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23 de outubro de 2026

França e serviços secretos - um escândalo

Há um escândalo político a ganhar dimensão em França, e desta vez as denúncias não partiram de um partido da oposição, mas do interior dos próprios serviços policiais e de informações do Estado. Em causa está a suspeita de que estes serviços tenham recebido instruções para responsabilizar a La France Insoumise (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, pelos confrontos e actos de violência ocorridos durante as manifestações de 17 de Outubro.

Uma investigação publicada pelo Mediapart, a 19 de Outubro, revelou comunicações escritas nas quais um comissário dos serviços de informações territoriais denunciava instruções para atribuir à LFI a responsabilidade pelo movimento, apesar de, segundo o próprio, os agentes considerarem essa conclusão objectivamente errada e falsa. Outros elementos policiais contestaram igualmente a versão governamental, incluindo responsáveis sem qualquer simpatia particular pela LFI.

A gravidade destas revelações aumenta quando confrontada com as declarações da procuradora da República de Paris, Laure Beccuau, que, a 19 de Outubro, afirmou não poder confirmar que os responsáveis pelos actos de violência na capital pertencessem à ultra-esquerda. Ou seja, enquanto responsáveis políticos apontavam culpados com uma segurança invejável, a própria Justiça reconhecia não dispor de elementos para sustentar essa conclusão.

Entretanto, multiplicam-se os vídeos que levantam questões sobre a actuação das forças policiais, incluindo agentes à paisana misturados com manifestantes. A 2 de Outubro, em Reims, um homem vestido à civil, de rosto parcialmente coberto, foi filmado a lançar um projéctil durante uma manifestação estudantil. O Ministério Público acabou por confirmar que se tratava de um polícia da Brigada Anticriminalidade e que o objecto era uma granada de fumo, considerando legal a intervenção. Em Aubervilliers, outro agente à paisana foi filmado a golpear repetidamente, com um bastão, a montra de um restaurante onde estudantes se tinham refugiado. Circulam ainda imagens mostrando indivíduos infiltrados a lançar pedras e a incendiar caixotes do lixo, cuja identificação policial está estabelecida. Perante estes episódios, é legítimo exigir que se investigue não apenas a violência dos manifestantes, mas também a actuação das forças de segurança e o seu eventual contributo para a escalada dos confrontos.

 

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