A versão dos bons alunos europeístas é que os EUA violaram o direito internacional, mas Maduro era um tirano e não se podem derrubar tiranos seguindo o direito internacional. Desta ou de formas mais subtis a posição dos comentadores - e mesmo de gente que se diz de esquerda - tem sido esta. Os "europeístas convictos" alinham com o império através da partícula adversativa "mas" - ficam com boa consciência e são tolerados pelos media. Que mais podem querer...
Macron considerando a remoção de Maduro como "boas notícias", diz desaprovar os métodos dos EUA nas operações na Venezuela. Jornalistas da BBC foram proibidos de usar "sequestrado" em relação a Maduro, substituído por "capturado" e "apreendido" é esta também a terminologia por cá. Mais uma vez a Europa mostra-se como vassalo dos Estados Unidos. Se o império não aceita um governo, passa a "regime" não é considerado democracia.
Isto significa que se aceita que uma autoridade determine o que é democracia ou totalitarismo, ditadura, etc. É um esquema de raciocínio medieval, anterior ao racionalismo e à sua dúvida metódica, em que um sucedâneo do papado aplica de acordo com a sua ideologia e interesses a excomunhão a pessoas, a interdição a países, podendo serem movidas cruzadas caso não sigam a sua autoridade e dogmáticas.
Seria conveniente que fossem apresentados os factos que sustentam a acusação de ditadura por entidades e observadores independentes, não propriamente o que é ditado pelos media controlados. William Colby, ex-diretor da CIA disse que "a CIA controla todos os que têm importância nos principais media". Outras afirmações incluindo ex-agentes vão no mesmo sentido. John Pilger (jornalista, escritor, académico e cineasta, já falecido) disse que "a essência dos media não é informação: é o poder." "Nos EUA seis mega empresas: NBC, FOX, Dysney, Viacom, Time Warner (CNN), CBS, controlam 90% do que vemos, ouvimos ou lemos."
Nos media proliferam os "comentadores". De facto, na Idade Média, na escolástica, não havia investigadores, apenas "comentadores" de textos assimilados como dogmas. E ai daqueles que os contestassem… Atualmente os "comentadores" ao serviço do sistema são o clero do neoliberalismo. Podem passar horas em monocórdicas orações sobre a submissão às "regras da UE", ao "reformismo" à "reforma do Estado" sempre em conformidade com o dogma neoliberal. Isto não falando das suas "análises" sobre a Ucrânia ou Israel.
Para os "comentadores" só é aceite como democracia um sistema capitalista parlamentar que não conteste a hegemonia dos EUA, não importa que nos EUA e UE cada vez mais as liberdades democráticas sejam cerceadas por razões de "segurança" contra designados inimigos ou pelo consequente endividamento forçando a "austeridade".
A "ditadura bolivariana" foi agora submetida á democracia imperial: obediência aos EUA e petróleo para as suas transnacionais. A narrativa de defesa da democracia pelo ocidente, não resiste à crítica do prof. Mearsheimer sobre a política externa de "liberdade e democracia" dos EUA: Nos EUA "temos uma rica história de nos aliar a alguns dos maiores ditadores do mundo. Então, esta ideia de que estamos protegendo a liberdade e a democracia não combina com a realidade". De facto, os mesmos que consideram Maduro um ditador, veem Milei da Argentina como um democrata que considerou o sequestro de Maduro, como “excelentes notícias para o mundo livre”.
Para obter um certificado de democrata e a sua periódica revalidação é tão importante o que se faz e não se faz, o que se diz e o que se não diz. O facto do poder em Kiev estar nas mãos de neonazis apoiados pela NATO não deve ser mencionado. Putin deverá sempre ser referido como ditador. Ter havido um referendo na Crimeia e no Donbass não conta. No Kosovo, sim, contou, tanto mais que os EUA lá instalaram uma base militar, mas é melhor não falar nisso.
Deve-se repetir como verdade absoluta o que dizem os media de referência dos EUA, como o Financial Times, New York Times, Wall Street Journal. Não se caia na asneira de defender o controlo público ou a nacionalização dos sectores estratégicos. Se o fizer, será reprovado e poderá mesmo ser qualificado como "estalinista", o que quer que isto seja.
Quando se obtém um certificado de democracia protestos e manifestações mesmo massivos (como na Argentina) passam por expressão da democracia ou então distúrbios antidemocráticos. Nuns as ações de vandalismo são oportunidade para repressão sobre manifestantes pacíficos e "repor a ordem"; nos países "iliberais" são revoltas espontâneas pela democracia e direitos humanos e contra o regime. Nuns há terroristas. Noutros rebeldes, combatentes da liberdade. Quanto a eleições, se não colocam no poder os alinhados com o império, são declaradas fraudulentas. Assim, vai o que chamamos ocidente.
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