A ordem mundial segundo as "regras" do imperialismo americano entrou em colapso. A nova ainda não está estabelecida. Uma luta desenrola-se para decidir entre as grandes potências basicamente EUA e aliados e a China e Rússia para definir as novas regras. Vivemos atualmente neste interregno.
As pessoas apercebem-se que o mundo mudou, mas a grande maioria nem entende as causas nem tem ideia de como deveria ser o futuro de forma viável. Andaram iludidos com a necessidade de derrotar a Rússia, "mudar o regime" (obsessão imperialista) e derrubar Putin como criminoso de guerra.
O contexto ucraniano, a guerra dos EUA/NATO/UE contra a Rússia, veio mostrar as fragilidades políticas, militares, económicas e financeiras do ocidente. A realidade encarregou-se de evidenciar aquelas limitações enviando para o caixote do lixo o triunfalismo de comentadores que alardeavam estupidamente que a Rússia tinha conseguido unir ainda mais o bloco atlantista, enquanto a Europa se afundava. Agravando as divergências internas do bloco, os vassalos europeus recusam-se a participar na guerra no Irão. Perante esta "felonia" Trump ameaça abandonar a NATO!
Numa região tão sensível para a economia global, só a imbecilidade vigente poderia desencadear uma guerra contra o Irão sem avaliar as consequências. Contudo já em junho de 2025 as tinham visto e sentido. O facto é que o Irão não se rende nem mostra sinais de enfraquecimento moral ou material, por muito que a propaganda insista em esconder os ataques do Irão a Israel e às bases dos EUA nos países do Golfo.
A guerra contra o Irão acaba por ser uma tentativa quase desesperada de ganhar posições contra a Rússia, colocando-lhe à porta outro regime adverso, e contra a China cortando-lhe acesso a volume significativo de combustíveis. O resto (BRICS) viria por acréscimo.
A propaganda deixou de falar em mudança de regime centrando-se agora no Estreito de Ormuz que se tornou um quebra cabeças para os agressores e coloca a UE/NATO perante uma crise que dificilmente pode ser descrita tal a gravidade que pode atingir.
Esta guerra ameaça levar os custos de energia a níveis exorbitantes. Trump de cabeça perdida, - porque se apercebe da derrota a que chegou, face ao que tinha apregoado e da quebra de apoio interno - ameaçou "destruir maciçamente" os campos de gás do South Pars do Irão após a retaliação do Irão contra ataques israelitas. South Pars, no Golfo Pérsico, é um dos maiores campos de gás natural do mundo, partilhado pelo Irão e o Qatar e a maior fonte de energia doméstica do Irão.
A questão é que o Irão responde aos ataques. Em retaliação ao ataque de Israel, o Irão atingiu no Qatar: centro de gás de Ras Laffan; no Kuwait: refinaria de Mina Al-Ahmadi e refinaria de Mina Abdullah, provocando incêndios; nos EAU: instalação de gás de Habshan e campo petrolífero de Bab; na Arábia Saudita: refinaria da Aramco em Yanbu. Os preços do gás natural subiram 24% para cerca de 78dólares/MWh na Europa (The Guardian).
Estaremos próximos da 3ª Guerra Mundial? Trump é perigosamente errático: envolvido com o Irão em importantes negociações, foram feitos ataques que mataram o Líder Supremo, a família, outros dirigentes e 170 crianças e professoras de uma escola, declarando estar a "destruir o sistema terrorista iraniano" (comentadores repetiram).
Com guerras de que não se vê o fim, no Médio Oriente e na Ucrânia, ataques em profundidade na Rússia, ultimatos a Putin, as vendas de armas atingiram máximos impulsionadas pela crescente instabilidade global criada pelos EUA. A história está cheia de exemplos em que a acumulação de armas cria momentos perigosos. A guerra pode começar com um acidente aleatório, uma falha cibernética ou uma falha tecnológica. Muitas vezes, não é claro se é mesmo um ataque. O país atacado pode perder o controlo estratégico: a internet ficar inativa, os satélites serem bloqueados, os exércitos perderem a comunicação. Nestas circunstâncias, a probabilidade de retaliação aumenta decisivamente.
Os ataques a cabos submarinos podem tornar-se extremamente perigosos. Quase 99% da internet e dos dados financeiros globais fluem através de pouco mais de 500 cabos de fibra ótica no fundo do oceano. Se alguns cabos forem cortados, como um "acidente de pesca" ou atingidos por um drone subaquático a Europa perde o contacto com a América, os bancos congelam, criam-se situações críticas.
Um ataque nuclear tático pode marcar o ponto de não retorno. Israel possui um arsenal nuclear avaliado em algumas centenas ogivas nucleares, os EUA têm milhares. Com situações extremas na Europa ou no Médio Oriente, uma provocação, um ataque nuclear "pequeno" ou tático numa tentativa desesperada e considerada existencial, conforme as doutrinas nucleares da Rússia e dos EUA, criaria um precedente de escalada quase impossível de conter.
Sem comentários:
Enviar um comentário