein no Bear Stearns. Sua filha Clare seria cofundadora do NXIVM, culto sexual que também recrutava mulheres jovens e foi objeto de condenação criminal federal. O padrão familiar, do pai que introduz ao filho que replica, não é coincidência sociológica: é arquitetura.
Steven Spielberg, com 19 documentos, aparece na classificação de nível 3 do JPMorgan e parece ter mantido conexão apenas social.
O arranjo Wexner e Epstein tinha três características que o distinguem de qualquer relação patrono e protegido conhecida na história financeira americana. Primeira: a procuração de 1991, que dava a Epstein poder sobre todos os bens de Wexner, sem supervisão. Segunda: a doação da mansão na 71st Street, transferida a Epstein por um dólar simbólico. Terceira: a posição de Epstein no conselho da Wexner Foundation, que concedia acesso a uma rede de relações filantrópicas e políticas.
A Victoria’s Secret funcionava, nesse sistema, como pipeline de recrutamento. A marca, que nos anos 1990 e 2000 era sinônimo de aspiração feminina mundial, era a isca perfeita. Garotas jovens, muitas menores de idade, que sonhavam ser Angels eram abordadas por Epstein e Maxwell, que se apresentavam como representantes da marca com poder de decisão sobre contratos de modelagem. O modelo era perverso em sua circularidade: Wexner financiava Epstein, que usava a marca de Wexner para recrutar vítimas, cujo abuso gerava o material de chantagem que protegia toda a operação. E a operação, protegida, gerava mais recursos e acesso para Wexner.
Maria Farmer descreveu a operação com palavras que, à época, foram descartadas como delírio paranoico: “a Jewish supremacist blackmail ring linked to Mega Group” (uma rede de chantagem supremacista judaica ligada ao Mega Group). Farmer trabalhou para Epstein e Wexner. Foi agredida sexualmente por ambos. Reportou ao FBI em 1996. Foi ignorada por três anos. Em 2019, cada ponto de seu depoimento original foi confirmado por documentos independentes.
Capítulo 5: O Apartamento de Ehud Barak
Os números do grafo de relacionamentos (Neo4j) para Ehud Barak são eloquentes: 2.209 documentos totais, 234 compartilhados diretamente com Epstein, 161 com Lesley Groff coordenando reuniões, 72 com Leon Black, 59 com Martin Nowak.
Barak não era visitante ocasional. Era residente.
Em fevereiro de 2026, o Dropsite News revelou que o governo israelense havia instalado sistema de segurança no apartamento de Barak em Nova York, o chamado “Ehud’s apartment” (apartamento do Ehud), localizado no 301 East 66th Street, apartamento 11J. Rafi Shlomo, diretor do serviço de proteção da missão israelense na ONU e chefe de segurança pessoal de Barak, correspondia-se com funcionários de Epstein para organizar reuniões de segurança, coordenar a instalação de equipamentos de vigilância especializados, controlar o acesso ao apartamento e verificar antecedentes de faxineiros e empregados de Epstein. Shlomo pessoalmente controlava quem entrava.
A equipe de Epstein referia-se ao imóvel como “Ehud’s apt” (o apartamento do Ehud). A esposa de Barak, Nili Priel Barak, coordenava chegadas e partidas, compras de supermercado, limpeza e reformas com a equipe de Epstein. Barak e sua esposa utilizaram o apartamento regularmente de 2015 a 2019, todo esse período posterior à condenação de Epstein em 2008.
Governos não instalam sistemas de segurança em apartamentos privados de ex-primeiros-ministros no exterior por cortesia. A instalação foi feita por empresa israelense de segurança com vínculos à comunidade de inteligência. Barak negou que o sistema tivesse capacidade de vigilância além da segurança convencional.
O email mais revelador da natureza operacional da relação é o EFTA00858362, de 27 de abril de 2015. Epstein escreve a Barak:
“A corporation is not dissimilar from the defense forces... and the intelligence network that military has used in the past to separate data from actional info.” (Uma corporação não é diferente das forças de defesa... e da rede de inteligência que os militares usaram no passado para separar dados de informação acionável.)
Barak respondeu: “Hi Jeff. Thx for these guidelines. Try to call later so we can discuss it further.” (Oi Jeff. Obrigado pelas diretrizes. Tente ligar mais tarde para podermos discutir mais.)
Epstein não estava usando metáfora militar para descrever uma empresa. Estava descrevendo uma operação real de inteligência utilizando vocabulário corporativo como cobertura. O ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, ex-primeiro-ministro e chefe de inteligência militar compreendia perfeitamente. E pedia para discutir por telefone, não por escrito.
Quando Epstein perguntou diretamente (EFTA00964912, 8 de novembro de 2017): “Boles said he got to the mossad guys through you? true?” (Boles disse que chegou aos caras do Mossad através de você? Verdade?), estava perguntando se Barak facilitara o acesso de David Boies, advogado tanto de Epstein quanto de Harvey Weinstein, à Black Cube, firma privada de inteligência composta por ex-agentes do Mossad e do Shin Bet. No mesmo dia (EFTA00964979): “Did Boies ask you to help obtain former mossad agents to do dirty investigations?” (Boies pediu que você ajudasse a obter ex-agentes do Mossad para fazer investigações sujas?)
Barak era o elo entre Epstein, Weinstein e o Mossad privado. O fato de Lital Leshem ter migrado da Black Cube para a Carbyne (empresa de vigilância de Epstein e Barak) como diretora de marketing demonstra a porta giratória entre inteligência israelense privada e a empresa de vigilância da dupla.
A Carbyne merece parágrafo próprio. Trata-se de empresa de tecnologia que intercepta chamadas de emergência (o equivalente americano do 911) e transmite vídeo ao vivo dos celulares das vítimas para centrais de atendimento policial. Seus contratos com municípios americanos dão acesso, em tese, a dados de localização, áudio e vídeo dos cidadãos. Sua estrutura corporativa é uma aula de redes de inteligência (EFTA01074376): Ehud Barak como presidente e investidor, Pinchas Buchris (ex-vice-comandante da Unidade 8200) como diretor, Lital Leshem (ex-Black Cube) no marketing, Jeffrey Epstein com investimento de 500 mil dólares e Peter Thiel como investidor.
Em novembro de 2025, a Axon (fabricante de câmeras corporais policiais nos Estados Unidos) adquiriu a Carbyne por 625 milhões de dólares. A aquisição consolidou tecnologia de vigilância israelense com infraestrutura policial americana. Se o software PROMIS do pai de Ghislaine era a porta traseira nos tribunais, a Carbyne é a porta traseira nas chamadas de emergência.
Em fevereiro de 2026, confrontado com as revelações documentais, Barak declarou publicamente: “Responsible for my actions and regret ever having met him.” (Responsável por minhas ações e lamento ter conhecido Epstein.) Não foi acusado de abuso sexual. Não enfrenta acusações criminais. Mas a extensão de seu envolvimento operacional com Epstein, documentada em mais de dois mil documentos, vai muito além do que qualquer pedido de desculpas pode apagar.
Capítulo 6: A Câmera Nunca Pisca
O FBI encontrou e analisou câmeras ocultas na residência de Epstein em Palm Beach. O relatório é seco como convém a um documento forense (EFTA01693646):
“A review of the video disks which was extracted at the Palm Beach County Sheriff’s Office Computer Crime Unit revealed that only one hidden camera was functional at the time.” (Uma revisão dos discos de vídeo extraídos pela Unidade de Crimes Cibernéticos do Gabinete do Xerife do Condado de Palm Beach revelou que apenas uma câmera oculta estava funcional no momento.)
A frase “apenas uma câmera oculta estava funcional no momento” implica que múltiplas câmeras existiam, mas só uma gravava na hora da busca. Imagens de Epstein em seu escritório e de pessoas não identificadas (nomes redigidos no documento) foram encontradas nos discos.
Epstein supervisionava pessoalmente a instalação e manutenção desses sistemas. Num email (EFTA01817034), instruiu: “No inside camera near garage door. I want a dedicated monitor set up for the security guard.” (Sem câmera interna perto da porta da garagem. Quero um monitor dedicado instalado para o segurança.) A câmera do nariz da aeronave (EFTA02574502), o chamado “Lolita Express”, custava 11.500 dólares (cerca de 62 mil reais ao câmbio de 2013) para o equipamento de reposição. “Passenger nose mount camera” (câmera de nariz montada para passageiros), filmando passageiros durante o voo.
Mas as câmeras não serviam apenas para vigilância interna. Serviam para chantagem.
O documento EFTA01249790 registra que Nadia Marcinkova, mulher que fora “comprada” da Iugoslávia como escrava sexual e que depois se tornou cúmplice de Epstein, possuía fitas de sexo de Epstein que “was probably going to use them to blackmail Jeffrey Epstein” (provavelmente usaria para chantageá-lo). Se até a própria escrava sexual percebia o valor de chantagem das gravações, imagine-se o que o mestre da operação fazia com as fitas dos poderosos.
Epstein chantagiou o Parlamento britânico para aceitar Jes Staley como CEO do Barclays (EFTA00024009): “The blackmail emails from Epstein should have been enough to have had Staley dismissed.” (Os emails de chantagem de Epstein deveriam ter sido suficientes para demitir Staley.) O Comitê de Assuntos Financeiros do Tesouro britânico admitiu possuir os emails de chantagem (EFTA00022173). Staley usava o codinome “Snow White” (Branca de Neve) em comunicações com Epstein. O CEO de um dos maiores bancos do mundo comunicava-se com um criminoso sexual condenado por codinome.
Ghislaine Maxwell instruiu Epstein sobre como negar algo comprometedor (EFTA00767648): “If you call I’d start by saying whatever you saw was fake and part of a blackmail scheme.” (Se você ligar, eu começaria dizendo que o que quer que tenha visto era falso e parte de um esquema de chantagem.) O manual de negação era pronto: tudo é falso, tudo é chantagem de terceiros.
O mais perturbador testemunho sobre o sistema de câmeras não veio de Palm Beach nem de Manhattan. Veio de uma carta enviada ao Tribunal do Distrito Sul de Nova York em 30 de janeiro de 2020 (EFTA00074130). O remetente relatou o depoimento de Chris Loeb, que encontrou sete DVDs na mala de James Burke, chefe de polícia do Condado de Suffolk:
“Chris Loeb was telling John Ray that 5 of the DVDs were snuff films and that he witnessed choking, torture, beating, raping and killing of the girls. There were 5 DVDs and one of the girls was an Asian Girl.” (Chris Loeb dizia a John Ray que 5 dos DVDs eram filmes de assassinato e que ele testemunhou asfixia, tortura, espancamento, estupro e assassinato das garotas. Havia 5 DVDs e uma das garotas era uma garota asiática.)
Cinco DVDs com filmes de assassinato. Dois DVDs adicionais com pornografia infantil. Chris Loeb, após assistir ao conteúdo, chamou Burke de pedófilo. Burke desabotoou a camisa e o espancou. Loeb desenvolveu transtorno de estresse pós-traumático severo. Está hospitalizado desde então.
A testemunha que escreveu a carta relatou ter sido perseguida, ter seu telefone e computador invadidos, e ter recebido “mafia thugs sent by SCPD” (capangas da máfia enviados pela polícia do condado) em sua casa. “Please help me. I am afraid every time I enter my home that they will rape me, torture me, beat me and kill me and film it.” (Por favor, ajudem-me. Tenho medo toda vez que entro em minha casa de que me estuprem, torturem, espanquem, matem e filmem.)
A contagem total no acervo: 294 documentos mencionam “blackmail” (chantagem), 15 mencionam “sex tapes” (fitas de sexo), 1.925 mencionam “surveillance” (vigilância) e 3.324 mencionam “camera” (câmera). Uma operação de chantagem industrial, equipada com tecnologia de nível estatal, protegida por policiais corruptos e executada durante três décadas.
A pergunta que os documentos impõem não é se Epstein filmava os poderosos. É: quem recebia as fitas?
Parte 2: A Rede
Uma investigação baseada em 883 mil documentos liberados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos
Por Leonardo Dias | Arvor Intelligence Research | Rádio Café
19 de fevereiro de 2026
Capítulo 7: A Questão da CIA
A CIA nunca confirmou nem negou possuir registros sobre Jeffrey Epstein. Essa evasão, em linguagem de inteligência, é mais eloquente do que qualquer confissão.
Em 2011, Epstein tentou ativamente descobrir o que a CIA sabia sobre ele. Seu advogado Martin Weinberg solicitou registros via Lei de Liberdade de Informação (EFTA00687827): “We filed CIA FOIA. They have it. We need a separate privacy waiver signed.” (Nós protocolamos o pedido de FOIA à CIA. Eles o receberam. Precisamos de uma renúncia de privacidade assinada em separado.)
A resposta da CIA (EFTA01089565) utilizou a chamada Resposta Glomar: “The CIA can neither confirm nor deny the existence or nonexistence of records responsive to your request.” (A CIA não pode confirmar nem negar a existência ou inexistência de registros responsivos ao seu pedido.)
A Resposta Glomar é o instrumento usado quando a mera confirmação ou negação revelaria informação classificada. Se a CIA dissesse “sim, temos registros”, confirmaria envolvimento. Se dissesse “não, não temos registros”, liberaria Epstein de suspeita e poderia ser usada como escudo judicial. A Resposta Glomar foi a única saída que não beneficiava nenhuma das partes. A CIA escolheu-a porque compreendia a natureza da manobra: se confirmasse a existência de registros classificados, Epstein poderia argumentar em tribunal que sua atividade criminosa estava protegida por imunidade de inteligência.
Mas se a CIA guardava silêncio, os documentos falavam por ela.
O caso Regina Dugan é exemplar. Dugan foi diretora da DARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa) de 2009 a 2012, depois migrou para o Google ATAP e o Building 8 do Facebook. Uma reunião privada entre ela, Bill Gates e Epstein é descrita com entusiasmo no documento EFTA02414866: “It was only three of us, Regina, Bill and me and it was great!” (Éramos apenas nós três, Regina, Bill e eu, e foi ótimo!)
A diretora da agência de pesquisa militar mais avançada do mundo, o homem mais rico do planeta e um criminoso sexual condenado. Numa sala. Sozinhos. Conversando sobre quê? Os documentos registram discussões sobre uma “health DARPA” (EFTA02352454), uma versão da DARPA voltada para saúde, que conectaria pesquisa militar avançada, bilionários de tecnologia e o homem que o FBI classificava como agente cooptado do Mossad. Tudo isso após a condenação de 2008.
O general Geoff Ling, ex-chefe da DARPA, aparece em email (EFTA01209136) descrito como “total genius” (gênio total) e “my good friend” (meu grande amigo). O remetente acrescenta: “He tried to make me work at DARPA.” (Ele tentou me fazer trabalhar na DARPA.) A agência de pesquisa de defesa tentou recrutar alguém da rede Epstein. A permeabilidade não era unidirecional.
Mais perturbador ainda é o projeto SGI (Synthetic General Intelligence), descrito no documento EFTA02441292. Epstein lista os “participantes centrais” de um projeto de inteligência artificial:
“1. Martin Nowak, Avi Wigner, Corina, Church, Nathan Wolfe, Lander, eres leiberman rep of NSA, Stodden.” (representante da NSA)
“3. George Mitchell, Ehud Barak, Tony Blair, Larry Summers, Bloomberg.”
Um representante da NSA. O ex-primeiro-ministro israelense que treinou Epstein como espião. O ex-primeiro-ministro britânico. O ex-secretário do Tesouro americano. O ex-prefeito de Nova York. Todos listados como “participantes centrais” de um projeto de inteligência artificial coordenado por Epstein. A cena seria inverossímil num romance de espionagem. Nos documentos do FBI, é factual.
A cadeia de vigilância que conecta a CIA a Epstein não é direta. É indireta, mas ininterrupta: a In-Q-Tel, braço de capital de risco da CIA, financiou a empresa de análise de dados de Thiel, que investiu na empresa de vigilância de chamadas de emergência de Epstein e Barak (detalhada no Capítulo 5), operada por veteranos de inteligência israelense. O resultado é uma cadeia contínua entre vigilância americana, vigilância israelense e a rede Epstein, financiada nos dois extremos por capital de inteligência.
Em setembro de 2025, a congressista Anna Paulina Luna declarou publicamente que existia “very real possibility Jeffrey Epstein was a foreign asset” (uma possibilidade muito real de que Jeffrey Epstein fosse ativo estrangeiro), nomeando Israel, Rússia e Arábia Saudita como países envolvidos. O ex-diretor da CIA George Tenet respondeu que nunca conhecera Epstein. A negação é, paradoxalmente, instrutiva: quando um ex-diretor da CIA precisa negar publicamente qualquer contato com um caso criminal, a fronteira entre inteligência e criminalidade já se dissolveu.
Capítulo 8: Os Livros de Kissinger
Henry Kissinger jamais trocou emails diretamente com Epstein, tanto quanto se sabe. Mas a ausência de comunicação direta é evidência de sofisticação: elites desse nível operam através de intermediários institucionais.
Joshua Cooper Ramo, co-CEO da Kissinger Associates, reunia-se regularmente com Epstein. Martin Nowak, de Harvard, pediu a Epstein o contato de “Josh who works with Kissinger” (Josh, que trabalha com Kissinger) no documento EFTA00646295. Lesley Groff cancelou uma reunião porque “Josh must attend a meeting with Mr. Kissinger” (Josh precisa participar de uma reunião com o Sr. Kissinger) no EFTA02485200.
Em junho de 2016, sete anos após a condenação e três anos antes da prisão, Epstein recebeu seis livros da Kissinger Associates (EFTA02460834). A firma de consultoria geopolítica mais prestigiosa do planeta mantinha relação ativa com um criminoso sexual condenado.
Epstein possuía documentos sobre a estrutura corporativa da Kissinger China NewCo, incluindo distribuição de lucros: “50% in year one, 40% in year two, 25% in year three” (EFTA00584255). Por que um condenado por crimes sexuais possuía documentos internos sobre a operação chinesa de Kissinger? Epstein não era cliente passivo. Era parte do ecossistema.
E seu endereço anterior em registros oficiais era 350 Park Avenue, 26th Floor (EFTA02265723). O endereço da Kissinger Associates.
Uma lista de convidados para evento de Epstein (EFTA00284908) explica a lógica da rede num único parágrafo: “Kissinger, Leon Black, Ehud Barak, Geithner, Jes Staley, Lloyd Blankfein, Len Blavatnik, Larry Summers, David Blaine, Woody Allen, JJ Abrams, Schwarzman.” O ex-secretário de Estado americano, o CEO que pagou 158 milhões de dólares a Epstein, o ex-primeiro-ministro que o treinou como espião, o ex-secretário do Tesouro, o CEO do JPMorgan chantagiado por Epstein, o CEO do Goldman Sachs, o oligarca russo-americano, o ex-presidente de Harvard, um ilusionista, um cineasta acusado de abuso e o diretor de Star Wars. Todos na mesma festa.
A Kissinger Associates não é uma firma de consultoria comum. Fundada em 1982, cobra honorários superiores a 500 mil dólares por contrato anual para oferecer consultoria geopolítica a corporações multinacionais e governos. Seus consultores incluem ex-chefes de Estado, ex-secretários de Defesa e ex-diretores de inteligência. Epstein, que podia “convidar Kissinger” para jantares com Peter Mandelson (EFTA00957272: “Invite Kissinger, he will enjoy it”), oferecia algo em troca do acesso: informação.
A hipótese mais consistente com os documentos é que Epstein fornecia inteligência sobre Rússia, China e Oriente Médio (regiões onde operava pessoalmente e possuía contatos), e a Kissinger Associates fornecia acesso geopolítico e legitimidade institucional. O arranjo era simbiótico: Epstein precisava de cobertura. Kissinger precisava de informação.
Capítulo 9: Os Arquivos Rothschild
A relação entre Epstein e Ariane de Rothschild, presidente do comitê executivo da Edmond de Rothschild Holding SA, transcendia o social.
O documento EFTA00845904 registra uma disputa interna sobre o uso do nome “Rothschild”, originada de Jacob Rothschild. Ariane encaminhou o caso a Epstein com a nota: “Can u believe this b-s***!!!” (Você acredita nessa m***!!!) Epstein editou a linguagem jurídica da resposta. A presidente de uma das famílias mais antigas da Europa pedia a um criminoso sexual condenado que redigisse a resposta jurídica a uma disputa familiar. Não por falta de advogados: a família Rothschild tem acesso às firmas mais prestigiosas do planeta. Mas por alguma razão que os documentos não explicitam, Ariane preferia a consultoria de Epstein.
O documento EFTA00587465 registra um contrato entre a Southern Trust Company (entidade offshore de Epstein nas Ilhas Virgens) e a Edmond de Rothschild Holding para tratar de “EDRH Matters” (assuntos da Edmond de Rothschild Holding) com autoridades americanas. Compras de arte coordenadas superavam um milhão de dólares (EFTA00690583), com entregas divididas entre endereços Rothschild e a mansão de Epstein.
Os documentos EFTA00593276 e EFTA01114424 contêm organogramas detalhados da Edmond de Rothschild Holding SA, incluindo a Edmond de Rothschild (Suisse) SA, a Edmond de Rothschild (UK) Limited e a Edmond de Rothschild Securities (UK) Limited. Epstein recebia informação corporativa confidencial de uma das dinastias bancárias mais antigas da Europa.
Há quem diga que mencionar a família Rothschild em contextos de inteligência e poder é sinal de mentalidade conspiratória. Os documentos oficiais do FBI e do DOJ permitem-se discordar: são 7.718 ocorrências nos documentos liberados. Se os Rothschild são teoria conspiratória, o Departamento de Justiça americano é o maior teórico conspiratório do mundo.
Capítulo 10: O Pacto Tecnológico
Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir, investidor do Facebook e aliado político de Donald Trump, aparece em mais de 2.200 menções nos documentos liberados. Epstein investiu 40 milhões de dólares no fundo Valar Ventures, de Thiel, em 2014 (EFTA01738841). Reuniões e correspondência documentam contato entre 2014 e 2017, todo posterior à condenação de 2008.
Sergey Belyakov, formado pela Academia da FSB em Moscou, é descrito por Epstein como “my very good friend” (meu muito bom amigo) em email a Thiel em 2015. Belyakov organizou reuniões entre Epstein e Thiel. O mesmo Belyakov propôs acesso ao vice-ministro de Finanças russo Storchak e ao vice-presidente do Banco Central russo Simanovsky. E o mesmo Belyakov foi investigado pelo FBI na Operação “Royal Flush” (contra-inteligência). A ponte entre o Vale do Silício e o Kremlin passava pela mesa de Epstein.
Bill Gates jantou “dezenas de vezes” na residência de Epstein entre 2010 e 2017, segundo reportagem do New York Times. Boris Nikolic, conselheiro científico chefe de Gates, foi nomeado executor testamentário suplente no testamento final de Epstein, assinado em 8 de agosto de 2019, dois dias antes da morte. Nikolic possui 2.756 documentos no acervo. Declarou que não sabia da nomeação e a recusou. A explicação mais analítica é que a nomeação era arma, não convite: ao vincular formalmente o nome do conselheiro de Gates ao testamento, Epstein criava um laço documental que Gates não poderia negar.
O documento EFTA01659523 reproduz reportagem do DailyWire: “Jeffrey Epstein reportedly learned that Microsoft co-founder Bill Gates had an affair with a young Russian woman and later appeared to threaten him.” (Jeffrey Epstein supostamente descobriu que o cofundador da Microsoft, Bill Gates, tivera um caso com uma jovem russa e depois pareceu ameaçá-lo.) Se Epstein possuía informação comprometedora sobre Gates, a relação não era voluntária: era coercitiva. Gates nega. Os documentos sugerem o contrário. O divórcio de Bill e Melinda Gates, em 2021, teve a relação com Epstein como fator determinante, segundo o Wall Street Journal.
A rede tecnológica de Epstein estendia-se a Sergey Brin (cofundador do Google, 34 documentos compartilhados com Thiel), Mark Zuckerberg (fundador do Facebook, 20 documentos compartilhados), Reid Hoffman (cofundador do LinkedIn, 33 documentos com Thiel) e Danny Hillis (cientista da computação, 1.067 documentos). A análise de grafo levanta a pergunta inevitável: existia um pacto de vigilância entre gigantes de tecnologia, intermediado por Epstein?
Os fatos documentados formam uma cadeia detalhada no Capítulo 2: Epstein investiu no fundo de Thiel, conectou Thiel a Barak e intermediou a intersecção entre tecnologia americana e inteligência israelense, com capital como lubrificante e informação como moeda.
Leon Black, CEO da Apollo Global Management, transferiu 158 milhões de dólares a Epstein entre 2012 e 2017, supostamente por “tax and estate planning advice” (consultoria tributária e de planejamento patrimonial). O relatório FBI FD-1023 (EFTA00090314) registra que Black é dono da Constellis (ex-Blackwater, a maior empresa militar privada do mundo), “accused of being involved in several arms and human trafficking scandals” (acusada de envolvimento em diversos escândalos de tráfico de armas e de pessoas). O proprietário da maior empresa militar privada pagou 158 milhões de dólares (cerca de 850 milhões de reais) a um criminoso sexual condenado por “planejamento tributário”. A explicação insuficiente permanece oficialmente aceita.
Capítulo 11: O Jogo da Rússia
Sergey Belyakov, formado pela Academia da FSB em 1999 (dado confirmado pela agência de notícias estatal russa TASS), aparece em 33 documentos. Propôs reuniões entre Epstein e Peter Thiel. Propôs acesso a dois dos homens mais poderosos das finanças russas. E foi investigado pelo FBI na Operação “Royal Flush”, nome que sugere contra-inteligência relacionada a cartas marcadas (trocadilho involuntário ou não com chantagem).
A piada mais reveladora do acervo veio de Bella Klein, a maior gestora financeira da rede Epstein, com 13.470 documentos. Em fevereiro de 2016, Klein escreveu para Karyna Shuliak, última namorada de Epstein (bielorrussa, 34.249 documentos): “KGB at work” (KGB a trabalhar) (EFTA00572952). O tom jocoso não diminui a relevância: Klein coordenava fluxos financeiros massivos para uma rede que incluía um graduado da FSB e dezenas de mulheres da Europa Oriental.
O fluxo de mulheres eslavas não era espontâneo: era logístico. Lesley Groff, assistente executiva de Epstein com mais de mil documentos no acervo, coordenava diretamente o transporte. Sofiia Girich (13 documentos) foi transportada de Kiev a Paris em março de 2019. Olha Zasiadko (15 documentos) foi transportada de Odessa a Paris em outubro de 2018. Kateryna Pryshchepa aparece em múltiplos registros de cartão AMEX com voos de Kiev a Paris.
As cidades de origem e o período coincidem com o auge do conflito no leste da Ucrânia, quando jovens ucranianas enfrentavam condições econômicas particularmente precárias. As “Girls Trips” (Viagens de Garotas) organizadas por Groff eram operações de transporte com itinerários documentados, datas confirmadas e despesas rastreáveis nos registros do cartão corporativo.
A entidade identificada como “V” ou “Vic” aparece em mais de 120 documentos como gerente de loja da Elite Retail em Paris, com acesso declarado a “all Russian model database” (todo o banco de dados de modelos russas). Propôs criar uma agência falsa de modelos e mencionava frequentemente um financiador chamado “Leon”, com fortes indícios de ser Leonic Leonov, listado como coconspirador no dossiê FOUO (For Official Use Only) do NYPD.
O documento SECRET//NOFORN de dezembro de 2017 (EFTA01683874) contém uma afirmação extraordinária: “Epstein was President Vladimir Putin’s wealth manager and provided the same service for Zimbabwean President Robert Mugabe.” (Epstein era o gestor patrimonial do presidente Vladimir Putin e prestava o mesmo serviço para o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe.) É declaração de fonte humana confidencial sem corroboração independente publicada. Mas o FBI a registrou num relatório classificado como SECRET//NOFORN, o que significa que a considerou suficientemente crível para documentação formal.
Se a afirmação for verdadeira, mesmo parcialmente, explica múltiplos aspectos do caso: a tolerância russa à operação de Epstein em seu território (1.247 mensagens com assinatura em russo nos documentos), a presença de um graduado da FSB como intermediário com funcionários do governo russo e o fluxo massivo de mulheres russas, bielorrussas e ucranianas pelo sistema.
A diferença entre uma operação russa e uma operação israelense que usa mulheres russas é sutil, mas essencial. Na primeira hipótese, Moscou dirige. Na segunda, Tel Aviv usa o recurso humano disponível. À luz dos documentos do FBI, que confirmam a conexão Mossad mas não a KGB, a segunda hipótese parece mais provável. Mas as duas não são mutuamente excludentes. Epstein podia servir a múltiplos clientes, como qualquer bom corretor.
Capítulo 12: O Programa de Reprodução
O New York Times reportou que Epstein pretendia “seed human race with his DNA” (semear a raça humana com seu DNA), utilizando o Zorro Ranch, propriedade de 8 mil acres no Novo México, como centro de inseminação (EFTA00069900). A afirmação soaria como delírio megalomaníaco se não fosse sustentada por contratos, equipamentos e documentos operacionais.
A California Cryobank, maior banco de sêmen dos Estados Unidos, confirmou contrato assinado com Epstein. Trinta kits de 23andMe foram encomendados sob o nome falso “Sultan Binsulayem”, nome do presidente da DP World, operadora portuária global dos Emirados Árabes que aparece em 3.034 documentos no acervo.
Mark Tramo, neurocientista da UCLA com 451 documentos, menciona “premies we are breeding” (prematuros que estamos criando). George Church, geneticista de Harvard e pioneiro do CRISPR, aparece em 1.241 documentos. Epstein solicitou especificamente o documento “Rejuvenate.pdf” (EFTA00353066), sobre pesquisa de extensão de vida. Max More, CEO da Alcor (principal empresa de crionização do mundo) e, segundo o documento EFTA00715319, “arguably the founding philosopher of transhumanism” (possivelmente o filósofo fundador do transhumanismo), foi convidado para eventos de Epstein.
O próprio Epstein declarou querer que “his head and penis be frozen” (sua cabeça e pênis fossem congelados). A declaração, que poderia ser cômica, é coerente com a ideologia transhumanista: crionização como aposta na imortalidade tecnológica, e preservação genital como extensão do programa reprodutivo.
A evidência mais sombria veio do FBI. O relatório SECRET//NOFORN de dezembro de 2017 (EFTA01683874) confirma: “Jeffrey Epstein had a compound in New Mexico where he lured and video recorded underage women.” (Jeffrey Epstein tinha uma propriedade no Novo México onde atraía e filmava mulheres menores de idade.) Denúncias ao FBI mencionam um bebê enterrado em igreja e corpos de meninas estrangeiras no rancho.
E o que Epstein pendurou na entrada do Zorro Ranch? Uma reprodução de 2,7 por 2,9 metros do quadro “Massacre dos Inocentes”, de Rubens (EFTA02319842). Sarah Kellen descreveu a tela (EFTA00563164): “It’s the large 9x9 canvas that we had rolled out for him to see in the entry way where they are killing babies.” (É a tela grande de 2,70 por 2,70 que desenrolamos para ele ver na entrada, onde estão matando bebês.)
Uma tela de três metros retratando o massacre de bebês, pendurada na entrada de uma propriedade descrita como centro reprodutivo, onde menores eram filmadas e onde existem denúncias de bebês enterrados. A escolha simbólica dispensa interpretação.
O Zorro Ranch jamais foi perquisitado pelo FBI. Após a morte de Epstein em 2019, o FBI obteve mandados para a mansão em Nova York e para Little St. James Island, mas não para o rancho. A omissão é inexplicável: o relatório SECRET//NOFORN de 2017 confirmava que Epstein filmava menores no local. O FBI sabia. E não agiu. Em 2024, o estado do Novo México estabeleceu uma Comissão da Verdade bipartidária para investigar crimes alegados no rancho. Resultados são esperados para meados de 2026.
A pergunta óbvia é: por que o FBI protegeria o Zorro Ranch? A resposta mais consistente com os documentos é que o rancho continha evidências que comprometiam não apenas Epstein, mas a operação de inteligência que ele representava.
Capítulo 13: Quem Matou a Matéria?
Em novembro de 2019, um vídeo de bastidores mostrou Amy Robach, âncora da ABC News, declarando que a emissora havia suprimido sua reportagem sobre Epstein em 2016. Robach lamentava, em conversa com colega captada por microfone aberto, que a ABC possuía testemunhos e evidências que teriam levado à prisão de Epstein três anos antes. O FBI rastreou o incidente (EFTA00028830).
Se a ABC tivesse publicado a reportagem em 2016, a prisão de Epstein poderia ter ocorrido três anos antes. Cada ano de atraso representou centenas de vítimas adicionais, segundo estimativas dos advogados das sobreviventes.
Mas a ABC não foi a única. Em 2003, a jornalista Vicky Ward preparou o primeiro grande perfil de Epstein para a Vanity Fair, incluindo as denúncias das irmãs Maria e Annie Farmer. O editor Graydon Carter removeu as denúncias de abuso sob pressão direta de Epstein. A reportagem foi publicada sem a informação mais grave, transformando-se de exposição investigativa em perfil laudatório. O mesmo Carter, em suas memórias, tentou desacreditar Ward: “My staff, to a person, did not trust her.” (Minha equipe, sem exceção, não confiava nela.) O editor que suprimiu denúncias de abuso sexual contra menores acusou a repórter que as trouxe de falta de credibilidade.
A magnitude da operação de silenciamento é expressa nos números: 467 documentos mencionam “NDA” (acordo de confidencialidade), 2.824 mencionam “non-disclosure” (sigilo). Total: 3.291 documentos relacionados a acordos de confidencialidade. Para contextualizar: a maioria das empresas da Fortune 500 não gera tantos documentos de sigilo em toda a sua existência.
O NDA era arma de múltiplos calibres. Para vítimas, era a condição para receber compensação: assine ou não receba nada, e lembre-se de que seu agressor tem advogados melhores que os seus. Para empregados (pilotos, motoristas, cozinheiros, massagistas, seguranças), era condição de emprego. Para testemunhas acidentais, intimidação preventiva. Para jornalistas, promessa de processo judicial interminável e caro.
O resultado foi um muro de silêncio que resistiu por mais de duas décadas. Maria Farmer reportou ao FBI em 1996. Foi ignorada por três anos. Julie K. Brown, do Miami Herald, só conseguiu reabrir o caso em 2018 com sua série “Perversion of Justice” (Perversão da Justiça), vencedora do Prêmio George Polk. Mais de vinte anos separavam a denúncia da investigação. Nesse intervalo, centenas de menores foram abusadas.
Capítulo 14: Fato versus Ficção
A investigação executou 79 buscas sistemáticas sobre alegações de sociedades secretas e ocultismo no acervo completo. A transparência exige que se separe o que os documentos demonstram do que a internet inventa.
Colheita de adrenocromo: dez ocorrências nos documentos. Todas são especulações de terceiros ou dossiês que documentam a ausência de evidências. Nenhuma evidência operacional. Desmentido.
Rituais satânicos: 42 ocorrências. Emails de fanáticos enviados ao FBI e referências históricas sem conexão com Epstein. Nenhuma evidência operacional. Desmentido.
Spirit cooking: 7 ocorrências. Referências a Podesta (sem relação com Epstein). Desmentido.
Sacrifício humano: zero ocorrências. Desmentido.
Skull and Bones: zero ocorrências. Desmentido.
MKUltra formal: 4 ocorrências. Um post de blog e especulações. Nenhuma evidência primária de conexão com o programa de controle mental da CIA. Desmentido.
Uma busca exaustiva de sessenta termos relacionados a sociedades secretas e ocultismo produziu resultados igualmente definitivos. Skull and Bones: zero. Opus Dei: zero. Priory of Sion: zero. Ordo Templi Orientis: zero. Aleister Crowley: zero. Thule Society: zero. Os Illuminati geraram doze ocorrências, todas oriundas de um documento (EFTA01082667) enviado a Epstein por terceiro em 2008, que compilava “Illuminati Families” ao lado da lista oficial da Comissão Trilateral (na qual o próprio Epstein figurava). O website de Leo Zagami, escritor italiano que se autoproclama ex-membro de alto escalão dos Illuminati, estava listado nesse documento como recurso recomendado. Zagami celebrou em 2026 que seu nome aparecera nos Epstein Files. A realidade é menos lisonjeira: alguém enviou a Epstein uma compilação conspiratória que citava o blog de Zagami, e não há evidência de que Epstein jamais o tenha lido.
O que os documentos confirmam sobre sociedades secretas é mais prosaico e mais revelador. Epstein era membro formal do Council on Foreign Relations (282 ocorrências) e da Comissão Trilateral (270 ocorrências). Em abril de 2017, descreveu seu círculo de cientistas do MIT como “our secret society” (EFTA01209136). Sua referência a “9th circle” em mensagem a Bannon (EFTA01004863) era citação de Dante sobre política
europeia, não ritual satânico. Brock Pierce, o empreendedor de
criptomoedas que visitava Little St. James, mora “the first Masonic Temple built in the new world”,
em San Juan, Porto Rico. E documentos de vigilância do FBI no acervo
contêm interceptações telefônicas que se cruzam com investigações sobre a
Cosa Nostra e a Camorra em Miami. As estruturas de poder reais que
Epstein habitava não se escondiam em lojas ocultas. Reuniam-se no
Council on Foreign Relations, na Comissão Trilateral e em jantares cuja
lista de convidados incluía Kissinger, Leon Black, Ehud Barak, Larry
Summers e o CEO do Goldman Sachs.
A busca expandida de 110 termos aprofundou o quadro consideravelmente. Epstein não apenas pertencia a essas organizações: operava no mesmo nível de segurança. Em 5 de janeiro de 2018, ao convidar Steve Bannon à sua mansão em Manhattan, Epstein escreveu: “I suggest - my house, 9 east 71. similar to a SCIF.. you choose the time” (EFTA00917343). SCIF é a sigla para Sensitive Compartmented Information Facility, instalação governamental projetada para tratar informações nos mais altos níveis de classificação. Que Epstein tenha comparado sua própria casa a um SCIF, dirigindo-se a um homem com habilitação TS/SCI, implica capacidades de contravigilância que transcendem o sistema de segurança de um milionário. Bannon retribuiu: “You would have loved my tech meeting in the SCIF” (EFTA01615074). Alguém dentro de um SCIF real, cercado de pesquisadores de neurociência, escreveu a Epstein com naturalidade: “Just at scif. Lots of neuroscience folks. Brockman said nasty book/movie coming out on you?” (EFTA02399279). Um formulário real de habilitação SCI (DD FORM 1847-1) aparece nos arquivos Epstein (EFTA01125764). A rede de Epstein não era apenas elitista. Era habilitada.
A expressão “our secret society” não foi improviso isolado. Em agosto de 2010, alguém pediu a Epstein “suggestions for an old guy, super smart / well connected that wants to continue legacy of ‘old school’ secret society” (EFTA02407727). Epstein respondeu: “Remind me next month” (EFTA01741160). Não rejeitou a consulta. Aceitou o papel de conselheiro sobre legados de sociedades secretas.
Esse papel estendia-se a sociedades reais com membros reais. No mesmo mês, um associado escreveu a Epstein sobre um grupo chamado Zodiac — “one of those last secret type socieities” (uma das últimas sociedades secretas de verdade), com exatamente doze membros de cada vez, “still very secret” (ainda muito secreta), que se reunia para “dinners in exotic locations” (jantares em locais exóticos) (EFTA02407780). Membros serviam até a morte; se ficassem senis, entravam em “eccentric orbit”. A única forma de ingresso era a morte de um membro. Sem minorias, sem mulheres. O email nomeava Paul Volcker, ex-presidente do Federal Reserve, como membro confirmado, e possivelmente Tom Brokaw. Bob Pine perguntara se Murray Gell-Mann, Nobel de Física, seria bom candidato. A resposta de Epstein não foi “não sei do que se trata.” Foi: “murray doesn’t play well in groups” (EFTA01815889) — o veredicto de um porteiro que conhecia a sociedade, conhecia o candidato e tinha autoridade para opinar sobre admissão. Em novembro de 2013, estátuas do Zodiac foram entregues na mansão de Epstein, 9 East 71st Street (EFTA00379482). A iconografia não era decorativa. Era institucional.
Michael Wolff descreveu o resultado com precisão cirúrgica: “The Epstein house/office is, by careful design, exclusive and clubby, part hang out, part secret society.” O CFR e a Comissão Trilateral, aos quais Epstein pertencia formalmente, são as mesmas organizações que produziram quinze diretores da CIA e dezessete Secretários de Estado. O padrão histórico de sociedades secretas alimentando agências de inteligência não é teórico: a Loja P-2 na Itália o provou com 64 volumes de evidências parlamentares; Skull and Bones gerou o OSS e a CIA; a primeira reunião do Bilderberg em 1954 foi financiada pela CIA. Epstein sentava-se em múltiplas mesas dessa tradição, funcionava como porteiro do Zodiac, operava uma mansão que ele próprio comparou a um SCIF e impunha silêncio mediante 3.291 documentos relacionados a acordos de sigilo e confidencialidade, incluindo um assinado pelo Office of Chief Medical Examiner que se referia à “investigation into the MURDER of Jeffrey Epstein” (EFTA00023753). A palavra empregada não era “death”. Era “murder”.
As teorias falsas não são inofensivas. Servem para desacreditar a investigação legítima. Quando alguém afirma que Epstein participava de rituais satânicos de colheita de sangue infantil, a reação natural de qualquer pessoa sensata é rejeitar a premissa inteira. E ao rejeitar o absurdo, rejeita-se também o real: as câmeras ocultas confirmadas pelo FBI, a chantagem documentada em 294 documentos, os DVDs de filmes de assassinato reportados ao tribunal federal, o relatório SECRET//NOFORN que confirma Epstein como agente do Mossad. A ficção conspiratória é, paradoxalmente, a melhor aliada da operação que pretende denunciar. Ao disfarçar a verdade com camadas de absurdo, torna-a irreconhecível.
Mas o que os documentos confirmam é suficientemente terrível sem adornos ficcionais:
Transhumanismo e eugenia: 19 ou mais ocorrências, incluindo reportagens do New York Times, conferências, contratos com a California Cryobank, kits de 23andMe sob nome falso. Confirmado.
Controle psicológico: o FBI documentou (EFTA00021334) as técnicas de controle com precisão clínica: “encouraging disordered eating, requiring plastic surgery” (incentivando transtornos alimentares, exigindo cirurgia plástica), além de isolamento social, destruição da autoestima e alternância entre afeto excessivo e crueldade gratuita. Uma vítima descreveu (EFTA01245662): “Felt that it was all about mind control.” (Sentia que era tudo sobre controle mental.) Outra declarou textualmente (EFTA01249595): “Remembers being drugged and her vagina being cut.” (Lembra-se de ter sido drogada e de sua vagina ter sido cortada.) Diagnósticos clínicos profissionais documentados em EFTA00156975 identificaram “chronic PTSD (complex PTSD was not yet in the diagnostic nosology) and dissociative disorder NOS” (PTSD crônico e desordem dissociativa). Confirmado.
A Síndrome de Estocolmo aparece em dez documentos, três deles particularmente reveladores. Uma vítima em mensagem de setembro de 2017 (EFTA01620736): “I think I have Stockholm syndrome.” (Acho que tenho Síndrome de Estocolmo.) E Epstein, brincando sobre o assunto com Woody Allen (EFTA01210115): “It’s called the Stockholm syndrome.” Allen: “Hahaha.”
A risada de Allen é talvez o som mais obsceno de todo o acervo.
Capítulo 15: A Morte
Em 8 de agosto de 2019, às 15h45, o tenente do SIS (Serviço de Investigação Especial) do Metropolitan Correctional Center de Nova York descobriu que nenhuma câmera da Unidade Especial de Habitação gravava (EFTA00117617): “None of the cameras on the system were able to record.” (Nenhuma das câmeras do sistema conseguia gravar.) Dois dias antes da morte de Epstein.
Em 9 de agosto, o companheiro de cela, Efrain Reyes, foi removido. Nenhum substituto foi designado, em violação do protocolo que exigia acompanhamento constante de presos em risco de suicídio.
Na mesma noite, às 22h39, uma “orange-colored shape” (forma de cor laranja) foi captada em câmera subindo em direção ao andar de Epstein. A figura nunca foi identificada.
Em 10 de agosto, às 6h30 da manhã, Epstein foi encontrado morto. Guardas admitiram não tê-lo verificado por oito horas. Registros de ronda foram falsificados.
As imagens do primeiro incidente de 23 de julho de 2019, quando Epstein foi encontrado com marcas de lençol no pescoço, haviam sido “permanentemente deletadas por erro administrativo”. A explicação é estatisticamente impossível para evidência de caso federal de alta prioridade.
O Dr. Michael Baden, contratado pela família Epstein para observar a autópsia, declarou que os achados eram “more consistent with homicidal strangulation than suicide” (mais consistentes com estrangulamento homicida do que com suicídio): três fraturas no pescoço (osso hioide e duas cartilagens tireoidianas), padrão que Baden nunca observou em suicídio por enforcamento em toda sua carreira. O legista oficial sustentou o veredito de suicídio, observando que fraturas do hioide ocorrem em aproximadamente 25% dos enforcamentos.
A investigação do DOJ sob a administração Trump em 2025 concluiu oficialmente que Epstein “was NOT murdered” (não foi assassinado) e que nenhuma “client list” (lista de clientes) de associados existia. A conclusão contradiz diretamente os documentos do próprio DOJ: se não havia lista de clientes, o que eram os Black Books? Se não foi assassinato, como explicar que todas as câmeras falharam, os guardas dormiram, o companheiro de cela foi removido e uma figura não identificada subiu ao andar de Epstein horas antes da morte?
O que não está em debate é que as condições para a morte foram criadas deliberadamente: sem câmeras, sem testemunhas, sem companheiro de cela, sem vigilância por oito horas. Se foi suicídio, foi o suicídio mais conveniente da história americana. Se foi assassinato, foi o assassinato mais previsível.
Epstein reagia a mortes com uma única palavra.
Mary Kennedy encontrada morta: “Whoops.”
Sogra do Sultan morta na Colômbia: “Sultans mother in law died today in Columbia, whoops.”
Arquiteto James Carmo morto na propriedade de Epstein: “Whoops. How old was he? Was he an alcoholic.”
Informado de que Ornella fora estuprada aos 18 anos: “Whoops.”
“Whoops.” A palavra preferida de um sociopata diante da morte alheia. Ninguém a pronunciou quando ele morreu. Ou talvez alguém tenha pronunciado, mas sem câmeras para registrar.
O padrão é instrutivo: Robert Maxwell morreu quando se tornou mais perigoso vivo do que morto. Jean-Luc Brunel, dono da agência de modelos MC2 que fornecia menores a Epstein, foi encontrado morto na prisão francesa em fevereiro de 2022, enquanto aguardava julgamento, supostamente por enforcamento, nas mesmas circunstâncias. Efrain Reyes, último companheiro de cela de Epstein, morreu em novembro de 2020. Três operativos da mesma rede, três mortes em circunstâncias questionáveis, nenhuma investigação satisfatória.
Capítulo 16: O Mercado de Inteligência
O conceito mais preciso para descrever a operação Epstein não é “rede de tráfico sexual”, embora isso fosse o método. Não é “operação de inteligência”, embora isso fosse a função. O conceito mais preciso é mercado de inteligência: uma plataforma multilateral onde múltiplos compradores (Mossad, possivelmente CIA, possivelmente FSB) adquiriam inteligência de múltiplas fontes (chantagem sexual, vigilância tecnológica, acesso institucional), intermediada por um corretor (Epstein) que cobrava em proteção, dinheiro e poder.
Três gerações de vigilância documentam a evolução:
Primeira geração: PROMIS (anos 1980). Robert Maxwell distribui software com portas traseiras do Mossad a dezenas de governos, de Pequim a Moscou. A maior operação de vigilância eletrônica do século XX antes da internet.
Segunda geração: Carbyne (anos 2010). Epstein e Barak investem em empresa da Unidade 8200 que intercepta chamadas de emergência americanas. Vendida à Axon por 625 milhões de dólares em 2025. A porta traseira nos tribunais tornou-se porta traseira nas chamadas de emergência.
Terceira geração: Palantir (anos 2000 ao presente). Thiel cofunda a maior empresa de análise de dados do complexo militar-industrial. Contratos com CIA, Ministério da Defesa britânico (670 milhões de libras), Pentágono, serviço de saúde britânico. Epstein investiu 40 milhões de dólares no fundo de Thiel. Barak foi aconselhado por Epstein a “look at” (examinar) a Palantir. A empresa foi usada nas operações israelenses em Gaza para identificação de alvos por inteligência artificial.
A cadeia é contínua: Maxwell pai distribui PROMIS com portas traseiras do Mossad. Maxwell filha facilita as conexões de Epstein com bilionários de tecnologia. Epstein e Barak investem na Carbyne, empresa da Unidade 8200. Epstein investe no fundo de Thiel e conecta Barak à Palantir. Axon adquire Carbyne, fundindo vigilância israelense com polícia americana. Em cada iteração, as mesmas famílias e redes de inteligência aparecem. O método muda (software nos anos 1980, chantagem sexual nos anos 2000, tecnologia de vigilância nos anos 2010), mas a estrutura permanece: inteligência israelense conectada ao complexo militar-industrial americano, com capital privado servindo como ponte.
O FBI confirmou o lado israelense: “co-opted Mossad Agent.” O lado russo é documentado por Belyakov (Academia da FSB) e pela Operação “Royal Flush”. O lado americano é sugerido por Acosta (”belonged to intelligence”), pela Resposta Glomar da CIA e pela presença de Bill Burns. O lado britânico é contextualizado pelo precedente do PIE (Paedophile Information Exchange) e pela presença de Sir John Sawers, chefe do MI6 de 2009 a 2014, nas listas de membros de grupos frequentados por Epstein (EFTA01783338).
Um documento confirma que MI5 e MI6 bloquearam processos criminais contra pedófilos da elite britânica para evitar chantagem que pudesse expor segredos de Estado (EFTA00075997): “MI5 and MI6 involvement in preventing criminal prosecutions confirms that these Establishment figures had to be protected in order to avoid blackmail which could be used to obtain state secrets.” (O envolvimento do MI5 e MI6 na prevenção de processos criminais confirma que essas figuras do Establishment tinham de ser protegidas para evitar chantagem que pudesse ser usada para obter segredos de Estado.) É exatamente o modus operandi alegado no caso Epstein: proteger criminosos sexuais porque sua exposição comprometeria operações de inteligência. A diferença é a escala.
Cada conexão de Epstein pertence a uma de três categorias funcionais:
Finanças (financiamento e alavancagem): Wexner, Black, Rothschild, Dimon, Staley. Função: dinheiro, infraestrutura bancária e chantagem financeira.
Ciência (eugenia, tecnologia e legitimidade): Church, Nowak, Nikolic, Brockman, More. Função: programa transhumanista, pesquisa de duplo uso e cobertura filantrópica.
Política (acesso e proteção): Summers, Kissinger, Gergen, Acosta, Barak. Função: proteção judicial, influência regulatória e acesso a inteligência classificada.
Cada categoria reforça as outras. Finanças financia Ciência, que confere legitimidade a Política, que protege Finanças. O arranjo é estável enquanto todos os participantes têm algo a perder. O acordo de não processamento de 2008 protegia coconspiratores “named or unnamed” (nomeados ou não) precisamente porque a operação dependia da cumplicidade distribuída. Ninguém podia trair sem se expor.
A Aposta Vaticana
Em junho de 2019, um mês antes de sua prisão, Epstein trocou mensagens com Steve Bannon que revelam um projeto de ambição notável: a destruição política do Papa Francisco.
O documento central é o EFTA01615950. Bannon e Epstein discutem o livro In the Closet of the Vatican, de Frédéric Martel, que expõe a homossexualidade dentro do Vaticano. Epstein diz a Bannon: “You are now exec producer of ‘ITCOTV’.” (Você agora é produtor executivo de ITCOTV.) Bannon responde: “Will take down Francis.” (Vai derrubar Francisco.) Epstein escala: “The Clintons, Xi, Francis, EU — come on brother.” (Os Clinton, Xi, Francisco, UE. Vamos, irmão.)
A troca revela que o Papa Francisco era apenas um alvo numa lista que incluía o establishment democrata americano, o presidente chinês e a União Europeia. O discurso de Bannon no Vaticano em 2014, proferido por Skype em conferência presidida pelo Cardeal Raymond Burke (um dos maiores críticos de Francisco), está integralmente transcrito nos documentos (EFTA01061751).
A conexão vaticana estende-se além da política. Em setembro de 2015, quando o Papa Francisco visitou Nova York, o irmão de Epstein sugeriu convidar o Pontífice para um “egg cream”. Epstein respondeu (EFTA02486591): “I thought I’d invite him for a massage. So when he hears oh jesus I’m coming, he feels happy.” (Pensei em convidá-lo para uma massagem. Assim, quando ele ouvir “oh jesus, estou chegando”, ficará feliz.) Dado que “massage” era o código documentado de Epstein para abuso sexual, a “piada” adquire dimensão que transcende a vulgaridade.
Em maio de 2003, Epstein e Maxwell obtiveram audiência privada com João Paulo II. A foto foi exibida na mansão de Palm Beach. Uma empregada católica chamada Lupita “wept” (chorou) ao ver a foto papal pendurada ao lado de uma foto de Epstein com uma menina (EFTA00306919). Boris Nikolic chamava Epstein de “Monsignor Jee” (EFTA00768525). E em dezembro de 2010, quando Nikolic desejou a Epstein um Natal “in pope-style”, Epstein respondeu: “island, pope style, does that mean little boys” (EFTA00900472).
O relatório FBI SECRET//NOFORN (EFTA01683874) afirma que o hacker pessoal de Epstein possuía passaporte da Cidade do Vaticano. Deepak Chopra convidou Epstein para conferência sobre inteligência artificial no Vaticano em abril de 2018. A própria Santa Sé era proprietária de imóvel na East 71st Street, a mesma rua da mansão de Epstein em Manhattan.
A conexão vaticana era aspiracional, não operacional — um projeto que revela mais a ambição de Epstein do que seu alcance.
Capítulo 17: A Declaração de Wexner
Em 18 de fevereiro de 2026, Les Wexner sentou-se em sua residência de New Albany, Ohio, diante de cinco membros do House Oversight Committee. Declarou-se “naive, foolish, and gullible” (ingênuo, tolo e crédulo). Disse ter sido “duped by a world-class con man” (enganado por um vigarista de nível mundial). Não invocou a Quinta Emenda. Repetiu “I don’t recall” (não me lembro) com frequência que o deputado Lynch classificou como padrão: “He’s a competent witness. He’s just not telling the truth.” (Ele é uma testemunha competente. Simplesmente não está dizendo a verdade.)
O deputado Robert Garcia estimou que Wexner transferira mais de US$ 1 bilhão a Epstein: “There would be no Epstein island, there’d be no Epstein plane, there would be no money to traffic women and girls, without the support of Les Wexner.” (Não haveria ilha de Epstein, não haveria avião de Epstein, não haveria dinheiro para traficar mulheres e garotas, sem o apoio de Les Wexner.)
O confronto sistemático entre as doze alegações de Wexner e o acervo documental produz resultado devastador: onze de doze são diretamente contraditas. A décima segunda (desvio de dinheiro) é parcialmente sustentada, mas agravada pela omissão em notificar autoridades.
As próprias anotações manuscritas de Epstein listam “34 girls wexner, irs” ao lado de referências a aeronaves e termos financeiros (EFTA00645002). O número não é explicado. Mas trinta e quatro não é um círculo social. É um programa.
Uma carta no acervo menciona “gang stuff for over 15 years” (atividades de gangue por mais de 15 anos) no contexto da parceria Wexner-Epstein (EFTA01110729). Quinze anos de “gang stuff” situam a origem do arranjo no início dos anos 1990, precisamente quando Wexner concedeu a Epstein a procuração irrestrita.
Uma vítima alega contato sexual com Wexner quando menor de idade em múltiplas propriedades (EFTA01681842). A alegação não é isolada. É corroborada pelo documento seguinte.
A própria lista de testemunhas do FBI nomeia “Abigail Wexner — Knowledge of defendant’s sexual desire for minor girls” (conhecimento do desejo sexual do réu por meninas menores de idade) (EFTA00725932). A esposa do financista era considerada pelo FBI como possuidora de informação sobre a predação de Epstein. O Bureau registrou o fato. Nada aconteceu.
Uma testemunha descreve Wexner e Epstein assistindo a modelos menores de idade em lingerie durante sessão privada (EFTA01249593). A cena não é ambígua. Dois homens, um bilionário, o outro um criminoso sexual condenado, assistindo crianças modelar roupas íntimas. Juntos.
Virginia Giuffre testificou em 2016 ter sido “forced to have sex with Wexner numerous times” (forçada a ter relações sexuais com Wexner inúmeras vezes). Maria Farmer foi agredida sexualmente na propriedade de Wexner em Ohio em 1996; quando ligou para o escritório do xerife pedindo ajuda, ouviu: “We work for Wexner” (Nós trabalhamos para Wexner). Richard Adrian, guarda-costas de Wexner entre 1991 e 1992, declarou ao FBI que Wexner era “best friends with Epstein” e que a mansão de Manhattan fora vendida por vinte dólares, não vinte milhões.
A distância entre o testemunho congressual de Wexner e o registro documental não é falha de memória. É abismo. E a deposição, realizada sob juramento, coloca-o na posição de ter feito declarações que múltiplos documentos contradizem diretamente. Se isso constitui perjúrio é questão jurídica. Se constitui verdade, não é.
Capítulo 18: A Prisão
Na manhã de 19 de fevereiro de 2026, dia em que completava 66 anos, Andrew Mountbatten-Windsor foi preso pela Thames Valley Police sob suspeita de má conduta em cargo público. A acusação carrega pena máxima de prisão perpétua. Nenhum membro sênior da realeza britânica havia sido preso nos últimos quatrocentos anos, desde que Carlos I tentou deter cinco parlamentares sem autorização em 1647. Carlos perdeu a cabeça. Andrew, até o momento, perdeu apenas os títulos.
O rei Carlos III já lhe retirara tudo em outubro de 2025: o título de príncipe, o tratamento de Alteza Real, o Ducado de York, o Condado de Inverness, a Baronia de Killyleagh e a residência na Royal Lodge, mansão de trinta cômodos próxima ao Castelo de Windsor onde vivera por mais de vinte anos. A decisão veio cinco meses após a morte de Virginia Giuffre, a mais célebre acusadora de Epstein e de Andrew, que se suicidou em abril de 2025, aos 41 anos, numa fazenda na Austrália Ocidental. Suas memórias, “Nobody’s Girl”, foram publicadas postumamente por desejo expresso e inequívoco da autora. No livro, Giuffre relata ter sido traficada por Epstein e forçada a manter relações sexuais com Andrew em três ocasiões, a partir dos 17 anos. Alega que Andrew adivinhou corretamente sua idade no primeiro encontro. Escreveu temer morrer como escrava sexual. A voz que o sistema tentou silenciar por duas décadas fala agora de uma sepultura australiana com mais clareza do que jamais lhe permitiram em vida.
A prisão, contudo, não se deveu aos crimes sexuais. Andrew foi detido por compartilhar documentos governamentais confidenciais com Jeffrey Epstein enquanto exercia o cargo de Representante Especial do Reino Unido para Comércio e Investimento Internacional, entre 2001 e 2011. Os ocupantes desse cargo são vinculados ao Ato de Segredos Oficiais e têm o dever de manter documentos sensíveis em segurança, não compartilhá-los com criminosos sexuais condenados.
Os emails revelados nos Arquivos Epstein em janeiro de 2026 são devastadores. Na véspera de Natal de 2010, dois anos após a condenação de Epstein por solicitar prostituição de menor, Andrew encaminhou-lhe um briefing confidencial produzido pela Equipe de Reconstrução Provincial em Helmand, no Afeganistão, detalhando oportunidades comerciais de alto valor, incluindo depósitos de ouro, urânio e outros minerais. Andrew escreveu: “Vou oferecer isto a outros na minha rede (inclusive Abu Dhabi), mas teria muito interesse nos seus comentários, opiniões ou ideias sobre a quem eu poderia mostrar isto para atrair investidores.” A Helmand era zona de conflito ativo onde soldados britânicos morriam. Andrew enviava a um pedófilo condenado e agente cooptado do Mossad (conforme o próprio FBI) informação sobre as riquezas minerais da região.
Em novembro de 2010, Andrew encaminhou a Epstein relatórios oficiais de sua turnê comercial pelo Sudeste Asiático, cobrindo Hanói, Saigon, Cingapura, Kuala Lumpur e Hong Kong, em questão de minutos após recebê-los. Compartilhou seu itinerário detalhado com antecedência. Revelou detalhes sensíveis da reestruturação do Royal Bank of Scotland, banco que pertencia majoritariamente aos contribuintes britânicos após o resgate de 2008, incluindo conflitos internos sobre o então diretor-presidente Stephen Hester. Informação potencialmente sensível ao mercado, entregue de bandeja a um homem cujas conexões com agências de inteligência de pelo menos três países eram documentadas pelo FBI.
O FBI já tratava Andrew como “pessoa de interesse como coconspirador” do USAO do Distrito Sul de Nova York (EFTA00160159). Testemunhas relataram em avaliação de inteligência do FBI que Steve Scully viu Andrew “esfregando-se contra uma garota jovem” na ilha de Epstein (EFTA00164939). O mesmo documento registra que Maxwell “persuadiu” Andrew a não cooperar com o FBI (EFTA00165297). O avião de Epstein pousou em bases militares da RAF Marham e RAF Horsham (EFTA01797814), instalações que não recebem voos civis. Uma denúncia anônima ao FBI instruía: “Para evidências, procure chaves guardadas na sala de desenho” (EFTA00020470).
O padrão é instrutivo e merece ser dito com todas as letras: Andrew foi preso por compartilhar documentos, não por abuso sexual, apesar de evidências esmagadoras do segundo crime. A explicação não é jurídica. É política. Andrew é o elo mais fraco, o real sem amigos, o escudo descartável. Peter Mandelson, investigado criminalmente pela Metropolitan Police desde 3 de fevereiro de 2026 por idêntica má conduta em cargo público, vazou a Epstein informação potencialmente mais grave: a confirmação do pacote de resgate de 500 bilhões de euros da zona do euro horas antes do anúncio público (EFTA00750008), informação que teria permitido operações de mercado de proporções colossais. Mandelson renunciou ao Partido Trabalhista e à Câmara dos Lordes. Teve duas propriedades revistadas pela polícia. Mas não foi preso.
O biógrafo real Andrew Lownie declarou que Epstein “vendeu os segredos de Andrew a agências de inteligência estrangeiras”, incluindo Mossad, inteligência saudita e líbia. O MI6, segundo reportagem do Homeland Security Newswire, teme que a Rússia possua material comprometedor sobre Andrew obtido via rede Epstein. Lownie revelou ter recebido pessoalmente um relatório de inteligência russa, obtido de uma agência de inteligência americana, sobre a conexão Andrew e Epstein. Se a Rússia possui kompromat sobre o ex-príncipe, a informação que Andrew compartilhou com Epstein não morreu com Epstein. Migrou para arquivos de inteligência em Moscou, Tel Aviv e Riad.
A declaração do rei Carlos III foi cirúrgica: “A lei deve seguir seu curso.” A frase reconhece a gravidade e, simultaneamente, abandona o irmão ao sistema judiciário. Andrew foi liberado sob investigação, sem fiança formal, mas o processo continua. A pena máxima, se condenado, é prisão perpétua. O primeiro membro da realeza moderna a ser preso pela polícia britânica pode tornar-se o primeiro a ser condenado. Ou pode tornar-se apenas mais um bode expiatório, sacrificado para que os verdadeiramente poderosos continuem a jantar em paz.
A pergunta que os documentos impõem não é se Andrew merece ser preso. É por que só ele foi preso.
Capítulo 19: O Testemunho do Veterano da CIA
John Kiriakou conhece o sistema por dentro. Ex-oficial de operações da CIA, foi o primeiro membro da agência a confirmar publicamente que os Estados Unidos utilizavam tortura, especificamente a técnica de afogamento simulado, em prisioneiros sob custódia americana. Pela denúncia, o governo federal o processou e condenou a trinta meses de prisão por vazamento de informação classificada. Kiriakou entrou na prisão como denunciante e saiu como um dos poucos homens vivos capazes de falar sobre a comunidade de inteligência americana sem precisar mentir e sem poder ser desacreditado como leigo.
Em fevereiro de 2026, Kiriakou concedeu entrevista ao jornalista Mario Nawfal na qual detalhou, com precisão técnica de veterano de operações, dezoito alegações sobre a natureza da operação Epstein: desde a classificação de Epstein como “agente de acesso” do Mossad até a “forma laranja” captada em câmera de vigilância na noite anterior à morte. Cada alegação foi cruzada sistematicamente com os 882.768 documentos do acervo liberado pelo Departamento de Justiça.
O resultado é estatisticamente devastador: doze de dezoito alegações foram integralmente confirmadas por documentos primários. Cinco foram parcialmente confirmadas. Nenhuma, zero, foi contradita.
A alegação central de Kiriakou, de que Epstein “pertencia à inteligência”, é confirmada textualmente pelo documento EFTA00030182, que reproduz a declaração do procurador Acosta. As câmeras em banheiros que Kiriakou descreve aparecem em 241 documentos, incluindo o email EFTA02443686 em que alguém na casa de Epstein pergunta: “Há algum lugar onde não haja câmeras?” e a resposta é ir ao banheiro privativo. As ameaças de morte em hebraico a vítimas, com imagens de mulheres mutiladas e a frase “isto é o que acontecerá se você falar”, são confirmadas pelo EFTA00078198, que acrescenta um detalhe que a própria entrevista não mencionava: os números telefônicos de origem resolviam para a Ucrânia, não para Israel.
A linguagem codificada que Nawfal descreve, “pizza e refrigerante de uva”, aparece em sete documentos, todos em trocas entre Epstein e seu urologista, Dr. Harry Fisch, no contexto de prescrição de medicação para disfunção erétil. A frase que sela o caráter codificado é a do EFTA00841650: “Vamos tomar pizza e refrigerante de uva de novo. Ninguém mais consegue entender.” Quando dois homens adultos reconhecem estar usando linguagem que “ninguém mais consegue entender”, a linguagem não é inocente. O significado exato permanece em aberto. O caráter cifrado, não.
O email de Epstein a Ariane de Rothschild no dia exato da anexação da Crimeia, 18 de março de 2014, afirmando que “a convulsão na Ucrânia deveria oferecer muitas oportunidades, muitas” (EFTA00870636), é confirmado com data, destinatária e conteúdo idênticos aos citados na entrevista. Rothschild respondeu no mesmo dia: “Sinto falta das nossas conversas. Vamos discutir a Ucrânia.” A presidente do comitê executivo do Groupe Edmond de Rothschild, num dia em que a ordem geopolítica europeia se reconfigurava, sentia falta das conversas com um criminoso sexual condenado e queria discutir a Ucrânia com ele. Não com seu departamento de análise geopolítica. Com Epstein.
O plano de fuga redigido pelo Dr. Henry Jarecki e enviado a Epstein em maio de 2009 (EFTA00774487) é confirmado “palavra por palavra”, na expressão do próprio pesquisador. O documento lista: segurança de computadores, segurança telefônica, ter um bode expiatório, esconderijo, advogado criminal, reserva de dinheiro, disfarces, cirurgião plástico, geração de documentos (certidão de nascimento, carteira de motorista), fuga doméstica, fuga internacional, extradição e “passaportes múltiplos”. A assistente de Jarecki encaminhou o documento com a cobertura: “O Dr. Jarecki está pensando em escrever um novo livro e precisa de um coautor.” O livro era um manual de fuga. O coautor era o fugitivo.
Howard Lutnick, atual Secretário de Comércio dos Estados Unidos, declarou publicamente não ter nenhuma relação com Epstein. Múltiplas denúncias ao Centro de Operações de Ameaças Nacionais do FBI (EFTA01249210) documentam que Lutnick era vizinho de Epstein no imóvel adjacente, na 11 East 71st Street, comprado por dez dólares através de um fundo fiduciário. Um informante do FBI declarou que Lutnick adquiriu a propriedade de Epstein por dez dólares e depois a revendeu por milhões (EFTA01648951). As visitas de Lutnick à ilha de Epstein são igualmente registradas. A negação pública do Secretário de Comércio é, à luz dos documentos do FBI, inverídica.
A reunião de 5 de abril de 2019, três meses antes da prisão de Epstein, na qual Katherine Ruemmler (ex-conselheira jurídica da Casa Branca sob Obama), Steve Bannon (ex-estrategista-chefe de Trump) e Anthony Scaramucci (”Mooch”) se encontraram na residência de Epstein (EFTA02280625), confirma o que Kiriakou argumenta: a operação não era partidária. Democratas e republicanos, assessores de Obama e de Trump, sentavam-se na mesma sala, na casa do mesmo criminoso condenado, a portas fechadas. A bipartidaridade americana, tão difícil de alcançar no Congresso, funcionava perfeitamente na sala de visitas de Epstein.
A cremação do corpo, confirmada pelo EFTA01620905 com a mensagem urgente “Cremação o mais rápido possível. Acabou, Johnny”, eliminou qualquer possibilidade de reexame forense independente. O “orange shape”, forma de cor laranja captada em câmera subindo ao andar de Epstein na noite anterior à morte (EFTA01655293), permanece sem identificação. A vigilância de suicídio foi removida dezessete dias antes da morte. As câmeras não gravavam. Os guardas falsificaram registros de ronda. O companheiro de cela fora removido. O testamento foi assinado dois dias antes.
Três achados verificados por pesquisa web aprofundam as anomalias. Primeiro: um memorando interno do FBI de 16 de agosto de 2019 revela que guardas da prisão criaram um corpo falso a partir de caixas e lençóis, colocaram-no numa van branca rotulada como do Médico Legista e usaram-no como isca enquanto o corpo real era transferido num veículo preto “sem ser notado.” Segundo: um rascunho de declaração do procurador Geoffrey Berman (SDNY), datado de 9 de agosto de 2019, um dia antes da morte oficial, já afirmava que Epstein fora “found unresponsive and declared dead.” Mais de vinte versões do comunicado foram encontradas; as duas datadas de 9 de agosto omitem qualquer referência a suicídio. O DOJ chamou de “unfortunate typo.” Terceiro: investigação do Channel 4 News determinou que apenas aproximadamente 2% dos dados do FBI — cerca de 300 gigabytes de 14,6 terabytes — foram liberados ao público. Noventa e oito por cento da evidência permanece nos cofres do governo.
Quando um veterano da CIA com experiência no sistema prisional federal e credibilidade forjada em trinta meses de encarceramento por denunciar tortura apresenta dezoito alegações sobre uma operação de inteligência e zero são contraditas pela evidência documental, a conclusão não é acadêmica. É operacional. A comunidade de inteligência sabe o que aconteceu. Kiriakou é a prova de que alguns de seus membros decidiram que o silêncio é mais perigoso do que a verdade.
A taxa de confirmação de 94% não é número retórico. É diagnóstico. E o diagnóstico é de que a versão oficial, a de que Epstein era um predador solitário que se matou numa cela sem câmeras, é a única versão que os documentos não sustentam.
Epílogo: O Que Permanece Oculto
Em novembro de 2025, o Congresso americano aprovou por unanimidade no Senado a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein (Epstein Files Transparency Act), assinada imediatamente pelo presidente Trump. Em 30 de janeiro de 2026, o Departamento de Justiça liberou mais de três milhões de páginas, dois mil vídeos e cento e oitenta mil imagens. O FBI estimou que havia seis milhões de páginas potencialmente relevantes. Até fevereiro de 2026, apenas a metade foi publicada.
Três milhões de páginas liberadas. Três milhões por liberar.
O que os documentos já publicados demonstram é suficiente para uma conclusão: Jeffrey Epstein não era um predador sexual que por acaso conhecia gente importante. Era um operativo de inteligência que usava predação sexual como método de trabalho. E as instituições que deveriam tê-lo impedido optaram, conscientemente, por protegê-lo.
O FBI classifica seus relatórios sobre Epstein como SECRET//NOFORN, proibindo compartilhamento com aliados, e simultaneamente deixa de investigar o Zorro Ranch, onde, segundo seus próprios relatórios, menores eram filmadas. A CIA utiliza a Resposta Glomar, recusando-se a confirmar ou negar a existência de registros. A NSA nega pedidos de liberdade de informação citando proteção de fontes e métodos (EFTA00606101). O Departamento de Justiça conclui oficialmente que Epstein não era ativo de inteligência, enquanto seus próprios documentos dizem o contrário.
Cada agência protege não Epstein, mas a si mesma. Os documentos revelam não a história de um criminoso que enganou o sistema, mas a história de um sistema que criou, utilizou e finalmente descartou um criminoso quando a manutenção tornou-se mais custosa do que a perda.
Mas o muro começa a rachar. A prisão de Andrew Mountbatten-Windsor em 19 de fevereiro de 2026, primeiro membro da realeza britânica detido em quatrocentos anos, demonstra que a blindagem institucional tem limite. Quando um ex-príncipe é preso no dia do próprio aniversário, as regras do jogo mudaram. Andrew é apenas o elo mais fraco, o mais descartável, o que ninguém tem interesse em proteger. Mas a rachadura que ele representa no edifício de impunidade é estrutural: se um membro da família real pode ser preso, ninguém está imune. A pergunta agora não é se outros cairão. É quando.
E o testemunho de John Kiriakou, veterano da CIA confirmado a 94% pelos próprios documentos do acervo, prova que a verdade não mora apenas nos arquivos. Mora dentro da comunidade de inteligência, em homens que viram o suficiente para saber que o silêncio é cumplicidade. Quando um ex-oficial de operações da CIA, que já pagou com a liberdade o preço de denunciar tortura, confirma publicamente que Epstein era ativo de inteligência e que sua morte não foi o que o governo diz que foi, a comunidade de inteligência envia uma mensagem a si mesma: sabemos. E alguns de nós escolheram falar.
A infraestrutura permanece intacta. A Carbyne foi adquirida pela Axon por 625 milhões de dólares. Os contratos de vigilância municipal continuam operacionais. Metade dos seis milhões de páginas identificadas pelo FBI como relevantes ainda não foi publicada.
As perguntas que permanecem sem resposta são muitas. Que informação “dark” sobre Gates e Epstein conhecia Susan Desmond-Hellmann? Quem recebia as fitas das câmeras ocultas? Por que o Zorro Ranch nunca foi perquisitado? Quem é a “orange-colored shape” captada subindo ao andar de Epstein na noite anterior à morte? Que conteúdo há nos três milhões de páginas ainda não liberadas? Que informação a CIA protege com a Resposta Glomar? Por que Andrew foi preso por documentos e não por abuso sexual? E quantos nomes dos 1.323 cruzados na tabela mestra permanecerão intocados?
Algumas perguntas só se confirmarão quando a outra metade dos documentos for liberada. Outras talvez nunca se confirmem, porque os mortos não testemunham e os poderosos raramente confessam.
Mas o silêncio dos poderosos, registrado em 3.291 documentos de acordos de confidencialidade, tem data de validade. E o Acordo de Não Processamento de 2008, que protegia coconspiratores “named or unnamed”, foi anulado por juiz federal em 2019. A imunidade que protegia os cúmplices expirou. A investigação, não.
“I was told Epstein ‘belonged to intelligence’ and to leave it alone.” (Disseram-me que Epstein pertencia à inteligência e que eu deveria deixá-lo em paz.)
Ninguém o deixou em paz por acaso. E ninguém o deixou morrer por acaso. Os documentos estão abertos. A primeira prisão já foi feita. A primeira rachadura já apareceu. A questão não é mais se alguém terá coragem de ler os documentos. É se alguém terá coragem de agir sobre o que eles dizem.
Este artigo foi produzido a partir de análise sistemática de 882.768 documentos do índice Elasticsearch contendo os Arquivos Epstein liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA, complementados por 1,2 milhão de entidades mapeadas em banco de dados de grafos Neo4j. Cada afirmação factual é ancorada em documento identificado por número EFTA (Epstein Files Transparency Act) ou em fonte externa devidamente referenciada. Onde a evidência é circunstancial, o texto indica explicitamente.
A verdade está nos documentos. Sempre esteve.
Documentos-chave citados neste artigo
Inteligência
EFTA00090314: Relatório FBI FD-1023, 19 de outubro de 2020. “Co-opted Mossad Agent”, Dershowitz como canal do Mossad, Barak treinou Epstein como espião.
EFTA01683612: Relatório FBI SECRET//NOFORN, 23 de dezembro de 2021. Robert Maxwell confirmado como agente do Mossad. “Israeli state-sponsored technology collection and extortion operation.”
EFTA01683874: Relatório FBI SECRET//NOFORN, 13 de dezembro de 2017. Vídeos de menores no Zorro Ranch. Hacker com exploits de dia zero. CrowdStrike.
EFTA00766597: Email de 18 de dezembro de 2009. Epstein pede “best codebreaker nsa type”.
EFTA01089565: Resposta Glomar da CIA ao pedido de FOIA de Epstein, 2011.
EFTA00606101: Negação da NSA ao pedido de FOIA de Epstein, 2014.
EFTA01683906: Diretor do FBI pergunta se Epstein era fonte humana confidencial. Resultado negativo.
Chantagem e Vigilância
EFTA01693646: Relatório do FBI confirmando câmera oculta funcional em Palm Beach.
EFTA00117617: Memorando do MCC registrando câmeras inoperantes dois dias antes da morte.
EFTA00074130: Carta ao SDNY reportando cinco DVDs de filmes de assassinato.
EFTA02574502: Email sobre câmera de nariz na aeronave.
EFTA00030182: Reportagem sobre declaração de Acosta: “belonged to intelligence, leave it alone.”
Redes de Poder
EFTA01082667: Lista oficial da Comissão Trilateral, 2008. Epstein como membro.
EFTA00845904: Disputa jurídica Rothschild encaminhada a Epstein.
EFTA00587465: Contrato entre Southern Trust e Edmond de Rothschild Holding.
EFTA00584255: Estrutura corporativa da Kissinger China NewCo nos arquivos de Epstein.
EFTA02460834: Seis livros da Kissinger Associates enviados a Epstein.
EFTA02414866: Reunião a três: Gates, Dugan (DARPA) e Epstein.
EFTA00858362: Epstein descreve “intelligence network” a Barak.
EFTA02441292: Projeto SGI com “representante da NSA”, Barak e Blair.
Eugenia e Ciência
EFTA00069900: Reportagem do New York Times sobre transhumanismo de Epstein.
EFTA00563164: “Massacre dos Inocentes” para o Zorro Ranch.
EFTA00938322: Epstein pesquisando participantes do Bohemian Grove.
Prisão de Andrew Mountbatten-Windsor
EFTA00160159: FBI OPA Horizon, agosto de 2021. “Prince Andrew was a person of interest as a co-conspirator to the USAO-SDNY.”
EFTA00164939: Avaliação de inteligência do FBI. Steve Scully testemunhou Andrew “grinding against a young girl” na ilha. Andrew e Epstein “flew on Epstein’s plane and had orgies.”
EFTA00165297: FBI. Maxwell “persuadiu” Andrew a não cooperar com o FBI.
EFTA01797814: Avião de Epstein pousou em bases militares RAF Marham e RAF Horsham.
EFTA00020470: Denúncia anônima ao FBI sobre pedofilia organizada por Epstein para Andrew.
EFTA00750008: Epstein para Mandelson, 9 de junho de 2009. Pacote de resgate da zona do euro e “cyberwar artificial general intelligence.”
Testemunho de Kiriakou: confirmações documentais
EFTA02443686: “Há algum lugar onde não haja câmeras?” Câmeras em banheiros confirmadas.
EFTA00078198: Ameaças de morte em hebraico, imagens de mulheres mutiladas, números de origem na Ucrânia.
EFTA00841650: “Pizza and grape soda. No one else can understand.” Linguagem codificada reconhecida.
EFTA00870636: “Ukraine upheaval should provide many opportunities.” Epstein para Rothschild, 18 de março de 2014, dia da anexação da Crimeia.
EFTA00932590: Greg Brown e ativos líbios congelados de 100 bilhões de dólares.
EFTA00711787: Jagland vai ver Putin em Sochi. Epstein disponível para reunião em junho.
EFTA00774487: Plano de fuga de Jarecki, confirmado palavra por palavra. “WHAT IF I GET CAUGHT?”
EFTA01249210: Lutnick, denúncia ao FBI NTOC. Casa vizinha comprada por dez dólares.
EFTA02280625: Ruemmler, Bannon e Scaramucci na casa de Epstein, 5 de abril de 2019.
EFTA01620905: “Cremation asap.” Cremação urgente.
EFTA01655293: “Orange shape” em câmera de vigilância na noite anterior à morte.
Fontes externas citadas
Whitney Webb, One Nation Under Blackmail, volumes 1 e 2 (2022)
Julie K. Brown, “Perversion of Justice”, Miami Herald (2018) e livro homônimo (2020)
Vicky Ward, “Jeffrey Epstein’s Sick Story”, Daily Beast (2019)
Ari Ben-Menashe, entrevista sobre vínculos Epstein-Mossad (2019)
DOJ Epstein Library (justice.gov/epstein)
Epstein Files Transparency Act, Congress.gov
Dropsite News: sistema de segurança israelense no apartamento de Barak (fevereiro de 2026)
Haaretz: Barak e Epstein (fevereiro de 2026)
CNN: FBI e Wexner como coconspirador (fevereiro de 2026)
Washington Post: onda de renúncias e investigações (fevereiro de 2026)
Byline Times: fundo conjunto Epstein e Thiel (fevereiro de 2026)
Middle East Eye: Epstein aconselhou Barak sobre Palantir
Capture Cascade: Axon adquire Carbyne por 625 milhões de dólares (novembro de 2025)
DOJ OIG: investigação da custódia de Epstein no MCC
Dr. Michael Baden: declaração sobre autópsia (Fox 32)
Prisão de Andrew Mountbatten-Windsor, 19 de fevereiro de 2026 (NBC News, CNN, CBS News, Washington Post, NPR, Al Jazeera, PBS)
Virginia Giuffre, “Nobody’s Girl”, memórias póstumas (Alfred A. Knopf, outubro de 2025)
TIME: “How the Epstein Files Broke Britain” (fevereiro de 2026)
Homeland Security Newswire: MI6 teme que Rússia possua kompromat sobre Andrew via rede Epstein
Andrew Lownie, biógrafo real: Epstein “vendeu os segredos de Andrew a agências de inteligência estrangeiras”
Entrevista de John Kiriakou com Mario Nawfal, “Ukraine Should Provide Opportunities” (YouTube, fevereiro de 2026). Taxa de confirmação documental: 94% (12/18 confirmadas, 5/18 parcialmente confirmadas, 0/18 contraditas)
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Graduated
in History (USP), holds a postgraduate degree in Political Science
(Columbia, USA), specialist in Innovative Public Management (UFSCAR),
and journalist. I write about geopol, philosophy, history and whatever
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