OS NÁUFRAGOS DA DECÊNCIA
Rui Pereira
Há
mais de seis décadas que Cuba é vítima de um crime de lesa-humanidade, o
bloqueio inumano promovido pelos Estados Unidos desde 1960, ano após
ano maciçamente condenado pela Assembleia Geral da ONU e por quem,
conhecendo a situação, conserve um pingo de decência.
Agora,
o parlamento português aprovou um voto infame que, em vez de condenar o
cerco contra Cuba e o seu povo (ou a par desta condenação, como se as
duas coisas fossem iguais), se pronuncia pela liberalidade da política
interna cubana, à luz do que o "Ocidente" chama "democracia".
Tentar
exterminar pela sede, pela fome, com bombas ou sem bombas (já houve as
duas versões) um povo inteiro, como faz Trump e fizeram todos os
presidentes norte-americanos contra os cubanos, eis a democrática
liberalidade aprovada pelos deputados portugueses.
Com
excepção de três: Paula Santos, Alfredo Maia e Paulo Raimundo. Ou seja,
o grupo parlamentar do Partido Comunista Português, pagando por isso o
preço do isolamento, do insulto, da chacota, do ódio político
tipicamente burguês que lhe é historicamente dedicado.
Dos
neoliberais que herdam a tradição de governo económico do Chile após o
golpe de Estado fascista da Junta Militar de Pinochet, não se espera que
façam outra coisa que não a sua cumplicidade com o neofascismo, um dado
histórico do chamado neoliberalismo, como ficou demonstrado em
Santiago, a partir de setembro de 1973.
Do
oportunismo mais ou menos delictivo da chamada extrema-direita (Chega),
que está para o neofascismo como a cortina está para o palco antes de
começar o teatro, idem. Mas aqui, o caso é mais de polícia que de
política.
Dos PS, o com D e o sem D (ditos
"socialistas" ou ditos "social-democratas"), também não vale a pena
esperar muito mais. A decência uma vez perdida dificilmente se recupera e
esta perdeu-se em 1914.
Dos deputados únicos,
eleitos por causas mais ou menos sectoriais, sem uma política ou uma
doutrina que os sustente, poderá dizer-se que votam "à zona", consoante a
negociação dos seus assuntos em cada momento (Partido dos Animais -PAN
ou JPP, do arquipélago da Madeira).
Já os partidos
que se reivindicam de esquerda, o Livre na sua vocação futura de
apêndice do PS sem D (ou mesmo com D, quem sabe?) o mundo visto pela
janela dos gabinetes políticos ou académicos tem um perfume burguês que
não deixa sentir o que se sabe, nem saber o que se sente. O pesadelo,
ali, é climatizado, como diria Henry Miller. E a vida sorri, sempre,
conquanto a carreira de subir na vida corra bem ao alpinista.
O
Bloco de Esquerda também apresentou uma moção. Essencialmente voltada
contra o bloqueio a Cuba, lá tinha a menção aos "presos políticos" do
regime cubano, acabando, por fim, a votar favoravelmente o documento
neofascista. E, aqui, o assunto fia mais fino. Qualquer cidadão
português de esquerda não compreende como o Bloco -oriundo do maoísmo,
trotskismo e das diferentes correntes 'renovadoras comunistas'", ou
seja, gente que sabe História- leva o oportunismo ao extremo da
indecência. O que se está a praticar em Cuba, não de agora mas de há
décadas, é o estrangulamento nomeadamente militar (o BE talvez lhe
chamasse "terrorista" se fosse ao contrário) da revolução cubana, nem
que para isso seja necessário chegar ao risco de extermínio do seu povo.
O
Bloco, por mais eternamente adolescente que seja a sua condição de
esquerda, não pode colocar no mesmo plano a situação de um conjunto de
pessoas presas por oposição, muitas vezes armada, ao regime -como
aconteceu em Portugal, quando gente pegou em armas nos anos 1980, como
bem sabem os bloquistas- e o sangramento do povo cubano pela mais
sórdida forma de guerra, o cerco. O modelo da peste e da lepra, como lhe
chamou Michel Foucault, que no Bloco há quem saiba de quem se trata.
Quando
escreveu "naufrágio com espectador", o filósofo alemão Hans Blumernberg
sustentava que a grande, e porventura imoral, vantagem de ser
espectador de um naufrágio consistia em não ser o náufrago. Mas, há
naufrágios, como este, da decência, em que, pela sua actuação, os
próprios espectadores se tornam náufragos de si mesmos. E cabe
acrescentar que não tenho gosto algum nesta inevitável constatação.
Na imagem: publicação da "Iniciativa Liberal" glorificando os resultados da votação da sua moção anti-Cuba.
Na ligação: notícia do DN sobre as votações parlamentares: https://www.dnoticias.pt/2026/ 5/8/491297-parlamento- portugues-aprova-resolucoes- contra-regime-de-havana-e- bloqueio-dos-eua/
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