Linha de separação


20 de setembro de 2026

Larry Johnson escreve de Moscovo

Larry Johnson, antigo analista da CIA, escreve sobre a sua visita a Moscovo, relatando o que viu e ouviu. A sua primeira impressão é a distância entre a realidade e o descrito pelos media. Moscovo e São Petersburgo são prósperas, modernas e vibrantes. As ruas são limpas e seguras. Não estão como grandes cidades dos EUA cheias de sem abrigo ou mendigos.

No Ocidente diz-se que a Rússia está à beira da rutura, as cidades em crise. O que vejo é uma economia, apesar das sanções, indo melhor que as ocidentais: as prateleiras estão cheias, os restaurantes lotados. As pessoas trabalham, gastam, constroem.

A imprensa ocidental não se atreve a dizer isto. Há anos que prevê uma crise financeira russa que não acontece, como é visível na Avenida Nevsky em São Petersburgo ou na Rua Tverskaya em Moscou. Não há corrida bancária nem rublo em queda livre. As sanções deveriam destruir o país foram um fracasso. Compare-se o clima nessas ruas com Londres ou a decadência das grandes cidades americanas. Como e porquê se supôs que a Rússia não sobreviveria às sanções?

Larry Johnson, o prof. Mearsheimer, o juiz Andrew Napolitano e ex-diplomata Alastair Crooke, jantaram com Lavrov e o vice-ministro Ryabkov. Foi informal e das respostas de Lavrov conclui-se: a posição negociadora da Rússia com o Ocidente não cedeu em nada do que Putin definiu em junho de 2024. O Ocidente deve reconhecer Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson, assim como a Crimeia, como território russo permanente. Isto é considerado facto estabelecido. Além disso, a Rússia está construindo zonas tampão graças aos avanços em Sumy, Kharkiv e Dnipropetrovsk. Estes territórios poderiam, com o tempo, ser incorporados, embora decidido por voto ou plebiscito.

O espaço para um acordo é extremamente estreito porque a Rússia não está disposta a fazer concessões que o Ocidente pretende nem acha que deveria. Putin fala sobre "causas profundas" do conflito, raramente (ou nunca) somos informados sobre o seu significado. Um membro da Duma, explicou que o projeto americano de atrair a Ucrânia para a órbita da NATO e usá-la como aríete contra a Rússia deve acabar, não uma pausa, definitivamente acabar. Não haverá mais tolerância para as atividades da NATO na Ucrânia, e a política externa e militar da Ucrânia deve ser definitivamente separada do ocidente. Isto é inegociável, o resto é detalhe.

A Ucrânia ingressou na Parceria para a Paz da NATO em 1994 desenvolvendo estas relações militares de forma constante. A base militar de Yavoriv, no oeste da Ucrânia, tornou-se um local para exercícios ocidentais nos anos 1990. Após 2015, abrigou uma missão liderada pelos EUA, tornando-se um dos locais de frequentes exercícios da NATO; exercícios que não deixaram dúvidas sobre ter a Rússia como adversário. Muitos consideram que Putin demonstrou paciência que o Ocidente confundiu com fraqueza.

A guerra não é o que ocupa o russo médio: nas duas grandes cidades a vida continua como se a guerra acontecesse noutro continente. Esta lacuna entre a posição maximalista do Estado e a quase normalidade da vida civil significa um país suficientemente estabelecido e convencido do seu direito de não ceder.

Conversei com três militares russos, aposentados e em serviço, com pontos de vista diferentes, mas uma mensagem comum: a Rússia não vai atacar a Europa. Não tem planos militares para a Europa e nenhuma intenção de iniciar essa luta. Mas se nos atacarem estamos preparados.

Veem uma Europa que se prepara para atacá-los e não apenas na retórica de líderes como o chanceler alemão ou o primeiro-ministro britânico. Há passos concretos para além das palavras: sistemas de armas, especialmente mísseis, construídos para serem usados contra território russo. Se essas atividades continuarem, a Rússia terá de enfrentar a ameaça, e a perspetiva de guerra com a Europa será real. É assim que aqueles militares interpretam o que observam.

A Rússia entrou numa nova fase da guerra na Ucrânia, um esforço deliberado para encerrá-la. A Rússia procurou limitar suas próprias perdas, não se lançando contra posições fixas, onde as baixas seriam severas, mas confiando em táticas usando pequenas unidades.

Esta contenção acabou. A costa do Mar Negro da Ucrânia foi fechada para o comércio, submete os polos logísticos em Kiev e outras cidades a ataques consecutivos e acelera avanços terrestres ao longo da linha de contacto. Esta mudança resultou no cerco de Slaviansk e Kramatorsk, e ganhos importantes em Zaporizhzhia. Até ao final do ano Donetsk poderá estar totalmente sob controle russo e Zaporizhzhia, grande cidade industrial, capital do Dnipro, diretamente ameaçada de ocupação.

O povo russo está a votar. Há pelo menos cinco partidos (1) disputando assentos na Duma. É, apesar da caricatura ocidental, uma democracia construída segundo a cultura russa e os ideais russos, e não uma cópia da de outros países. Atualmente, é a quarta maior economia do mundo em paridade de poder de compra, inovadora em tecnologia e ricamente dotada de recursos.

Fonte - Notícias de Moscovo: A narrativa do colapso esconde a verdadeira Rússia

1 - O Yabloco, partido neoliberal, foi impedido de concorrer pelo Supremo Tribunal, basicamente por receber financiamento do estrangeiro e adotar a posição ocidental sobre os novos territórios incorporados na Rússia por referendo, considerado pedir a violação da integridade territorial da Rússia. Em 2003 obteve 4,3% de votos; 2007, 1,59%; 2011, 3,43%; 2021, 1,43%.



Sem comentários: