A agressão à Venezuela marca o início da nova fase do império, configurada na nova Estratégia de Segurança dos EUA. É o primeiro passo desse manual de agressão em que os Estados Unidos assumem uma versão alargada da Doutrina Monroe impondo uma indiscutível hegemonia em todo o Ocidente, incluindo a Europa da UE e NATO, Japão, Israel e o que mais se verá.
Porém, não contem estes países com partilha de riquezas, a situação económica e financeira dos EUA e seus objetivos não o permitem. Serão colocados ao serviço do império como meras províncias imperiais ou colónias e postos com suas riquezas naturais e capacidades ao serviço de "Make America Great Again".
A hegemonia dos EUA significa que politicamente ou "estás por nós, obedecendo e alinhando com as nossas ações ou estás contra nós"; militarmente significa que poderes equivalentes ou superiores são ameaças à sua segurança, devem ser tratados como potenciais inimigos, independentemente das palavras e da diplomacia corrente; economicamente significa que as suas transnacionais obterão dos recursos naturais estratégicos dos países controlados, designadamente minerais críticos e elementos de terras raras" (potencial inexplorado da Venezuela).
A reindustrialização dos EUA, para além do sector militar industrial, será feito naqueles países, estabelecendo cadeias de fornecimento, excluindo a China, substituída pela "fabricação próxima" na América Latina, aproveitando os baixos salários da região.
Trata-se de assegurar o controlo do complexo militar-industrial dos EUA sobre minerais críticos para armas de tecnologia avançada e expulsar a China da América Latina, estabelecendo o controlo de toda a infraestrutura estratégica na região, como portos. A BlackRock poderá comprar o Canal do Panamá, e o Peru terá de vender o seu Porto de Chancay, porta de entrada marítima do Pacífico para a América Latina.
O trabalho será dividido entre a CIA e o Pentágono, captando sectores sociais alinhados com os EUA, ativistas para manifestações "antirregime" e intrometendo-se em eleições (desde logo Honduras, Colômbia, Brasil) e ameaçando bombardeamentos caso as "mudanças de regime" não tenham resultado (México, Nicarágua, Cuba).
Os processos foram já descritos pelo ex-agente da CIA Jonh Perkins, no seu livro "Confessions of an economic Hit Man". O problema dos "comentadores" é que a sua ignorância provém de não querem aprender... claro que também não lhes convém.
Então a China e a Rússia? Os EUA formalizam a criação de blocos que não têm alternativa senão consolidar-se e tratar de tomar conta do seu espaço estratégico. Não se espere que a "lei internacional" conte senão para propaganda. Aqui na política internacional prevalecem os interesses e as avaliações geoestratégicas, acima de ideologias ou da Carta da ONU.
A China e a Rússia são os únicos países que podem desafiar militarmente os EUA, além de outros como o Irão que podem causar sérios danos à estrutura militar extraterritorial dos EUA. Relativamente à forma como a hegemonia dos EUA vai prosseguir e impor-se, há pontos de vista diferentes entre a CIA e o Pentágono, entre Rúbio e Hegseth.
A CIA irá prosseguir mudanças de regime - a sua especialidade - baseada em que as populações irão submeter-se à intervenção porque não têm alternativa. Conta com as oligarquias, os elementos que financia (as "quintas colunas"), os media, os sectores do liberalismo. Semeiam o caos sem entenderem a importância da História, das culturas dos países, do patriotismo que subsista. Instauram ditaduras mantidas pela corrupção, repressão e propaganda, são as "democracias liberais" como ditaduras oligárquicas, mesmo neofascistas.
Os contratenores da "ordem mundial baseada em regras" não têm lugar na nova partitura. A soberania dos países do Ocidente é a que os EUA permitirem. Na UE isso já está facilitado, pela CE e pelos "europeístas convictos" sejam da direita ou ditos de esquerda.
Claro que há as contradições. Para quem ignora, é algo a que nenhum sistema pode fugir, imperialista ou não. Toda a estratégia dos EUA quer interna (desenvolver as capacidades militares) quer externa (operações da CIA e potencial do Pentágono no exterior) vai aumentar a abissal dívida, independentemente do ataque à Venezuela e colocar recursos naturais de outros países ao serviço dos EUA, contribuir para salvar a hegemonia do dólar, criando uma procura artificial de moeda, financiando a hegemonia americana.
Na visão imperialista a Venezuela, tinha de ser atacada, com as maiores reservas de petróleo do mundo, desafiou o dólar ao vender petróleo em yuan, euros, rublos e construindo canais de pagamento alternativos com a China. Nada de novo, Saddam Hussein do Iraque foi derrubado por mudar para euros; Gaddafi na Líbia por propor um dinar apoiado em ouro.
O processo em curso procura para travar a "acelerada desdolarização global liderada pela Rússia, China, Irão e BRICS", sinaliza desespero dos EUA, potencialmente acelerando o afastamento dos EUA, à medida que o Sul Global veja o perigo dos EUA tentarem uma hegemonia baseada na força militar e na apropriação dos recursos naturais e financeiros dos outros países.
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