Linha de separação


24 de março de 2012

A “MODERNIDADE” DO TRABALHO À PEÇA

Com as alterações que se pretendem introduzir na legislação laboral, o patronato passaria a dispor de poderosíssimos instrumentos legais, mas que podem ser classificados de odiosos (1) , pois violam direitos humanos fundamentais. Na realidade, o poder do capital passa a poder exercer-se de forma praticamente arbitrária.
As “mudanças estruturais” e as “reformas” foram e são uma espécie de exorcismos, palavras mágicas, alienatórias, para promover falsas promessas e encobrir as verdadeiras intenções das políticas neoliberais: o seu objetivo é conseguirem algo semelhante ao Estatuto Nacional do Trabalho fascista. A pressão a que os trabalhadores estão de forma crescente a ser sujeitos é intolerável e inqualificável em regime democrático.
Tornar-se despedimento “com justa causa” o não cumprimento de objetivos é permitir-se o retorno ao “salário à peça”. Algo a que a nascente ação sindical no século XIX quis desde logo por cobro.
Vejamos como são definidos os objetivos. O voto piedoso de resultarem de acordo não colhe. As imposições resultantes das encomendas e de contratos, mesmo da parte do Estado, impondo prazos e condições com exigências leoninas vão transmitir-se diretamente aos trabalhadores sob a égide da concorrência desenfreada – acentuada pela recessão - da desregulamentação dos mercados e finalmente pela ausência de planeamento e adequada regulação, melhor dizendo, coordenação económica, por parte do Estado. O neoliberalismo assim exige…em nome das “mudanças estruturais”. São as suas “reformas”.
No limiar da pobreza e da subsistência, sob a opressiva insegurança da precariedade os trabalhadores serão levados a tudo aceitarem - sob a ameaça de despedimento - para cumprir os objetivos traçados pelo patronato: ultrapassar horários de trabalho, trabalhar no limite da exaustão física e nervosa.
Antes do 25 de Abril, a classe operária lutou e conseguiu de uma forma geral acabar com o trabalho a prémio, forma indireta de “trabalho à peça” que conduzia à quase exaustão e a danos físicos, também pelo acréscimo de acidentes que provocava. Porém, agora o único prémio previsto é poderem continuar em precariedade, sem direitos, com salários de pobreza.
Note-se ainda que este gravíssimo problema se estende a todos os níveis de trabalhadores por conta de outrem – que constituem o proletariado, recordemos – incluindo os quadros técnicos, jovens licenciados e outros trabalhadores mesmo da esfera dos serviços submetidos a esta pressão. São exemplos, os objetivos determinados – sem qualquer acordo dos trabalhadores – nas áreas da saúde ou da educação.
O objetivo destas leis é estabelecer a concorrência entre trabalhadores procurando destruir a sua união consequentemente refletida na força sindical.
A clique neoliberal ao serviço da exploração desenfreada, com o álibi da “competitividade”, faz passar a imagem de um patronato de almas caridosas e patrióticas acima de qualquer suspeita face a um proletariado tendencialmente golpista, sorna, pouco honesto que deve ser tratado como tal, segundo o lema: todos são culpados até prova em contrário sujeitos à ditadura empresarial.
Este tipo de ideologia está também subjacente nas medidas contra o “despesismo” e os “abusos”, que servem de justificação para a redução das prestações sociais, como o escandaloso aumento das “taxas moderadoras”. Claro que na política de direita as rendas das PPP e dos monopólios não são “despesismo”.
A democracia não pode terminar à porta das empresas ou serviços como pretendem as políticas de direita. A única solução é promover a superação, deste modelo de sociedade. Como? Lutando por isso, tal como no passado.
1 . Segundo o direito internacional todo o pacto acordado em condições que imponham a aplicação de políticas violando os direitos humanos é odioso.

O Pinóquio de Massamá

Passos Coelho afirmou ontem no Congresso do PSD , sem se rir, que estava no governo a cumprir o que tinha prometido.
Mais á frente , também sem se rir  disse que o governo não privilegiava nenhum grupo económico !
Mas quem não deixou de rir ao ouvirem estas declarações foram o srs Ulrich , Ricardo Espírito Santo e outros beneméritos da economia portuguesa.

23 de março de 2012

A lotaria na economia de casino

A economia de casino
Segundo os últimos dados publicados  pelo Banco de Pagamentos Internacional (BRI) o montante nominal dos produtos derivados* OTC (over- the - counter ) ultrapassa os 708000 milhares de milhão de dólares, cerca de 16 vezes o produto mundial (PIB) , o que nós dá a ideia da colossal especulação e jogo de roleta impulsionado pelo sistema bancário .
Apesar da crise este sector financeiro continua a crescer exponencialmente em relação à  chamada economia real. E  é um autentico jogo de lotaria!
Quando rebentar lá virá de novo a factura para os povos e os trabalhadores
_________
* Derivados (derivatives) são instrumentos financeiros cujo valor deriva do valor de outras coisas. Geralmente tomam a forma de contratos, que estabelecem trocas de dinheiro (cash flows) entre duas partes, numa data futura. O montante destas trocas, ou pagamentos, pode variar com base no valor de um activo subjacente (underlying asset). A duração dos contratos pode ir desde alguns meses a 20 ou mais anos.
Quando se negoceia um derivado estamos no mercado a prazo (forward market) já que se contrata hoje mas só se entrega amanhã. O seu principal uso é a cobertura do risco (hedging) de uma das partes do contrato, transferindo esse risco para acontraparte, que o aceita em troca de um retorno potencialmente substancial. Os derivados são também amplamente utilizados para especulação, nomeadamente quando se trata de derivados padronizados, cotados em mercados regulamentados.
A vasta gama de riscos que se pode pretender transferir, ou seja, de possíveis activos subjacentes e de alternativas de pagamento, deu lugar a que um número imenso de contratos de derivados estejam disponíveis para negociação nos mercados. Os principais tipos de derivados são os futuros (futures), os contratos a prazo (forwards), as opções (options) e os swaps. Os derivados podem ter como activos subjacentes mercadorias e matérias-primas, acções, obrigações, taxas de juro, taxas de câmbio, ou índices (tais como índices de acções, índices de preços no consumidor (inflação), índices sobre condições atmosféricas, ou até índices sobre outros derivados). É o desempenho destes activos e índices que determina tanto o montante como o ritmo dos pagamentos que resultam do derivado.
O uso de derivados ,  leva a grandes  endividamentos( alavancagens) cujos prejuízos podem exceder largamente o capital investido nestes instrumentos.

O exemplo da Irlanda

Quantas vezes nos citaram o bom exemplo da Irlanda ?  Portugal está mais próximo da Irlanda do que da Grécia diziam.
A Irlanda é a prova de que as medidas da troika  dão resultado, afirmavam.  A Irlanda Já está a crescer sustentadamente repetiam !
Os últimos dados agora publicados o que nos mostram?
Que a Irlanda entrou de novo em recessão e com o desemprego acima dos 14% !
Agora  comentadores encartados , membros do governo  e Comissão Europeia  remetem-se  ao conveniente silêncio

22 de março de 2012

A reestruturação da dívida

Quando a banca já ensaia a hipótese!
A economista chefe do banco do Sr Ulrich!, numa circular enviada a clientes ensaiou a hipótese da reestruturação da dívida pública portuguesa  com anulação de dívida, concluindo que uma perda de valor nominal de 50% por parte dos credores privados implicaria uma redução de valor da dívida de cerca de 36 mil milhões de euros e colocaria Portugal numa situação melhor que a Itália,Irlanda, ou a Bélgica !
Claro que na nota se acrescenta imediatamente que se confere "uma baixa probabilidade a esta hipótese ", mas a verdade  é que o BPI achou por bem ensaiá-la . Lá saberá porquê ...
E repare-se que ao afirmar que a hipótese  tem uma baixa probabilidade está a admitir-se que ela se verifique . Quem diria que o banco do sr Ulrich viria a admitir tal sacrilégio...
Ainda  ouviremos dizer  a alguns dos nossos comentadores encartados: se à Grécia foi anulada cera de 70 % da dívida detida pelos privados porque é que a Portugal está excluído ?

21 de março de 2012

O QUE É PRECISO PARA SER DE ESQUERDA?

“A direita europeia mimetiza os revolucionários do passado e postula a existência de amanhãs que cantam. Sob a destruição do presente, surgirá necessariamente um futuro radiante, próspero e redentor. Lenine não o diria melhor”
Este o final de um artigo do sr. João Galamba, no Le Monde Diplomatic – MARÇO 2012.
Penso que devemos desculpar o disparate - pois pode ter origem na má ou na falta de informação - gracinhas é que não.
No texto referido critica-se o recente "Tratado de Estabilidade e Governação" da UE e a economia da austeridade e suas consequências. Não podemos estar mais de acordo. Porém são críticas muito pouco consequentes com o que votou no passado e na forma como continua a votar atualmente.
É isto que me leva a questionar: o que é preciso para ser de esquerda? Criticar as políticas de direita, tal como a direita criticava como sendo de esquerda o que no essencial eram as mesmas políticas de austeridade e enfeudamento ao neoliberalismo da UE? Ser de esquerda tem que ser mais do que “mimetizar” os reacionários do presente…
Ser de esquerda terá que ver também com varrer as teias de aranhas ideológicas e procurar informar-se confrontando factos e opiniões não gerados e controlados pelas centrais de informação do sistema.
O autor do artigo que diga e vote como entender, mas não diga disparates nem gracinhas, tratando com sobranceria que me parece próxima do desprezo os revolucionários do passado que deram o melhor das suas vidas, a sua própria vida e sofrimentos inenarráveis em nome dos “amanhãs que cantam”. Expressão que esconde toda a tragédia dos “mortos sem sepultura” que lutaram por todos nós, por toda a Humanidade. Também por aquilo que neste país e em todo a Europa a direita está a destruir aceleradamente com a anuência ou com a cumplicidade de partidos que se dizem de “esquerda”.
Quanto à questão de Lenine ser uma espécie de vândalo, um huno, um chefe de bárbaros criminosos, está enganado. Quem destruiu a Rússia nos anos seguintes à Revolução de Outubro foi a intervenção estrangeira de países como a França, Reino Unido, Alemanha, EUA em aliança com tudo o que de mais reacionário e criminoso havia na Rússia de então. Lenine fez a revolução em Petersburgo sem derramar sangue e em Moscovo houve apenas uma pequena escaramuça. Quis no seu governo vários partidos e tendências, mas o que o malquistou com partidos que se diziam de esquerda foi querer por em prática aspetos que justamente faziam parte dos programas de vários desses partidos: foi a questão da paz – que todos diziam querer – foi a entrega da terra aos camponeses e liberta-los da opressão e arbitrariedade, foi o controlo operário nas fábricas e serviços para evitar a sabotagem e garantir a produção.  H.G.Wells classificou-o como “o sonhador do Kremlin”. Enquanto os fuzilamentos e massacres e a obra de terra queimada prosseguia sob o comando das potências capitalistas, Lenine protegia os tesouros artísticos da Rússia, fomentava-se a cultura, dava inicio a algo desconhecido até ali: ao que podemos talvez classificar como “estado social”, e ao planeamento económico nacional, com o GOELRO, pondo em prática a electrificação e o poder dos sovietes. Seria isto destruir? O chamado comunismo de guerra o recurso económico face à barbárie imperialista da democracia burguesa (isto é, dos grandes detentores de capital) e da fome que originou. Quando a guerra terminou este modelo foi desde logo abandonado. E quem quiser seriamente saber o que se passou sem ser informação controlada pela CIA e quejandos, consulte www.historia do socialismo .
Parece que para certas pessoas, ser esquerda “responsável” passa por ser tratado pela direita como animal doméstico de estimação – e disciplinado como tal – e por mostrar “ativo repúdio de todas as ideias comunistas e todas as formas de subversão”, à semelhança do que o fascismo obrigava os funcionários a assinarem.
Ter ativo repúdio dos monopólios e latifúndios (ou o seu sucedâneo os oligopólios da produção e distribuição agroalimentar) seria um bom princípio para se ser de esquerda, embora muito pouco, contra isto já eram os clássicos do liberalismo. Terá alguma lógica nem isto prezar e considerar-se de esquerda?
Afinal o que é preciso para entrar no reino dos céus? - perguntou o jovem a Jesus. Talvez convenha atentar no que Cristo recomendou.
Não basta para se considerar de esquerda criticar a direita. Na minha opinião, a esquerda terá  de defender que na sociedade vigore não a lei fundamental do capitalismo – a maximização do lucro – mas a maximização dos benefícios sociais. Tema que vale a pena abordar.

19 de março de 2012

Os Falsários


OS FALSÁRIOS
O presidente (CEO) de um grande Fundo de Investimentos (PIMCO) afirmou que Portugal vai necessitar de um segundo resgate e  que Lisboa poderá seguir o mesmo caminho de Atenas. Sobre esta notícia o comentador da antena1 para os assuntos económicos veio dizer que há muito tempo  se sabe (desde que se assinou o acordo de assistência) que Portugal não vai conseguir ir aos mercados e que terá um novo «plano de resgate»! E acrescentou ainda que o que é mau é que se fale disso cá dentro! Porquê? Porque
se está a dar indicações aos mercados!!!

Coitado! Como se os "mercados" se deixassem enganar pelo facto de não se falar no assunto!


Dizer  que toda a gente sabe desde o início que Portugal não vai ser capaz de ir aos mercados e que  vai precisar de  um novo plano de resgate é falso a começar por ele e é uma habilidade que os desonestos intelectualmente usam quando estão confrontados com a evidência.

Afirmar o que o governo de Sócrates também dizia: «que não precisava de ajuda» e que na altura não podia dizer outra coisa , para justificar a negação do actual governo português de que não vai precisar de um novo plano de resgate é outra desonestidade intelectual

Será que quando seguimos o caminho da Grécia tal comentador encartado também vai dizer que já se sabia? E quando tivermos que reestruturar a dívida também continuará a afirmar que era o ovo de Colombo?
 Grande aldrabão!

Como já foi afirmado , um dos arquitectos da reestruturação da dívida grega, o americano Mitu Gulati, numa entrevista a um jornal económico afirmou na semana passada que «Portugal devia aproveitar o exemplo grego e avançar já com uma reestruturação mais suave e voluntária da dívida pública». E acrescentava que o devia fazer já para não o fazer quando estiver totalmente nas mãos da troika.
 Nessa altura o nosso comentador de serviço vai dizer que toda a gente sabe que o Governo se atrasou !!!