Chris Hedges é um premiado jornalista e autor, ex-correspondente do New York Times. Identificando-se como como socialista. Nos seus livros Death of the Liberal Class e Empire of Illusion o liberalismo é fortemente criticado.
Obviamente marginalizado, permanece apenas com a ajuda dos leitores. "As paredes estão-se fechando com uma rapidez surpreendente sobre o jornalismo independente, com as elites, incluindo as do Partido Democrata, clamando por mais e mais censura."
Num seu texto, "America's New Class War", 18/01/2022, no Scheerpost, escreveu: "A luta de classes define a maior parte da história humana. Marx estava certo nisso. Não é novo. Os ricos, ao longo da história, encontraram maneiras de subjugar e tornar a subjugar as massas. E as massas, ao longo da história, acordaram ciclicamente para se livrar de suas correntes."
O seu texto sobre os EUA e a sua decadência, aplica-se ao que se passa nomeadamente na Europa, levando-nos a refletir também sobre o que ocorre em Portugal.
A marcha suicida dos Estados Unidos começou muito antes de Donald Trump e sua bizarra corte de palhaços, bajuladores, vigaristas e fascistas cristãos tomarem o poder. São o inevitável capítulo final do império decadente. Capitulo que começou quando a classe dominante, especialmente sob Reagan e Clinton, se propôs explorar o país e o império para lucro pessoal.
As civilizações, como argumentou o historiador Arnold Toynbee, "morrem por suicídio, não por assassinato." Desmoronam por dentro. Caem vítimas da decadência moral, social e espiritual. São tomadas por uma classe dominante parasitária. As instituições democráticas são paralisadas. A população é empobrecida, a riqueza é canalizada para a classe dominante e a coerção é a principal forma de controlo.
Existe uma palavra para essas pessoas. Traidores. Esses traidores, instalados na liderança dos partidos governantes, tiraram-nos os bens e o poder aos poucos. Usaram subterfúgios, mentiras e legalizaram o suborno. Fingiam honrar a política eleitoral, a imprensa livre e o Estado de Direito enquanto subvertiam todos esses pilares democráticos. O sistema, por mais falho que fosse, foi esvaziado, entregue a amorais e idiotas dispostos a obedecer à classe multimilionária.
Armados com milhares de milhões pelo inimigo mortal do demos (povo), os oligarcas e as grandes corporações, as elites políticas destruíram as carreiras dos políticos que resistiam.
Esmagaram os sindicatos. Colocaram jornalistas honestos na lista negra e consolidaram a imprensa nas mãos de um punhado de corporações e oligarcas. Anularam a legislação que restringia a ganância desenfreada e protegiam a população de corporações predatórias e toxinas ambientais.
Aprovaram a legislação que criou uma isenção fiscal de facto para os ricos - Trump ficou famoso por não pagar impostos federais de rendimento em 10 dos 15 anos anteriores à sua presidência - enquanto retiravam a indústria do país e deixavam cerca de 30 milhões de pessoas desempregadas.
A riqueza não é mais criada produzindo. É criada manipulando os preços de ações e bens essenciais (commodities) e impondo uma submissão de dívidas esmagadoras ao público. Esses parasitas cortaram ou aboliram programas sociais, militarizaram a polícia, construíram nos EUA o maior sistema prisional do mundo e investiram fundos numa enorme indústria de guerra fora de controlo.
O socialista e político alemão Karl Liebknecht, nas vésperas da loucura suicida da Primeira Guerra Mundial, chamou os imperialistas alemães de "o inimigo interno." Os governantes dos EUA, inimigos do seu próprio país, travaram uma série de guerras inúteis que degradaram a hegemonia imperial e despejaram milhões de milhões de dólares do dinheiro dos contribuintes nas suas contas bancárias. O Irão é o exemplo mais recente.
Quanto mais o poder decrescente do império se torna evidente, evidenciado pelo fiasco de Trump com o Irão, mais a opinião pública confundida se refugia num mundo de fantasia, num mundo onde os factos duros e desagradáveis não interferem.
Nos últimos dias de uma civilização, a população afunda-se em ilusões que são promovidas e exibe-se na arrogância de falsas virtudes e princípios que não são praticados. Busca bodes expiatórios para explicar seus fracassos, os muçulmanos, os trabalhadores ilegais, mexicanos, afro-americanos, feministas, intelectuais, artistas e dissidentes.
O pensamento mágico e o mito do execionalismo americano dominam o discurso público e são ensinados nas escolas. Arte e cultura são degradadas ao kitsch nacionalista. A ciência é descartada, mesmo no meio da crise ambiental. Cultura e disciplinas intelectuais que nos permitem ver o mundo pela perspetiva do outro, que promovem empatia, compreensão e compaixão, são substituídas por uma superioridade grotesca e cruel e por hipermilitarismo.
Escrevi em America The Farewell Tour: "Trump não é uma anomalia", é o rosto grotesco de uma democracia colapsada. Ele incorpora o que veio antes dele, embora sem a fachada liberal.
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