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31 de março de 2025

A estupidez ao poder

 É óbvio que a nossa sociedade não é capaz de conduzir um discurso honesto, lógico e razoavelmente informado sobre assuntos relevantes. Em vez disso, experimentamos fantasia, fabricação, estupidez. É evidente que os nossos líderes nacionais, eleitos ou nomeados, são igualmente incapazes de deliberação sóbria, honestidade intelectual, lógica elementar, até mesmo de reconhecer realidades factuais. Michael Brenner.

Não estamos a chamar estúpidos a ninguém, dado que pessoas muito inteligentes podem dizer ou fazer coisas estúpidas levados por ideias erradas. Pior é quando a estupidez se torna assertiva, passando à fase de imbecilidade.

Vem isto a propósito de declarações do sr. Rocha, líder da IL, considerando que é necessário através da avaliação do desempenho distinguir os trabalhadores da Função Pública, pois os que nada fazem ganham o mesmo que os trabalham bem, impedem que estes melhorem os seus vencimentos.

Esta demagogia, embrulhada numa aparência justiceira, tem a constante "virtude" das políticas de direita colocarem trabalhadores contra trabalhadores: se há ordenados e pensões baixos é porque os "outros" nada fazem ou trabalham mal. Na prática tem servido, associada a "cotas" de desempenho, apenas para limitar salários e progressão nas carreiras... e para a "democracia liberal" dar à socapa 365 milhões de euros aos grupos económicos descendo o IRC.

O progresso é uma emanação coletiva, não o que o liberalismo diz: não há nada que se chame sociedade, há pessoas (M. Tatcher). Claro que com princípios errados só se obtêm crises como resultado. 

A sociedade liberal é uma sociedade atomizada por individualismos em que cada um tem que trabalhar o mais possível para que a oligarquia fique cada vez mais rica. É um facto, não uma opinião, basta ver o crescimento das desigualdades e quem aproveita o aumento das produtividades e da riqueza. (*) Vejamos então algumas notas sobre avaliação de desempenho.

1 - O nível de desempenho de qualquer organização não pode ser visto individualmente. A responsabilidade pelo desempenho cabe em primeiro lugar à gestão: a melhoria do desempenho coletivo tem que ver com organização; a melhoria do desempenho individual com formação, motivação e em última análise disciplina.

2 - Em termos de organização há que definir objetivos, funções e responsabilidades de cada sector e individualmente, condições e ferramentas de trabalho adequadas (por ex. computadores e seus programas), estabelecer procedimentos e instruções de trabalho, validados e divulgados. A sua execução deve ser auditada periodicamente para avaliação do desempenho, isto de forma didática, não como fiscalização persecutória. Quando existem erros de forma sistemática, os procedimentos devem ser atualizados ou corrigidos.

3 - A diversidade e especificidades de cada sector da Função Pública requer em cada caso, que a execução dos procedimentos deve ser feita por quem domine as matérias e a realidade do sector e também os requisitos da gestão pela qualidade do desempenho.

4 - Os objetivos de cada sector devem ser especificados em termos qualitativos e sempre que possível quantitativos, devendo ser discutidos com os executantes, hierarquia, auditores e aceites por todos, numa procura de melhoria da produtividade, qualidade, motivação. Ao definirem-se os critérios de avaliação aplicáveis ao sector estabelece-se o que constituem desvios relativamente aos objetivos e falhas em termos de qualidade donde resultam "não conformidades", donde se conclui sobre as causas e as ações de correção e de prevenção (formação, alteração dos procedimentos, elaboração de novas instruções de trabalho, etc.). Independentemente da avaliação devem estar definidos os critérios de valorização por bom desempenho e a progressão na carreira.

5 - As não conformidades podem ser reduzidas a "observações" (notas para melhoria), graves e se for o caso críticas. O mau desempenho resultante das entradas de elementos de outros sectores devem ser documentadas através de registos de entrada e saída de elementos de trabalho.

6 - A avaliação do desempenho individual deverá ser feito através de fórmula, reduzindo (se possível eliminando) fatores subjetivos, incorporando coeficientes de desempenho coletivo do sector e da equipa de trabalho, caso exista, baseados nas não conformidades ocorridas quer em termos de atrasos, erros ou falhas relativamente aos objetivos. Este exercício pode - e deveria - ser feito mesmo até ao nível de ministério ou direção geral. Não cabe aqui entrar em detalhes que implicariam definir uma gestão ainda que minimamente planificada.

Como conclusão, o que temos é: ou isto ou "liberalismo", a forma acabada de exploração da força de trabalho contra a qual desde o século XIX os trabalhadores se uniram e lutaram.

* - Eis o resultado da "assertividade liberal": Desde 2020, por cada dólar que os 90% mais pobres ganharam, os ultramilionários obtiveram 1,7 milhões. O 1% mais rico capturou quase dois terços de toda a nova riqueza. As fortunas ultramilionárias aumentaram 2,7 mil milhões de dólares, enquanto a inflação degradou os salários dos trabalhadores. (OXFAM)

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