O IRÃO E A ARMADILHA DE TUCÍDIDES
Por Major-General Carlos Branco
O
preconceito e a sobranceria ideológica impediram os responsáveis
militares norte-americanos e israelitas de perceberem o grau de
preparação de Teerão para a guerra. Só isso explica a ingénua convicção
numa derrota fácil e rápida do Irão.
O
comportamento do presidente Donald Trump no seu segundo mandato
traz-nos à memória a Armadilha de Tucídides, um conceito geopolítico
desenvolvido por Graham Allison, em 2015, que descrevia o risco
estrutural de uma guerra ocorrer quando uma potência emergente ameaça
superar a potência consolidada. O receio da potência dominante ser
suplantada pela potência desafiadora da Ordem gera tensões que descambam
muitas vezes em guerras, algo que Allison observou em 12 dos 16 casos
por ele estudados.
Na
altura, Allison questionava se a China e os Estados Unidos conseguiriam
escapar à Armadilha de Tucídides. Segundo ele, “tendo em conta a
trajetória atual, uma guerra entre os EUA e a China nas próximas décadas
não é apenas possível, como é muito mais provável do que se possa neste
momento imaginar.”
Em
2012, durante a Administração Obama, a então secretária de estado
Hillary Clinton veio falar, pela primeira vez, no “pivô para a Ásia”
passando a considerar a China como a principal ameaça securitária dos
EUA, e, como tal, a prioridade da política externa das Administrações
que se lhe seguiram, travestida de várias nuances discursivas.
Em
2017, a RAND Corporation publicou um relatório sobre uma guerra entre
os EUA e a China, atribuindo a vitória aos primeiros, assumindo que esta
não evoluiria para o patamar estratégico nuclear. Há 10 anos o
resultado poderia, eventualmente, ser esse, hoje seguramente que não o
será, mesmo contando Washington com a preciosa ajuda dos aliados no
sudoeste asiático. Os EUA seriam incapazes de manter uma guerra de alta
intensidade prolongada, no Pacífico ocidental, um Teatro de Operações a
mais de 10 mil quilómetros da sua costa oeste.
Os
estrategos norte-americanos sabem que foi perdida a oportunidade de os
EUA infligirem uma derrota militar à China. A forma de a submeterem à
sua vontade tinha de ser agora revista. A ameaça sistemática do uso da
força para obrigar à genuflexão de Pequim tinha-se tornado anacrónica. A
nova estratégia passava por quebrar a entretanto formada coligação anti
hegemónica russo-chinesa degradando, em primeiro lugar, as capacidades
do seu elo mais fraco, o que exigia uma mudança de regime em Moscovo, e
colocar no poder segmentos da elite russa favoráveis a novas alianças e
parceiros estratégicos.
Essa
operação desenvolveu-se em três frentes, com a Ucrânia a desempenhar um
papel crucial nesse projeto. É, segundo este prisma, que se devem
interpretar os acontecimentos instigados por Washington na Ucrânia, no
século XXI – a revolução laranja, em 2004, e o golpe de estado de
Maidan, em 2014, que derrubou um presidente democraticamente eleito –,
para colocar no poder atores hostis a Moscovo.
Esses
desenvolvimentos criaram as condições objetivas e subjetivas para a
invasão, primeiro da Crimeia, ainda em 2014, e da própria Ucrânia, em
fevereiro de 2022, empurrando a Rússia para uma guerra de atrito
indesejada. Passados quatro anos de guerra, Washington ainda não
conseguiu exaurir a Rússia nem colocar uma “Delcy Rodriguez” no Kremlin.
Em vez de criar brechas nessa coligação, as ações de Washington
reforçaram-na, transformando-a numa parceria estratégica.
A
execução desse projeto hegemónico não corria bem a Washington. No seu
primeiro mandato, Trump adotou políticas comerciais agressivas contra a
China, que o seu sucessor Joe Biden não revogou. No seu segundo mandato,
Trump voltou à carga de um modo muito mais assertivo, tentando sem
sucesso dobrar a China recorrendo a uma ofensiva tarifária sem
precedentes.
Mas havia
ainda uma modalidade de ação por explorar. Frustrada a hipótese de
provocar uma divisão entre a China e a Rússia e bater os seus opositores
por partes, restava ainda a Washington a possibilidade de jogar a
cartada iraniana. Em colaboração com Israel, podia atuar sobre o
terceiro pilar da aliança anti hegemónica, tremendamente fustigado por
décadas de sanções.
Lembremo-nos
do que escreveu Brzezinski: a maior ameaça à hegemonia norte-americana é
a criação de uma aliança anti hegemónica China-Rússia-Irão, que, por
sinal, se encontrava em fase de consolidação. Seria uma tremenda vitória
estratégica para Washington colocar o Irão na sua área de influência,
um país decisivo para as estratégias chinesa e russa. Uma mudança de
regime em Teerão constituiria uma estocada demolidora nessa aliança anti
hegemónica. Se conseguisse isso, não só infligiria uma derrota
estratégica à China e à Rússia, como Washington se colocaria numa
posição de extrema vantagem na competição pelo lugar cimeiro na Ordem
Mundial. Abriria as portas ao regresso à unipolaridade com um centro a
decidir tudo, como aconteceu após a implosão da União Soviética.
Os
EUA tinham agora pela frente uma aliança desafiadora da sua posição
dominante cujas partes, com diferentes capacidades estratégicas,
representavam isoladamente desafios distintos. Se no caso da China as
ferramentas empregues pelos EUA não tinham até agora passado pela
confrontação militar direta – o uso da força contra a China tinha-se
tornado algo razoavelmente impensável –, já o mesmo não se poderia dizer
relativamente à Rússia, sujeita a confrontação militar indireta através
do proxy ucraniano, que apoiavam e apoiam militarmente, e direta contra
o Irão.
O futuro do
conflito militar com o Irão é cada vez mais incerto, encontrando-se a
vitória militar de Washington cada vez mais distante. Os ataques do Irão
obrigaram as forças norte-americanas a abandonar as suas bases no Médio
Oriente. O preconceito e a sobranceria ideológica impediram os
responsáveis militares norte-americanos e israelitas de perceberem o
grau de preparação de Teerão para a guerra. Só isso explica a ingénua
convicção numa derrota fácil e rápida do Irão.
O
Irão iniciou a preparação para o embate em curso há quatro décadas.
Começou em 1984, ainda durante a guerra com o Iraque, quando enviou
treze oficiais à Síria aprenderem sobre algo que ninguém lhes iria
vender, dando início à criação, a partir do zero, de uma capacidade
balística própria, recorrendo primeiro à reversão tecnológica para
posteriormente se lançar em programas de investigação e desenvolvimento
envolvendo as universidades.
Os
desenvolvimentos no campo de batalha após quatro semanas de guerra,
cada vez mais desfavoráveis à aliança israelo-americana, levantam duas
interrogações incontornáveis. Qual será a reação de Trump quando, sem
espaço para recuar, não lhe for mais possível escamotear a derrota
estratégica e a sua ambição hegemónica ficar irremediavelmente
comprometida pela aventura militar contra o Irão? Qual será a resposta
de Netanyahu quando se convencer de que vai sair derrotado desta
confrontação, tendo em conta que não é um ator político racional e que
guia a sua ação por princípios escatológicos?
A
conjugação de um decisor pueril e imaturo, em Washington, com outro
motivado pela inspiração divina, em Telavive, cria um caldo explosivo
propício a uma confrontação generalizada. Não será por acaso que já
surgem no espaço público comentadores associados à embaixada de Israel a
advogarem abertamente o bombardeamento nuclear do Irão.
Se
analisada de um outro prisma, a Armadilha de Tucídides pode ajudar-nos a
entender melhor o momento em que nos encontramos, não da confrontação
direta entre a potência dominante e a potência desafiadora, mas da sua
antecâmara. A dimensão dos danos reputacionais e geoestratégicos da
previsível derrota norte-americana poderá ser inaceitável para
Washington e, por acréscimo, para Telavive. Esta situação e a conhecida
ausência de racionalidade destes dois atores coloca em cima da mesa a
probabilidade de apostarem numa solução de soma negativa. Perante a
ameaça que isso colocará à humanidade, não deixa de surpreender a
passividade de certos atores internacionais face à eventualidade de um
desfecho dramático para todos.
in Jornal Económico, 31/03/2026)
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