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17 de abril de 2026

A China contorna o bloqueio americano ao Irão

 O CENTCOM ousará entrar em guerra contra a China? Se a situação de bloqueio chegar ao limite, a Marinha da China está pronta para enviar ao Golfo de Omã uma força com contratorpedeiros capazes de escoltar seus mega petroleiros.

Pequim mostra que a administração Trump desesperada não conseguirá brincar de Piratas do Caribe – como Piratas de Ormuz – com a China. Enquanto isto, o petroleiro Rich Starry, de propriedade chinesa, navegando sob a bandeira do Malaui, vinculado à Shanghai Xianrun, partindo de Sharjah, nos EAU, cruzou o Estreito de Ormuz nesta terça-feira, exibindo a mensagem “China Owner & Crew” para os rastreadores. 

O presidente Xi Jinping foi direto nesta terça-feira: o Estado de Direito não pode ser “utilizado quando conveniente e descartado quando não for”. Ele acrescentou: “não devemos permitir que o mundo volte à lei da selva”.

O CENTCOM mencionou que o bloqueio é contra navios que entram ou saem de portos iranianos. O Rich Starry, tecnicamente, não era um alvo. O verdadeiro teste será quando um petroleiro chinês, partir de um porto iraniano.

O posto de controle iraniano evoluiu para um sistema detalhado de verificação em cinco níveis, aplicável a navios vindos de qualquer porto. Todas as embarcações que conseguiram atravessar recentemente – vindas da China, Índia, Paquistão e algumas outras nações amigas – utilizaram as mesmas estreitas rotas marítimas em águas territoriais iranianas, junto às ilhas de Qeshm e Larak.

Todos – exceto em casos especiais – precisam pagar a taxa de US$ 1 por barril, em bitcoin ou yuan. Isso é processado em menos de 5 segundos, recebendo o petroleiro uma senha VHF. Qualquer navio com seguro e acesso a portos ocidentais não passará.

O aspeto fascinante diz respeito à vasta frota-fantasma iraniana, já sob sanções severas. Com bloqueio ou não, vários petroleiros continuam carregando nos terminais iranianos. Há cerca de 160 milhões de barris de petróleo já flutuando fora do Estreito de Ormuz: isso significa que o Irão pode continuar a abastecer seus clientes na Ásia, especialmente a China, pelo menos até meados de julho.

Compare-se isto com a justificação de Trump para o seu ilegal bloqueio: “Não permitiremos que o Irã venda petróleo para quem quiser e não venda para quem não quiser. Será tudo ou nada.” “Que a China envie seus navios para nós. Envie-os para a Venezuela. Temos petróleo de sobra. Vamos até vendê-lo mais barato”.

Eis a prova de que o bloqueio está no cerne da guerra do petrodólar. O jogo de Trump não é vender petróleo; é tornar a China dependente do petrodólar. Mas Trump não pode impor um bloqueio naval sem uma frota. No momento, o USS Abraham Lincoln foi avistado no Golfo de Omã, a cerca de 200 km do sudeste do Irão: um alvo para os mísseis iranianos. Essa é a distância na qual as lavandarias dos porta-aviões americanos costumam pegar fogo... O USS George H.W. Bush e seu grupo de ataque de porta-aviões estão atualmente na costa da Namíbia. Precisam contornar a África porque têm receio de enfrentar o os Houthis no Estreito de Bab-al-Mandeb, embora a sua força dissuasória mal se compare ao poder de fogo aprimorado do Irão.

Mesmo que o bloqueio fosse realmente implementado, o Irão ainda teria maneiras de transportar petróleo por terra através da Eurásia até a China, por meio da ferrovia China-Irão, um projeto da Nova Rota da Seda/BRI. Como era de se esperar, um trecho foi bombardeado, mas já foi restaurado. O Irã pode fazer um acordo com o Turcomenistão para utilizar o gasoduto (também financiado pela China).

Três desenvolvimentos são essenciais para entender o que se passa:

1. O processo de aceitação da soberania iraniana sobre o Estreito de Ormuz já está em vigor, detalhes estão sendo negociados com Omã. O Japão já utilizou o sistema. A Coreia do Sul enviou um emissário a Teerão para discutir o assunto. Se Seul, um importante cliente asiático, fechar um acordo de tratamento preferencial, outros seguirão o exemplo. E não há nada que Washington possa fazer a respeito.

2. Putin deixou claro a Pezeshkian que a Rússia considera a segurança do Irão “intrinsecamente ligada” à sua. Portanto, qualquer agressão contra Teerão deve ser vista como uma grande desestabilização da Eurásia. Se os ativos iranianos permanecerem congelados ou se navios iranianos forem apreendidos, a Rússia poderá fornecer ao Irão “tecnologias sensíveis” – mísseis hipersônicos, por exemplo. Defendendo a ativação total do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul.

A mensagem de Putin para a Casa Branca é paralela à da China: se o CENTCOM ousar atacar navios iranianos, estará atacando o aliado estratégico da principal potência nuclear do mundo.

3. Sergey Lavrov, em visita oficial à China, mostra que a parceria estratégica Rússia-China, mais do que nunca, está em vigor. O triângulo Rússia-Irão-China está em vigor. Que bloqueio?

Fonte - Pepe Escobar: China Blockades the American Blockade of Iran

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