Há um escândalo político a ganhar dimensão em França, e
desta vez as denúncias não partiram de um partido da oposição, mas do
interior dos próprios serviços policiais e de informações do Estado. Em
causa está a suspeita de que estes serviços tenham recebido instruções
para responsabilizar a La France Insoumise (LFI), de Jean-Luc Mélenchon,
pelos confrontos e actos de violência ocorridos durante as
manifestações de 17 de Outubro.
Uma
investigação publicada pelo Mediapart, a 19 de Outubro, revelou
comunicações escritas nas quais um comissário dos serviços de
informações territoriais denunciava instruções para atribuir à LFI a
responsabilidade pelo movimento, apesar de, segundo o próprio, os
agentes considerarem essa conclusão objectivamente errada e falsa.
Outros elementos policiais contestaram igualmente a versão
governamental, incluindo responsáveis sem qualquer simpatia particular
pela LFI.
A gravidade
destas revelações aumenta quando confrontada com as declarações da
procuradora da República de Paris, Laure Beccuau, que, a 19 de Outubro,
afirmou não poder confirmar que os responsáveis pelos actos de violência
na capital pertencessem à ultra-esquerda. Ou seja, enquanto
responsáveis políticos apontavam culpados com uma segurança invejável, a
própria Justiça reconhecia não dispor de elementos para sustentar essa
conclusão.
Entretanto,
multiplicam-se os vídeos que levantam questões sobre a actuação das
forças policiais, incluindo agentes à paisana misturados com
manifestantes. A 2 de Outubro, em Reims, um homem vestido à civil, de
rosto parcialmente coberto, foi filmado a lançar um projéctil durante
uma manifestação estudantil. O Ministério Público acabou por confirmar
que se tratava de um polícia da Brigada Anticriminalidade e que o
objecto era uma granada de fumo, considerando legal a intervenção. Em
Aubervilliers, outro agente à paisana foi filmado a golpear
repetidamente, com um bastão, a montra de um restaurante onde estudantes
se tinham refugiado. Circulam ainda imagens mostrando indivíduos
infiltrados a lançar pedras e a incendiar caixotes do lixo, cuja
identificação policial está estabelecida. Perante estes episódios, é
legítimo exigir que se investigue não apenas a violência dos
manifestantes, mas também a actuação das forças de segurança e o seu
eventual contributo para a escalada dos confrontos.
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