Por trás dos comunicados militares e das imagens está uma realidade fundamental: a guerra move-se para os balanços dos bancos centrais, as linhas de produção do complexo militar-industrial e os mercados de energia. O aparelho industrial iraniano, ao apostar numa estratégia de saturação de baixo custo, conseguiu expor a vulnerabilidade financeira da arquitetura imperial.
Existe um confronto entre estruturas económicas antagónicas e lógicas produtivas. A coligação EUA-Israel representa a forma mais avançada do capitalismo militarizado, com sistemas altamente sofisticados, décadas de pesquisa financiada pelo Estado e enormes margens de lucro dos monopólios do armamento.
A estratégia do Irão baseia-se numa industrialização restrita, marcada por sanções, que levou à produção em massa de armas simples, robustas e baratas. Este diferencial, que poderia ser interpretado como atraso, tornou-se uma vantagem estrutural numa guerra de desgaste.
O drone Shahed-136 produzido por vinte mil dólares, exige que o adversário mobilize sistemas de intercetação cujo preço unitário varia de várias dezenas de milhar a quase um milhão de dólares. Cada vaga enviada pelo Irão impõe que mesmo para neutralizar vetores relativamente simples, o aparelho imperial tem de consumir recursos tecnológicos e financeiros desproporcionais.
Esta dinâmica representa uma lei da guerra industrial: quando a reprodução do sistema defensivo é mais custosa do que a do ataque, o equilíbrio é quebrado.
Existe uma tensão crescente nas ações ocidentais. Mísseis SM-3 (custo unitário 12 milhões de dólares - 2021) para interceção extra atmosférica são produzidos em volumes limitados, exigindo componentes altamente especializados e complexas cadeias de fornecimento. Em duas semanas, o seu consumo teria ultrapassado o correspondente a vários meses de produção.
A guerra revela uma contradição clássica do capitalismo avançado: a extrema sofisticação tecnológica vem acompanhada de baixa capacidade de reprodução rápida, porque cada unidade incorpora mão de obra altamente qualificada, matérias-primas escassas e aumento do capital fixo.
Esta tensão material reflete-se na esfera financeira. O custo desta guerra para o eixo imperialista representaria mais de dois mil milhões de dólares por dia. Numa economia capitalista globalizada, esses números têm repercussões imediatas na circulação do capital.
Gastos militares extraordinários envolvem emissão adicional de dívida, acrescida mobilização de crédito e pressão crescente sobre os mercados financeiros. Este mecanismo, há muito descrito pelos economistas marxistas, ilustra como a guerra atua como acelerador das contradições internas do sistema. A economia de guerra tende a transferir recursos para setores que não participam diretamente da reprodução alargada do capital social.
A terceira frente deste conflito são os mercados de energia. A Agência Internacional de Energia anunciou a libertação de cerca de quatrocentos milhões de barris das reservas estratégicas mundiais, visando conter o aumento dos preços do petróleo devido às tensões no Estreito de Ormuz
Esta intervenção parece demonstrar a capacidade das instituições internacionais de estabilizar o mercado. No entanto, revela fragilidades estruturais. Reservas estratégicas não são uma fonte de produção, mas um temporário amortecedor dos choques. Seu uso massivo reduz a segurança energética para futuras crises.
Mesmo assim os efeitos inflacionários já começaram a sentir-se. O custo do frete marítimo aumentou drasticamente em duas semanas. A economia global atual baseia-se em cadeias de fornecimento otimizadas para minimizar estoques e acelerar a rotatividade de capital. Qualquer interrupção duradoura numa zona estratégica de energia atua como um multiplicador de custo, afetando todos os bens.
Do ponto de vista de uma análise marxista, a situação expõe uma contradição central da hegemonia imperial. Os estados dominantes possuem superioridade tecnológica e considerável poder militar, mas esse poder baseia-se num sistema económico que exige estabilidade no comércio, nos fluxos financeiros e energéticos. Uma guerra prolongada num espaço estratégico como o Golfo Pérsico ameaça essa estabilidade.
A superioridade tecnológica da coligação, enfrenta uma racionalidade económica cada vez mais questionável no contexto de uma guerra de desgaste. O Irão não busca conquistar território ou infligir uma derrota militar convencional. Na verdade, a sua estratégia é demonstrar como um sistema imperial baseado em tecnologias caras e cadeias de fornecimentos frágeis pode ser levado à exaustão.
Nesta perspetiva, esta guerra é a expressão de uma luta entre modelos de desenvolvimento e estruturas económicas.
O Império enfrenta um dilema difícil de resolver. Deixar de apoiar totalmente Israel seria enfraquecer a sua arquitetura de alianças e credibilidade geopolítica. Por outro lado, uma escalada adicional implica suportar o aumento dos custos financeiros e energéticos, pressões inflacionárias e aprofundamento da crise da dívida.
Na história do capitalismo, os momentos em que o poder militar e a base económica deixam de evoluir ao mesmo ritmo anunciam grandes viragens. Esta guerra, vai muito além do Médio Oriente. Aborda o problema da reprodução da hegemonia num mundo onde os equilíbrios materiais mudaram e onde o domínio imperial precisa mobilizar recursos cada vez maiores para se manter.
Sem comentários:
Enviar um comentário