“Ditar o ritmo”: quando a estratégia americana se resume ao volume do martelo
“O Irão não nos pode ultrapassar.” Eis, pois, a doutrina estratégica resumida por Pete Hegseth: a superioridade militar americana, a “violência da ação” e o poder ofensivo serão suficientes para impor o ritmo da guerra. Uma visão muito hollywoodiana da geopolítica: atacamos forte, muito forte, e o adversário acaba por perceber a lição.
No papel, isto soa como uma demonstração de força. Na realidade, parece mais uma sessão de auto‑hipnose estratégica.
Porque a história recente mostra que a superioridade militar americana nunca foi suficiente para garantir a vitória. O próprio Pentágono reconheceu no seu relatório de 2018 sobre a Estratégia de Defesa Nacional que “a vantagem militar dos Estados Unidos diminuiu face a adversários capazes de desafiar a projeção de poder americana”. Tradução burocrática: as guerras fáceis já não existem.
E, acima de tudo, o Irão não é o Iraque de 2003.
Nas últimas duas décadas, Teerão construiu precisamente a estratégia que neutraliza o tipo de doutrina marcial que Hegseth descreve: a atrito. Milhares de mísseis, drones de baixo custo, bases subterrâneas espalhadas por todo o território. O relatório do Congressional Research Service (CRS) sublinha que o Irão possui “a maior força de mísseis balísticos do Médio Oriente”. Quanto ao Comando Central Americano (CENTCOM), reconhece regularmente que estas capacidades representam “uma ameaça significativa para as forças americanas e os seus aliados na região”.
Ou seja, o Irão nunca pretendeu vencer os Estados Unidos num duelo simétrico. O seu objetivo é muito mais simples: sobreviver o tempo suficiente para tornar a guerra demasiado dispendiosa.
E é precisamente aqui que a declaração de Hegseth se torna fascinante. “Nós vamos ditar o ritmo e o tom”, afirma. Mas nas guerras modernas, quem realmente impõe o ritmo é muitas vezes aquele que aceita a duração.
É uma lição estratégica antiga que Washington parece redescobrir a cada geração. O relatório oficial da Comissão sobre o Afeganistão (U.S. Congress, 2021) já admitia que os Estados Unidos perderam “a batalha da duração” face a um adversário muito menos poderoso mas infinitamente mais paciente.
Ora o Irão joga exatamente esta carta.
Quanto mais o conflito se prolonga, mais a equação muda. As reservas de interceptores antimísseis, Patriot, THAAD, SM‑3, custam milhões de dólares por unidade. Os drones iranianos, por outro lado, podem chegar a custar dezenas de milhares de dólares. Até a U.S. Navy reconhece em várias audiências no Congresso que a defesa antimíssil face a salvas saturantes se torna rapidamente “economicamente assimétrica”.
Ou seja: a “violência da ação” americana é impressionante... mas é também extraordinariamente dispendiosa.
Entretanto, o Irão tem apenas um objetivo: aguardar.
É o paradoxo estratégico que a retórica marcial de Washington parece ignorar. Os Estados Unidos pensam ganhar atacando mais forte. O Irão, por seu lado, aposta em algo muito mais banal: a exaustão.
E nas guerras modernas, a história mostra que a força nem sempre ganha.
Às vezes, é simplesmente aquele que fica de pé por mais tempo.
@BPARTISANS
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