Maj General Raul Luís Cunha
Face
ao que está a acontecer com a Gronelândia, como o protagonista não se
chama Putin, mas sim Trump, como o país agressor não é a Rússia mas sim
os EUA, o discurso altera-se. Substituem-se as certezas pelos silêncios,
as condenações por eufemismos, os crimes por “operações”, o direito
internacional por “razões de segurança”. Os mesmos acéfalos comentadores
que exigiriam tribunais internacionais explicam agora, com voz grave e
olhar sabujo e compreensivo, que “a situação é complexa”, que “há
antecedentes”, que “não se pode ser ingénuo”.
Esta
não é uma ocasional falha de análise. É mesmo uma opção política e
moral. Os arautos do chamado Ocidente não reagem em função de
princípios, mas sim de alinhamentos e da consequente necessidade de
imposturas. O direito internacional não é um corpo normativo universal. É
um instrumento seletivo, para ser aplicado com rigor aos inimigos e
suspenso quando possa incomodar os vassalos e/ou aliados. As televisões
europeias, longe de serem espaços de escrutínio crítico, funcionam como
emissores e/ou câmaras de eco dessa hipocrisia estrutural, procurando
normalizar o inaceitável sempre que o inaceitável vem do lado "certo".
O
escândalo, ignomínia, infâmia, baixeza e opróbrio não está apenas no
que é feito, mas sim no que é tolerado, justificado e silenciado. E
enquanto este duplo critério persistir, toda a profusa e cínica retórica
sobre valores, democracia e ordem internacional não passará de
propaganda bem iluminada, ruidosa quando convém e alterada quando mais
importa.
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