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8 de janeiro de 2026

A Venezuela não tinha o certificado de democracia

 A versão dos bons alunos europeístas é que os EUA violaram o direito internacional, mas Maduro era um tirano e não se podem derrubar tiranos seguindo o direito internacional. Desta ou de formas mais subtis a posição dos comentadores - e mesmo de gente que se diz de esquerda - tem sido esta. Os "europeístas convictos" alinham com o império através da partícula adversativa "mas" - ficam com boa consciência e são tolerados pelos media. Que mais podem querer...

Macron considerando a remoção de Maduro como "boas notícias", diz desaprovar os métodos dos EUA nas operações na Venezuela. Jornalistas da BBC foram proibidos de usar "sequestrado" em relação a Maduro, substituído por "capturado" e "apreendido" é esta também a terminologia por cá. Mais uma vez a Europa mostra-se como vassalo dos Estados Unidos. Se o império não aceita um governo, passa a "regime" não é considerado democracia.

Isto significa que se aceita que uma autoridade determine o que é democracia ou totalitarismo, ditadura, etc. É um esquema de raciocínio medieval, anterior ao racionalismo e à sua dúvida metódica, em que um sucedâneo do papado aplica de acordo com a sua ideologia e interesses a excomunhão a pessoas, a interdição a países, podendo serem movidas cruzadas caso não sigam a sua autoridade e dogmáticas.

Seria conveniente que fossem apresentados os factos que sustentam a acusação de ditadura por entidades e observadores independentes, não propriamente o que é ditado pelos media controlados. William Colby, ex-diretor da CIA disse que "a CIA controla todos os que têm importância nos principais media". Outras afirmações incluindo ex-agentes vão no mesmo sentido. John Pilger (jornalista, escritor, académico e cineasta, já falecido) disse que "a essência dos media não é informação: é o poder." "Nos EUA seis mega empresas: NBC, FOX, Dysney, Viacom, Time Warner (CNN), CBS, controlam 90% do que vemos, ouvimos ou lemos."

Nos media proliferam os "comentadores". De facto, na Idade Média, na escolástica, não havia investigadores, apenas "comentadores" de textos assimilados como dogmas. E ai daqueles que os contestassem… Atualmente os "comentadores" ao serviço do sistema são o clero do neoliberalismo. Podem passar horas em monocórdicas orações sobre a submissão às "regras da UE", ao "reformismo" à "reforma do Estado" sempre em conformidade com o dogma neoliberal. Isto não falando das suas "análises" sobre a Ucrânia ou Israel.

Para os "comentadores"é aceite como democracia um sistema capitalista parlamentar que não conteste a hegemonia dos EUA, não importa que nos EUA e UE cada vez mais as liberdades democráticas sejam cerceadas por razões de "segurança" contra designados inimigos ou pelo consequente endividamento forçando a "austeridade".

A "ditadura bolivariana" foi  agora submetida á democracia imperial: obediência aos EUA e petróleo para as suas transnacionais. A narrativa de defesa da democracia pelo ocidente, não resiste à crítica do prof. Mearsheimer sobre a política externa de "liberdade e democracia" dos EUA: Nos EUA "temos uma rica história de nos aliar a alguns dos maiores ditadores do mundo. Então, esta ideia de que estamos protegendo a liberdade e a democracia não combina com a realidade". De facto, os mesmos que consideram Maduro um ditador, veem Milei da Argentina como um democrata que considerou o sequestro de Maduro, como “excelentes notícias para o mundo livre”. 

Para obter um certificado de democrata e a sua periódica revalidação é tão importante o que se faz e não se faz, o que se diz e o que se não dizO facto do poder em Kiev estar nas mãos de neonazis apoiados pela NATO não deve ser mencionado. Putin deverá sempre ser referido como ditador. Ter havido um referendo na Crimeia e no Donbass não conta. No Kosovo, sim, contou, tanto mais que os EUA lá instalaram uma base militar, mas é melhor não falar nisso.

Deve-se repetir como verdade absoluta o que dizem os media de referência dos EUA, como o Financial Times, New York Times, Wall Street Journal. Não se caia na asneira de defender o controlo público ou a nacionalização dos sectores estratégicos. Se o fizer, será reprovado e poderá mesmo ser qualificado como "estalinista", o que quer que isto seja.

Quando se obtém um certificado de democracia protestos e manifestações mesmo massivos (como na Argentina) passam por expressão da democracia ou então distúrbios antidemocráticos. Nuns as ações de vandalismo são oportunidade para repressão sobre manifestantes pacíficos e "repor a ordem"; nos países "iliberais" são revoltas espontâneas pela democracia e direitos humanos e contra o regime. Nuns há terroristas. Noutros rebeldes, combatentes da liberdade. Quanto a eleições, se não colocam no poder os alinhados com o império, são declaradas fraudulentas. Assim, vai o que chamamos ocidente.

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