Desde 1979 que os EUA e aliados tentam derrubar o regime iraniano. Têm falhado. A Mossad e a CIA interferiram abertamente nos recentes protestos iranianos, e até se gabaram disso. Resta-lhes uma nova "guerra do golfo", mas isto não é provável. Claro que a aposta dos EUA é grande: derrotar Teerão enfraqueceria a China, a Rússia, os BRICS, a multipolaridade. É caso para dizer, cuidado com o que desejam: ganhariam uma guerra provavelmente à escala mundial.
O Irão percebeu em junho de 2025, que não pode confiar minimamente nos EUA quando, fingindo negociações de paz, Israel e Estados Unidos o atacaram. Não venceram, conseguiram apenas desencadear algo que põe em causa os seus objetivos. A surpresa como elemento de combate não é mais viável em relação ao Irão.
A retaliação do Irão deixou Telavive e Washington sem dúvidas sobre a sua capacidade de segundo ataque. Israel teve de pedir a Trump para organizar um cessar-fogo, dado que os seus estoques de mísseis se esgotavam e as fragilidades da Cúpula de Ferro e das capacidades de defesa antimísseis eram expostas. O Irão evidenciou a sua capacidade de dissuasão, Israel, tem agora a experiência direta da escala da destruição que o Irão pode infligir mesmo num desempenho de retaliação mediano.
Netanyahu pode pressionar Trump nos bastidores. Mas tudo isso se tornou irrelevante. O Irão deixou claro que Israel estará na sua mira desde o primeiro dia.
Israel agora prioriza na sua perceção de ameaças o programa de desenvolvimento de mísseis do Irão em detrimento do seu programa nuclear . As alegações israelitas de derrotar forças de resistência alinhadas ao Irão, principalmente Hamas, Houthis e Hezbollah – estão distantes da realidade. Os grupos de resistência reconstituem-se, reformam-se e o Irão continua trabalhando com eles.
Por sua vez, os Estados Unidos também desenvolveram respeito pela tecnologia de mísseis e drones desenvolvida pelo Irão. Isso significa que a abordagem de Trump, baseada num ataque rápido seguido de operações extensas nos media para projetar a sua força, esgotou o potencial.
Na doutrina da "guerra total" que o Irão estabeleceu, a resposta não se limitará a uma retaliação proporcional ao ataque, mas visará as raízes da presença regional dos EUA. A resposta do Irão irá além de um marco puramente defensivo, voltando-se para uma estratégia ofensiva. O Irão declarou categoricamente que qualquer forma de ataque dos EUA será considerada um ato de guerra.
O Irão levantou o véu de uma de suas novas "cidades de mísseis" subterrâneas, operadas pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), para expor o Khorramshahr-4, míssil balístico pesado, com alcance de 2000 km com mais de uma tonelada de explosivos, atingindo velocidades até Mach 16 fora da atmosfera e cerca de Mach 8 na aproximação. Com um tempo total estimado de voo de 10 a 12 minutos", todas as bases militares dos EUA na região serão alvo.
É uma mudança de paradigma. Não há dúvidas sobre a superioridade militar dos Estados Unidos, mas o risco de perder vidas americanas está a tornar-se extremamente alto e isso custará caro politicamente a Trump com eleições em novembro. A perda de controlo sobre o Congresso é uma grande possibilidade da forma como as coisas estão e uma guerra no Médio Oriente seria o golpe final.
A ameaça de guerra paira sobre as negociações em Omã, mas o lado positivo é que Trump chamou as negociações de "muito boas". O Irão descartou categoricamente qualquer acordo que negasse o seu direito a enriquecer urânio e recusa-se a discutir o seu programa de desenvolvimento de mísseis. No entanto, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, respondeu que o Irão buscava suspender as sanções económicas dos EUA em troca de "uma série de medidas de construção de confiança em relação ao programa nuclear."
Mohammad Eslami, chefe da Organização de Energia Atómica do Irão, disse que Teerão poderia considerar reduzir o nível de 60% de seus estoques de urânio enriquecido caso todas as sanções fossem suspensas em troca.
Está programado Netanyahu ir a Washington. É concebível que Netanyahu, que enfrenta eleições ainda este ano, pressione Trump a expandir o escopo das negociações nucleares com o Irão para incluir limitar mísseis balísticos e "acabar com o apoio ao eixo iraniano". Tal pedido seria inadmissível para o Irão e está desacordo com a realidade de que a opção militar contra o Irão pode estar esgotar-se.
Fonte - M.K. Bhadrakumar, As chances são de 8 para 1 de que Trump não inicie uma Guerra do Golfo
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