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27 de janeiro de 2026

Entrevista de Agostinho Miranda



Ligado ao sec­tor da ener­gia desde os anos 1980, Agos­ti­nho Miranda, espe­ci­a­lista em direito da ener­gia e da arbi­tra­gem, fez boa parte da sua car­reira nos EUA, onde che­gou a direc­tor jurí­dico e admi­nis­tra­dor de empre­sas do grupo Stan­dard Oil Cali­for­nia, hoje Che­vron. Em entre­vista ao PÚBLICO, con­si­dera que um dos tra­ços de Donald Trump é a “petro­ma­nia”, evi­dên­cia de que as ope­ra­ções exter­nas que desen­ca­deia visam bai­xar o preço do bar­ril do petró­leo. E que na Vene­zu­ela o Pre­si­dente norte-ame­ri­cano quis garan­tir para as petro­lí­fe­ras ame­ri­ca­nas o domí­nio das recen­tes des­co­ber­tas de hidro­car­bo­ne­tos na região de Esse­quibo, na Gui­ana, que Nico­lás Maduro decla­rou em 2025 ser o 24.º estado da Vene­zu­ela. Já o con­fronto com a China na área energé­tica visa, entre outras coi­sas, tra­var a perda de infuên­cia do “petro­dó­lar”, que está sob a ame­aça dos BRICS, fórum de coo­pe­ra­ção entre gran­des eco­no­mias emer­gen­tes.



Na Che­vron, a segunda maior empresa petro­lí­fera ame­ri­cana, acom­pa­nhou as ope­ra­ções em África, no Médio Ori­ente e na Amé­rica Latina. Está a seguir de perto as mais recen­tes ope­ra­ções exter­nas dos EUA na Vene­zu­ela?

Estou sim, e com enorme inte­resse, con­si­de­rando, devo dizer, que nada jus­ti­fica no plano jurí­dico o que os Esta­dos Uni­dos fize­ram: rap­tar um Pre­si­dente [Nico­lás Maduro] para o jul­gar nos Esta­dos Uni­dos, com todo o apa­rato. É uma solu­ção sem pre­ce­den­tes his­tó­ri­cos nos tem­pos moder­nos, pelo menos desde a Segunda Guerra Mun­dial, um rapto que alguns já clas­si­fi­cam de golpe de mão, uma acção de uma pequena força num curto espaço de tempo.

Num artigo publi­cado a 5 de Janeiro, o Pré­mio Nobel da Eco­no­mia Paul Krug­man con­si­de­rou a ope­ra­ção norte-ame­ri­cana na Vene­zu­ela um delí­rio de Donald Trump.

A Vene­zu­ela vende 80% do seu petró­leo à China, o que equi­vale a cerca de 600 mil bar­ris por dia, não chega anu­al­mente a 30 mil milhões de dóla­res, mais coisa menos coisa. Por si só não jus­ti­fica desen­ca­dear uma acção. Mas exis­tem sem­pre várias cama­das a jus­ti­fi­ca­rem uma inter­ven­ção com a natu­reza daquela que está em curso na Vene­zu­ela, ofi­ci­al­mente des­crita como “poli­cial”. Há que deci­dir qual é a mais vero­sí­mil.

Qual é a mais vero­sí­mil?

Pri­meiro há que com­pre­en­der Trump, o líder da nação mais pode­rosa do mundo, pelo menos mili­tar­mente, há que aten­der a uma das com­po­nen­tes do seu carác­ter, aquilo a que chamo de petro­ma­nia: a ideia fixa de que a pros­pe­ri­dade do mundo assen­tou no sec­tor da ener­gia fós­sil, em par­ti­cu­lar do car­vão, do petró­leo e do gás natu­ral. E não há dúvida de que poten­ci­al­mente trouxe — é impor­tante dizê-lo — a cada ser humano a força mecâ­nica equi­va­lente a 200 escra­vos, como dizia Daniel Yer­gin no livro The Prize [1990]. E Trump pen­sará: se foi sobre o petró­leo que se eri­giu a pros­pe­ri­dade que fez dos EUA a maior potên­cia mun­dial, então não é pre­ciso ino­var, não é pre­ciso olhar para as alter­na­ti­vas… Basta con­ti­nuar a fazer o mesmo que se fez até agora.

A luta pelas fon­tes de ener­gia está quase sem­pre na ori­gem de mui­tos con­fli­tos…

… Claro que sim. A retro­fan­ta­sia já levou ao iní­cio de mui­tos conf itos para con­tro­lar as fon­tes de ener­gia. O caso do Ira­que, onde os EUA tive­ram algum sucesso, vem-me ime­di­a­ta­mente à cabeça. E Trump está a apli­car à Vene­zu­ela a mesma fór­mula, acres­cen­tando-lhe uma fic­ção:

rou­ba­ram-nos, vamos lá bus­car aquilo que é nosso.

Uma das razões do cres­cente pro­ta­go­nismo da China está na cap­ta­ção inten­siva de recur­sos natu­rais à escala glo­bal e os EUA jus­ti­fi­cam a vaga de ope­ra­ções exter­nas para con­te­rem o seu prin­ci­pal com­pe­ti­dor, espe­ci­al­mente tec­no­ló­gico.

A China Nati­o­nal Oil Ope­ra­tor Com­pany (CNOOC) tem a dimen­são da Exxon Mobil, é muito grande, a sua pro­du­ção mun­dial é equi­pa­rá­vel à da Exxon, mas insu­fi­ci­ente para as neces­si­da­des da China. As acções dos EUA não se resu­mem só à China, só ao petró­leo e tam­bém não são só delí­rio. Deixe-me vol­tar à tese de Krug­man de delí­rio na Vene­zu­ela. É que outras inter­ven­ções exter­nas dos EUA decor­re­ram em con­tex­tos muito dife­ren­tes do de hoje. Em 2003, a inva­são do Ira­que deu-se num qua­dro em que a pro­cura de petró­leo era muito supe­rior e havia uma escas­sez gene­ra­li­zada de fon­tes pri­má­rias de ener­gia, com o preço do petró­leo numa curva ascen­si­o­nal, tendo che­gado no final da década a 100 e 147 dóla­res por bar­ril.

Hoje temos uma situ­a­ção inversa?

Pre­ci­sa­mente, por­que hoje existe mais oferta de petró­leo do que de pro­cura, embora ainda não de gás natu­ral. Além de que nunca

houve um tão grande con­certo do oli­go­pó­lio pro­du­tor de petró­leo, da OPEP+ [for­mada por 23 gran­des pro­du­to­res], como nos dias de hoje. Por­tanto, a des­peito dos cor­tes da OPEP+, con­ti­nu­a­mos a ter excesso de oferta, e no último ano o preço do petró­leo des­ceu pra­ti­ca­mente 20%. Como em todas as deci­sões estra­té­gi­cas dos EUA há vários cli­en­tes, vários pro­ta­go­nis­tas, desde os polí­ti­cos con­ser­va­do­res mais tra­di­ci­o­na­lis­tas em ter­mos de polí­tica externa aos ven­de­do­res de equi­pa­mento mili­tar, e até aos que ainda defen­dem o excep­ci­o­na­lismo ame­ri­cano.

Com­pra a tese de que a mudança de regime na Vene­zu­ela é um pro­jecto do secre­tá­rio de Estado Marco Rubio, filho de exi­la­dos cuba­nos, para enfra­que­cer Cuba?

Conheço essa linha de argu­men­ta­ção e conheço o per­curso polí­tico de Rubio, e, face aos últi­mos acon­te­ci­men­tos, está a fazer bem o papel de radi­cal de ser­viço.

Per­cebe-se que, pro­va­vel­mente, Rubio quer ficar na his­tó­ria como um liber­ta­dor da Amé­rica Latina, de Cuba, da Vene­zu­ela, uma espé­cie de Bolí­var tra­di­ci­o­na­lista ou con­ser­va­dor, seja o que for.

A Vene­zu­ela tem jazi­das de petró­leo e de gás supe­ri­o­res em volume às dos EUA... … Ou da Ará­bia Sau­dita. Sem grande receio de errar, posso adi­an­tar que o ele­mento petró­leo foi impor­tante na deci­são de Trump de inter­vir na Vene­zu­ela.

Ape­sar das petro­lí­fe­ras ame­ri­ca­nas mos­tra­rem desin­te­resse em vol­ta­rem-se para a Vene­zu­ela, onde o petró­leo é de muito difí­cil extrac­ção, as infra-estru­tu­ras estão obso­le­tas e exi­gem inves­ti­men­tos de 100 mil milhões dóla­res?

Ainda recen­te­mente, perante Trump, o CEO da Exxon [Dar­ren Woods] afir­mou que, por agora, era “inin­ves­tí­vel” na Vene­zu­ela, e Trump res­pon­deu-lhe: “They are pla­ying too cute”. Numa tra­du­ção livre: “Estão a armar-se em esper­ti­nhos.” As petro­lí­fe­ras recu­sam ainda pelas poten­ci­ais res­pon­sa­bi­li­da­des que impen­dem sobre os inves­ti­do­res e os ban­cos, aos quais o Estado vene­zu­e­lano deve muito dinheiro nos ter­mos de várias sen­ten­ças inter­na­ci­o­nais que o con­de­na­ram por incum­pri­mento. E sem­pre que um banco põe fun­dos à dis­po­si­ção do Governo ou da PDVSA [petro­lí­fera vene­zu­e­lana] corre o risco de ser penho­rado.

É admis­sí­vel que Trump tenha garan­tido que Cara­cas pagará as dívi­das que recla­mam?

Esse é um bom argu­mento, mas as petro­lí­fe­ras já assu­mi­ram os cré­di­tos como per­das. O pro­blema está resol­vido. E a má expe­ri­ên­cia na Vene­zu­ela foi com os mes­mos gover­nan­tes que se man­têm, por­que não era Maduro que tra­tava dos temas petro­lí­fe­ros, era a actual Pre­si­dente inte­rina. E se o petró­leo vene­zu­e­lano inte­res­sar às petro­lí­fe­ras nas actu­ais cir­cuns­tân­cias é numa medida muito redu­zida.

Para si, a ope­ra­ção dos EUA na Vene­zu­ela não está rela­ci­o­nada com o con­trolo das fon­tes energé­ti­cas? Per­cebi bem?

Não foi o que eu disse. Se por hipó­tese, esti­vesse no board [con­se­lho de admi­nis­tra­ção] da Exxon Mobil, a maior petro­lí­fera do mundo, esta­ria muito, mesmo muito feliz, mas não era para vol­tar para a Vene­zu­ela, onde a Exxon tem um cré­dito de seis mil milhões de dóla­res sobre o qual já terá feito o write-off [reco­nhe­ci­mento de dívida irre­cu­pe­rá­vel]. É que a Exxon e a Che­vron andam há dez anos a tra­ba­lhar na maior des­co­berta de petró­leo dos últi­mos 15 anos, cuja extrac­ção está a ter lugar na Gui­ana, uma ex-coló­nia bri­tâ­nica, na fron­teira com a Vene­zu­ela.

Já escre­veu que a des­co­berta da maior bacia de hidro­car­bo­ne­tos na região ama­zó­nica é um “pré­mio

Como em todas as deci­sões estra­té­gi­cas dos EUA há vários cli­en­tes, vários pro­ta­go­nis­tas, desde os polí­ti­cos con­ser­va­do­res mais tra­di­ci­o­na­lis­tas em ter­mos de polí­tica externa aos ven­de­do­res de equi­pa­mento mili­tar, e até aos que ainda defen­dem o excep­ci­o­na­lismo ame­ri­cano

dema­si­a­da­mente ten­ta­dor para qual­quer auto­crata”…

Exac­ta­mente. Os cam­pos offshore na bacia Sta­broek, na região de Esse­quibo, são titu­la­dos em 75% pela Exxon e pela Che­vron. Neste momento, já estão a pro­du­zir 650 mil bar­ris por dia, a 30 dóla­res por bar­ril, com a expec­ta­tiva de mais do que dupli­car a pro­du­ção em 2027, supe­rando a pro­du­ção anual da Vene­zu­ela. Já é uma pro­du­ção maior do que a do Reino Unido no Mar do Norte. E Nico­lás Maduro recla­mou a região de Esse­quibo como per­tença da Vene­zu­ela. Depois de mui­tas ame­a­ças, con­fron­tado com uma acção no Tri­bu­nal Inter­na­ci­o­nal de Jus­tiça, em Haia, inter­posta em 2018, e que per­deu, fez um refe­rendo aos vene­zu­e­la­nos, e não aos habi­tan­tes da Gui­ana Esse­quiba, a per­gun­tar se Esse­quibo era, ou não, parte da Vene­zu­ela. E, claro, ganhou o sim e Esse­quibo tor­nou-se o 24.º Estado da Vene­zu­ela — desde Junho de 2025 que tem um gover­na­dor vene­zu­e­lano empos­sado. Nessa altura, a Gui­ana pediu a inter­ven­ção de uma força norte-ame­ri­cana.

Foi um fac­tor deter­mi­nante para Trump reti­rar Maduro do poder?Novos mapas Nico­lás Maduro exibe um mapa da Vene­zu­ela em Cara­cas, em Dezem­bro de 2023, durante um comí­cio a favor da ane­xa­ção do ter­ri­tó­rio de Esse­quibo, há muito dis­pu­tado com a Repú­blica Coo­pe­ra­tiva da Gui­ana

É segu­ra­mente um ele­mento cen­tral. Estão em causa 11 mil milhões de bar­ris de reser­vas cer­ti­fi­ca­das recu­pe­rá­veis. É bru­tal!

Note bem: a capa­ci­dade que uma petro­lí­fera tem de subs­ti­tuir reser­vas con­di­ci­ona o valor das acções em mer­cado. E quanto mais barato sair o bar­ril, maior o inte­resse em titu­lar os cam­pos. E estando o sec­tor no geral a cor­tar em média 10% dos seus inves­ti­men­tos, com gran­des cor­tes de pes­soal, e não exis­tindo na Vene­zu­ela novas des­co­ber­tas, para quê inves­ti­rem ali? O petró­leo está lá, mas a que custo sairá a explo­ra­ção? A que custo médio sai o bar­ril de petró­leo? Na mes­mís­sima for­ma­ção geo­ló­gica da bacia Sta­broek, no Suri­name e no Bra­sil foi tam­bém des­co­berto petró­leo.

Já o ouvi dizer que essa des­co­berta na foz do Ama­zo­nas é uma benesse e uma tragé­dia para o Bra­sil.

É uma benesse por­que vai per­mi­tir ao Bra­sil man­ter-se na década de 30 na posi­ção de quarto maior pro­du­tor mun­dial, mas é uma tragé­dia por­que o patri­mó­nio ambi­en­tal poderá vir a ser afec­tado de forma insubs­ti­tu­í­vel.

Trump abrirá uma dis­puta com o Bra­sil em torno do petró­leo?

Não vejo que haja poten­cial para um conf ito como o da Vene­zu­ela ou o da Colôm­bia. Depois de dez anos de dis­cus­são, em Outu­bro, o Pre­si­dente Lula deci­diu atri­buir ao mesmo con­sór­cio, [entre] Exxon/Che­vron e uma empresa chi­nesa, uma licença para pes­quisa e explo­ra­ção de petró­leo na zona. Temos de ser rea­lis­tas: o Bra­sil tem uma esta­bi­li­dade que os outros paí­ses his­pâ­ni­cos à volta não têm e no Bra­sil as empre­sas ame­ri­ca­nas estão a fun­ci­o­nar nor­mal­mente.

Não sendo os Esta­dos Uni­dos ener­ge­ti­ca­mente auto-sufi­ci­en­tes…

Não há nenhum país no mundo que o seja. Os EUA são auto-sufi­ci­en­tes em ape­nas dois ter­ços das suas neces­si­da­des de petró­leo e con­ti­nuam a impor­tar uma parte sig­ni­fi­ca­tiva do que refi­nam, e, pro­va­vel­mente, já no iní­cio da década de 30 terão uma dimi­nui­ção de pro­du­ção. Embora o petró­leo con­ti­nue a ser deter­mi­nante, com os EUA a pro­du­zi­rem por dia quase 14 milhões de bar­ris de petró­leo, a pro­du­ção de gás natu­ral é igual­mente impor­tante. Hoje, pro­du­zem em gás natu­ral o equi­va­lente a 12 milhões de bar­ris de petró­leo.

A actual Admi­nis­tra­ção aca­bará por ser for­çada a pro­cu­rar alter­na­ti­vas não-fós­seis?

Devo dizer que o que hoje se passa nos EUA é muito grave, pois esta é uma

Admi­nis­tra­ção que não vê alter­na­tiva aos com­bus­tí­veis fós­seis. Havia uma deci­são tomada por Biden de a par­tir do pró­ximo ano se come­çar a des­man­te­lar as polí­ti­cas pró-fós­seis, aque­las que a Admi­nis­tra­ção Trump defende. E Trump já come­çou a rever­ter os apo­ios às solu­ções pró-clima. Trump refere-se às ener­gias não-fós­seis como “as ener­gias dos libe­rais”.

A rever­são do plano de Biden é uma ten­ta­tiva de fazer fra­cas­sar a agenda cli­má­tica?

É, sim. Se há lobby pode­ro­sís­simo junto de Trump é o da ener­gia fós­sil. O secre­tá­rio de Estado da Ener­gia, Chris Wright [crí­tico da tese da crise cli­má­tica e defen­sor das ener­gias fós­seis] vem dessa área. E o grupo dos mai­o­res pro­du­to­res do shale [gás de xisto], lide­rado pela Che­vron, tem muito, muito poder. Atra­vés de uma ordem exe­cu­tiva, Trump reti­rou aos esta­dos a pos­si­bi­li­dade de darem incen­ti­vos às empre­sas de ener­gias reno­vá­veis. Uma deci­são que há-de ser des­crita como um dos mai­o­res erros da Admi­nis­tra­ção Trump. Já

O que se vier a pas­sar na Vene­zu­ela não vai con­tri­buir para o pres­tí­gio de Trump

Os EUA sem­pre dis­pu­ta­ram a Gro­ne­lân­dia, mas é difí­cil de inter­pre­tar a agres­si­vi­dade com que pro­cu­ram tomar conta da ilha

Rubio quer ficar na his­tó­ria como um liber­ta­dor da Amé­rica Latina, de Cuba, da Vene­zu­ela, uma espé­cie de Bolí­var con­ser­va­dor

foram anu­la­dos con­tra­tos assi­na­dos com empre­sas reno­vá­veis equi­va­len­tes a mais de 100 mil milhões de dóla­res.

Vol­tando à dis­puta pelas fon­tes de ener­gia, em que medida a ope­ra­ção na Vene­zu­ela visa ter um efeito dominó para con­ter estra­te­gi­ca­mente a China no espaço que os EUA recla­mam como seu?

Peter Zeihan escre­veu um livro a evi­den­ciar que há razões eco­nó­mi­cas, polí­ti­cas, estra­té­gi­cas e de segu­rança para os Esta­dos Uni­dos con­cen­tra­rem as pri­o­ri­da­des nas Amé­ri­cas. Veja­mos: a Amé­rica Latina tem maté­rias-pri­mas sufi­ci­en­tes para os Esta­dos Uni­dos, enquanto a África e o Médio Ori­ente têm para ali­men­tar a China. Estou con­ven­cido de que a China vê a Amé­rica Latina mais como “bar­gai­ning chip” [moeda de troca], mais como uma forma de melho­rar as con­di­ções de nego­ci­a­ção com os Esta­dos Uni­dos, do que como fonte de acesso a maté­rias-pri­mas, ainda que sejam bara­tas. Na prá­tica, na Vene­zu­ela, os EUA dis­se­ram à China: saiam do nosso quin­tal! E acho que têm gran­des hipó­te­ses de sucesso.

Por­quê?

A Estra­té­gia de Segu­rança Naci­o­nal dos EUA, divul­gada em 2025, é muito clara: o objec­tivo cen­tral é o con­trolo das Amé­ri­cas. E temos de reco­nhe­cer que, entre o Canadá e a Argen­tina, os EUA têm tudo o que pre­ci­sam, não pre­ci­sam de ir mais longe: petró­leo, gás natu­ral, cobre, ter­ras raras, lítio… É perto, são paí­ses com muita gente nova, gente com von­tade de tra­ba­lhar e de ganhar dinheiro.

Temos vindo a assis­tir à ero­são da segu­rança da nave­ga­ção em alto mar [com apre­sa­mento de navios], com o ano de 2025 a ser aquele em que ocor­re­ram mais inci­den­tes com petro­lei­ros em alto mar, um espaço por lei que é into­cá­vel. E os EUA pen­sam que quanto mais perto esti­ve­rem as fon­tes de maté­rias-pri­mas mais faci­li­tado é o seu acesso.

A perda pro­gres­siva do peso do dólar como moeda de reserva e de refe­rên­cia nas tro­cas comer­ci­ais é um sinal da perda de hege­mo­nia dos EUA que deve pre­o­cu­par a Casa Branca?

Em Novem­bro de 2024, um dos auto­res do acordo secreto de Mar-a-Lago, que advoga a reforma do sis­tema finan­ceiro inter­na­ci­o­nal, Stephen Miran [que Trump nomeou para lide­rar o con­se­lho de asses­so­res eco­nó­mi­cos e acaba de indi­car para a FED], escre­veu um artigo a aler­tar para o facto de os prin­ci­pais ban­cos cen­trais mun­di­ais terem dimi­nu­ído em quase 20% a uti­li­za­ção do dólar enquanto moeda de reserva, levando a uma perda da posi­ção da moeda norte-ame­ri­cana nos últi­mos 15 anos. E, por­tanto, a subs­ti­tui­ção de dóla­res por outras moe­das, por ouro e prata, come­çou bas­tante lá atrás.

A “des­do­la­ri­za­ção” do sis­tema inter­na­ci­o­nal, uma aposta dos BRICS [cri­ada pela China, Rús­sia, Bra­sil e Índia], é um desa­fio à ordem lide­rada pelos EUA?

Os BRICS já têm uma moeda para fazer tro­cas comer­ci­ais entre si, o BRICS Pay, e um sis­tema de com­pen­sa­ção, o mBridge, dois ins­tru­men­tos a fun­ci­o­nar ple­na­mente que reti­ram poder ao dólar, que con­ti­nua a ser domi­nante. A ques­tão é: até quando? O momento de vira­gem do lugar do dólar no sis­tema finan­ceiro inter­na­ci­o­nal deu-se em 2025 quando a Ará­bia Sau­dita ade­riu aos BRICS, colo­cando em causa o acordo entre Nixon e os sau­di­tas que deter­mi­nava o uso do dólar como moeda de refe­rên­cia nas tran­sac­ções petro­lí­fe­ras. Agora, a Ará­bia Sau­dita — que esteve na ori­gem dos petro­dó­la­res — já faz tran­sac­ções nou­tras moe­das.

Os EUA vêem a ade­são da Ará­bia Sau­dita aos BRICS como um ata­que?

Sina­li­zou, acho eu, a con­fir­ma­ção da ten­dên­cia de perda de inf uên­cia do dólar como moeda hege­mó­nica. Para ser rigo­roso, o iní­cio da ero­são do valor do dólar como moeda de reserva e de refe­rên­cia inter­na­ci­o­nal, coin­cide, mais coisa, menos coisa, com a deci­são de Obama de con­si­de­rar os ins­tru­men­tos de guerra

finan­cei­ros tão efi­ca­zes quanto as armas tra­di­ci­o­nais. E os EUA — atra­vés do Of ce of Foreign Assets Con­trol — come­ça­ram a usar as san­ções eco­nó­mi­cas e finan­cei­ras como arma. E tenho de dizer que o último prego neste cai­xão foi a ame­aça euro­peia, e

norte-ame­ri­cana em menor grau, de cap­tura e uti­li­za­ção de depó­si­tos rus­sos nos ban­cos euro­peus e ame­ri­ca­nos. Isso aca­bou por não pas­sar de ame­aça por­que apa­ren­te­mente alguém com a cabeça um boca­di­nho mais fria disse: cui­dado.

Por­que é que faz essa obser­va­ção?

Há o tema jurí­dico. E aos euro­peus che­gou uma men­sa­gem de Lavrov [minis­tro dos Negó­cios Estran­gei­ros russo]: “A Rús­sia reta­li­ará sobre os acti­vos euro­peus na China, tendo já um acordo com Pequim.”

No puzzle pela expan­são do domí­nio norte-ame­ri­cano rumo ao Hemisfé­rio Oci­den­tal está a arma da guerra comer­cial?

O acordo de Mar-a-Lago con­si­dera ultra­pas­sado o sis­tema de Bret­ton Woods [regras para o sis­tema mone­tá­rio e

finan­ceiro defi­ni­das em 1944] e advoga um novo: defen­der a hege­mo­nia do dólar com uma des­va­lo­ri­za­ção até 30% e, simul­ta­ne­a­mente, pro­mo­ver a pro­cura do dólar por parte dos ban­cos cen­trais. Tudo isto está escrito no texto de Miran: os EUA vão uti­li­zar tari­fas alfan­de­gá­rias simé­tri­cas; se a União Euro­peia não man­ti­ver os níveis de reser­vas em dóla­res nos limi­tes que os EUA que­rem, os EUA reva­lo­ri­zam o ouro da Reserva Fede­ral, pre­sen­te­mente con­ta­bi­li­zado ao valor do tempo de Nixon, a 35 dóla­res a onça, o que será ter­rí­vel para a Europa, pois tor­na­ria a dívida ame­ri­cana (obri­ga­ções e bilhe­tes do tesouro) mais atrac­tiva. Foi isto o que dis­se­ram ao Banco Cen­tral Euro­peu.

Como é que inter­preta a obses­são de Trump pela Gro­ne­lân­dia, como mais um delí­rio ou como um epi­só­dio do pro­cesso de ajus­ta­mento para uma nova ordem mun­dial?

Ainda não entendo o que é que leva os Esta­dos Uni­dos, que em 1951 assi­na­ram um

tra­tado bila­te­ral com a Dina­marca de defesa da Gro­ne­lân­dia — e que lhes dá acesso à uti­li­za­ção de toda a ilha, nome­a­da­mente de explo­ra­ção comer­cial, e onde já che­ga­ram a ter mais de 17 bases mili­ta­res [hoje só tem uma] —, a pen­sa­rem tomar a Gro­ne­lân­dia. A ideia é pere­grina: “Ou nos ven­dem a ilha, ou inva­dimo-la.” No outro dia, ouvi um depu­tado por­tu­guês evi­den­ciar que o Governo não pode ven­der os Aço­res, um bem do domí­nio público, ina­lie­ná­vel, impres­cri­tí­vel.

As novas rotas comer­ci­ais marí­ti­mas que o degelo irá abrir no Oce­ano Árc­tico, que encur­tam as dis­tân­cias para a China ace­der às ter­ras raras da Gro­ne­lân­dia, é um risco de segu­rança interna para os EUA?

De certa forma, é. Os EUA sem­pre dis­pu­ta­ram a Gro­ne­lân­dia, mas é difí­cil de inter­pre­tar a agres­si­vi­dade com que pro­cu­ram tomar conta da ilha, abrindo uma guerra com um país ali­ado. É uma ten­ta­tiva de, tam­bém ali, Trump segu­rar os recur­sos energé­ti­cos e de água potá­vel e sei lá o que mais.

Mas jus­ti­fica abrir uma guerra com um ali­ado?

Em 2020, a Dina­marca aca­bou com a con­ces­são de novas licen­ças de explo­ra­ção petro­lí­fera, o que abran­geu a Gro­ne­lân­dia, e onde várias empre­sas ame­ri­ca­nas fazem explo­ra­ção e pes­quisa. Não se tem falado disto.

A ordem euro-atlân­tica que os pró­prios

EUA cri­a­ram tem os dias con­ta­dos?

Volto sem­pre à ques­tão cen­tral da estra­té­gia de Trump, repro­du­zida no Pro­ject 2025, subs­crito por 300 espe­ci­a­lis­tas con­ser­va­do­res liga­dos à Heri­tage Foun­da­tion: “A nossa dívida [dos EUA] pode ser a nossa sepul­tura. E se hoje nos empres­tam dinheiro a dez, a 20 anos, a valo­res razo­á­veis, se o nosso endi­vi­da­mento con­ti­nuar à cadên­cia dos últi­mos sete a dez anos, pode­mos ficar

numa situ­a­ção seme­lhante à de outros impé­rios que colap­sa­ram, como o do Reino Unido.” E defen­dem que a dívida se com­bate dei­xando os EUA de se envol­ve­rem em ope­ra­ções como por exem­plo a do Ira­que, que em 2004 visou pro­te­ger os cam­pos de petró­leo do Médio Ori­ente e as linhas de nave­ga­ção mun­di­ais em bene­fí­cio de outros cen­tros de poder. Não é a men­sa­gem que os EUA estão a dar. E não estou nada con­ven­cido de que os EUA redu­zam as ope­ra­ções mili­ta­res, pois aca­bam de aumen­tar o orça­mento mili­tar 50%.

Os EUA apren­de­ram alguma coisa com as ope­ra­ções no Ira­que, no Afe­ga­nis­tão?

Os EUA, são os EUA… Depois do acordo na OPEP+ de 2016, entre a Ará­bia Sau­dita e a Rús­sia, ter tido mui­tas con­se­quên­cias em ter­mos comer­ci­ais, mas pou­cas geo­es­tra­té­gi­cas, a China, em 2023, sur­giu a mediar um enten­di­mento diplo­má­tico his­tó­rico entre dois rivais, a Ará­bia Sau­dita e o Irão. E os EUA con­si­de­ra­ram o ali­nha­mento polí­tico e comer­cial, com inci­dên­cia no petró­leo e no gás, uma poten­cial ame­aça à segu­rança do mundo oci­den­tal e em espe­cial à sua. Há sus­pei­tas de que a China e o Irão coo­pe­rem mili­tar­mente em áreas de desen­vol­vi­mento nuclear. Podem ser teo­rias.

Dado que os EUA anun­ci­a­ram que pre­ten­dem bai­xar a cota­ção do petró­leo e do gás, pode isso levar a uma acção mili­tar no Irão?

Por tudo o que expli­quei atrás, a Admi­nis­tra­ção Trump quer bai­xar o preço do crude e do gás natu­ral e pode ser mais uma expli­ca­ção para as várias ope­ra­ções exter­nas, em par­ti­cu­lar, na Amé­rica Latina e no Irão. Estes novos ali­nha­men­tos desen­vol­vem-se num con­texto ins­tá­vel, com o mundo a con­su­mir petró­leo em valo­res glo­bais como nunca antes, em torno de 102 milhões de bar­ris por dia. E quando os gran­des pro­du­to­res pro­du­zem na força máxima, a ten­dên­cia é para o preço bai­xar, mas isso não está a acon­te­cer, pois a cota­ção tem-se man­tido alta, por­que é um preço polí­tico supor­tado por deci­sões da OPEP+, onde estão a Ará­bia Sau­dita, o Irão e a Rús­sia, ali­nha­dos com a China, o maior com­pra­dor de petró­leo e gás, que bene­fi­cia de des­con­tos.

Numa entre­vista ante­rior ao PÚBLICO, con­tou que a China olhou para a inva­são dos EUA no Ira­que como uma ten­ta­tiva de a pre­ju­di­car. A China está a olhar para o que hoje se passa no Irão com a mesma pers­pec­tiva?

A China inter­pre­tou a inva­são do Ira­que como um gesto hos­til, con­si­de­rando falsa a jus­ti­fi­ca­ção de que os EUA que­riam impor a demo­cra­cia, quando, real­mente, o que que­riam era cap­tu­rar as fon­tes de ener­gia e con­di­ci­o­nar o Irão [for­ne­ce­dor da China], e, assim, blo­quear o seu [da China] acesso ao Médio Ori­ente. Para não cor­rer ris­cos de ser pre­ju­di­cada com outras guer­ras, mon­tou uma estra­té­gia para ace­der às fon­tes energé­ti­cas de que pre­cisa.

Como é que a China está a olhar para o que se está a pas­sar no Irão?

Ima­gino que com apre­en­são. O Irão é o segundo maior for­ne­ce­dor de petró­leo à China e é pelo estreito de Ormuz que passa 30% do petró­leo do mundo, sendo que 80% vai para a China, para a Índia, para a Coreia do Sul e para o Japão. Por­tanto, o Irão é muito impor­tante tanto do ponto de vista da sua loca­li­za­ção, quer dos recur­sos natu­rais. Mas a Vene­zu­ela e o Irão têm em comum uma carac­te­rís­tica cul­tu­ral e his­tó­rica: o naci­o­na­lismo energé­tico. Os dois paí­ses lide­ra­ram o com­bate às petro­lí­fe­ras ingle­sas e ame­ri­ca­nas e a ques­tão petro­lí­fera é sem­pre deter­mi­nante na mudança de regi­mes em ambos.

Se den­tro de sete meses, quando decor­re­rem as elei­ções inter­ca­la­res ame­ri­ca­nas, a situ­a­ção inter­na­ci­o­nal não esti­ver esta­bi­li­zada, ou a ope­ra­ção na Vene­zu­ela cor­rer mal, Trump corre o risco de per­der o con­trolo do Senado?

Não sou capaz de fazer um prog­nós­tico. Mas sou capaz de dizer que o que se vier a pas­sar na Vene­zu­ela não vai con­tri­buir para o pres­tí­gio de Trump e não lhe trará votos de cer­teza abso­luta. Nem sei se Trump ten­tou blo­quear a dis­cus­são pro­gra­mada nos cír­cu­los demo­cra­tas sobre Eps­tein e sobre o assalto ao Capi­tó­lio, por­que os dois temas estão mar­gi­na­li­za­dos. No meio da con­fu­são, per­deu-se a recente infor­ma­ção de que, até agora, só foram divul­ga­dos 1% dos docu­men­tos Eps­tein. Público , Domingo 25 /1

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