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23 de maio de 2026

Os EUA e a “guerra até o fim” de Israel - 1

 A guerra permanente de Israel tornou-se um elemento pode dizer-se decisivo no declínio dos Estados Unidos. Hoje vemos que as premissas que levaram tanto Trump como Nethanyahu a atacar cobardemente o Irão levam os EUA e Israel a uma situação em que a sua hegemonia no Médio Oriente se está a desintegrar e dificilmente pode ser recuperada.

A qualificação de ataque cobarde, tem que ver por se realizar enquanto decorriam negociações, matando - assassinando - negociadores e dirigentes e familiares do Estado com o qual negociavam. Por mais branqueamento que a propaganda pretenda, trata-se de um inqualificável ato terrorista, só possível por personagens que se julgam absolutamente impunes. Aos vencedores ninguém pede contas, era o lema nazi para as suas atrocidades. Pois é, mas nem os EUA e muito menos Israel podem reivindicar vitória no Médio Oriente, muito pelo contrário. O único que provocaram e Israel promove é terror e morticínio contra populações civis.

Trump alinhou no conceito de "guerra permanente" de Israel (denominada “Segurança Permanente") pensando estabelecer de forma "definitiva" a hegemonia americana, garantida por Israel. A arrogância da "famosa" Mossad e o "maior exército" do Médio Oriente tombaram perante a resiliência e preparação do Irão. Sem os apoios e dinheiro dos EUA e aliados, nomeadamente da UE, Israel caminharia para a situação da Ucrânia um Estado falido.

A ilusão de uma "vitória decisiva" sobre o Irão, e por arrasto sobre todo o Médio Oriente, levaram a crise às economias, principalmente da UE, mas também dos EUA e à sua posição estratégica global.

A China apoia a luta do Irão pela soberania, partilhando com a Rússia o objetivo iraniano de ver os EUA fora do Médio Oriente, substituída por uma arquitetura de segurança com os países do Golfo, para substituir a americana.

Para Pequim os EUA estão à beira de uma crise económica inflacionária, enquanto a China está amplamente protegida do choque energético global que se aproxima e está em deflação de preços, em vez de inflação. Porém, a quebra da posição dos Estados Unidos como hegemonia unipolar, não deixa de apresentar riscos de instabilidade global e pode levar a atos de desespero.

A guerra com o Irão proporcionou ao mundo uma lição sobre como os EUA, grande potência mundial, ficaram presos a conceitos da Guerra Fria. Uma potência que se recusou a ver os sinais de uma mudança global que exigiam que “superasse” a sua a sua auto convicção do “fim da história”. Embora todos os indícios de uma mudança para outra “forma de guerra” estivessem presentes desde o início deste século, o ponto de viragem veio com a abundância de componentes tecnológicos baratos e facilmente disponíveis.

Os EUA, no início da Guerra Fria, optaram por uma estratégia de gastar mais do que a URSS apostando em armamento de ponta e de alto custo, com foco principal no poder aéreo e no bombardeio aéreo em massa.

Essa abordagem, na época, pareceu justificada pela subsequente implosão soviética. Presumia-se que esse colapso tivesse sido desencadeado pelos gastos máximos americanos que sobrecarregaram a URSS. Na realidade, não se tratou de, designadamente, inferioridade, militar: o colapso foi sobretudo uma questão de erosão interna.

A dependência ocidental da preponderância do poder aéreo, proporcionado por aeronaves extremamente caras, foi destruído e mostrou-se ineficaz diante da guerra assimétrica de mísseis e naval do Irão, que utilizou armas que custam algumas milhares de dólares contra intercetores de defesa dos EUA que custam dezenas de milhões.

O mundo inteiro pode ver as principais lições que emergem da guerra do Irão: em primeiro lugar, que a postura de defesa ocidental está ultrapassada. As lideranças do sistema adormeceram, acreditando que mais milhares de milhões investidos no Complexo Industrial Militar dariam aos EUA uma vantagem militar fornecendo também a base para a hegemonia do dólar, permitindo imprimir mais dinheiro para comprar mais armas. Na prática, isso resultou em corrupção em grande escala e em armamentos ineficientes, mas extremamente caros.

A China pode ver como os recursos navais iranianos, menores e mais ágeis, superaram os grandes e pesados navios da Marinha dos EUA. As lições, naturalmente, serão aplicadas a Taiwan, caso os EUA busquem exercer pressão naval sobre a China no contexto de Taiwan.

A Rússia também deve ter percebido como uma ofensiva de mísseis cuidadosamente graduada e seletivamente direcionada proporcionou ao Irão capacidade de dissuasão em relação a Israel. Moscovo provavelmente estará pensando nestes termos no que diz respeito aos mísseis de origem britânica, francesa e alemã que têm atingido profundamente o território russo, utilizando o espaço aéreo e o apoio de inteligência da NATO.

Fonte - Alastair Crooke, A “guerra até o fim” de Israel pode vir a desmoronar os Estados Unidos

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